|
Palestra - Boletim ASA nº 79, nov-dez/2002 Intifada: mau negócio para todos Gália Golan Estamos em meio a uma crise econômica em Israel que é resultado direto da situação de segurança: o turismo entrou em colapso - e essa é a nossa principal indústria - e os investimentos no país foram suspensos, o desemprego gira em torno de 11% e estamos numa depressão econômica e psicológica. Vivemos diariamente com medo: medo de sair de casa, de pegar ônibus, de sentar num bar, de ir a shoppings. Os atentados terroristas vêm ocorrendo em qualquer lugar com freqüência extraordinária, às vezes um por dia, às vezes três ou quatro por semana. Dezenas de pessoas são mortas de uma só vez. Faz parte da natureza do terrorismo surpreender quanto ao local e à hora em que vai ocorrer. Este é provavelmente o pior período de toda a história do país. Seiscentos israelenses foram mortos nos últimos dois anos. A situação é ainda pior para os palestinos nos territórios ocupados. Cerca de 1600 foram mortos nos últimos dois anos. Eles vivem sob toques de recolher diários, mal podem sair de suas casas por mais de uma ou duas horas por dia, suas cidades são bloqueadas, eles não podem se locomover de uma cidade a outra sem autorização, alguns lugares são inteiramente isolados, até a água é cortada. Israel reocupou as cidades na chamada área A, que havíamos abandonado pelos Acordos de Oslo, e hoje temos prisões diárias e matanças diárias nos territórios ocupados. Temos desastre e tragédia em ambos os lados, os ocupados obviamente sofrendo mais do que o ocupante. Mas o ocupante, Israel, também está pagando um preço muito alto. Como chegamos a esta situação? Podemos começar pelos Acordos de Oslo, que foram, na minha opinião, um ponto de viragem, porque representaram o reconhecimento mútuo de palestinos e israelenses. A OLP, em 1988, decidiu desistir da idéia da Palestina histórica e aceitar o Estado de Israel. E Israel, com Itzhak Rabin, concordou, principalmente em resultado da Intifada, em reconhecer a OLP e iniciar negociações. Mas Oslo tinha problemas. Em primeiro lugar, eram acordos de princípios. E para cada passo era preciso nova rodada de negociações, novos acordos, mais atrasos. Em segundo lugar, eram temporários, e, portanto, durante três anos foi preciso construir confiança para começar negociações visando um acordo de paz final. Durante esses três anos, aqueles em ambos os lados que se opunham à paz aproveitaram cada oportunidade e fizeram todos os esforços para tentar dar um fim ao processo de paz. Uma combinação de fatores trabalhou então contra os Acordos de Oslo. Tivemos as intermináveis e repetidas delongas, falta de implementação por ambos os lados, o fundamentalismo islâmico com seus ataques terroristas, extremistas judeus, a contínua construção de assentamentos. Entretanto, tínhamos também, em ambos os lados, uma maioria que, mesmo com dúvidas, apoiava os Acordos. E, como resultado, Israel teve uma explosão econômica e a duplicação do número de países com os quais passamos a manter relações diplomáticas. O assassinato de Rabin, em novembro de 1995, seguido de quatro devastadores ataques terroristas, em fevereiro e março de 1996, levaram diretamente à eleição de Bibi Netaniahu e à virtual suspensão do processo de paz. Sob forte pressão do público israelense, dos palestinos e dos Estados Unidos, Netaniahu assinou alguns acordos, mas não implementou a maioria. E assim o processo de Oslo foi interrompido. Nos três anos e meio do governo de Netaniahu os palestinos viram que Israel fazia jogadas econômicas, políticas e diplomáticas enquanto para eles sobravam menos liberdade de movimento e novos assentamentos. Ehud Barak foi eleito nesse ponto, em 1999, prometendo trazer a paz em 15 meses com os palestinos e a Síria e se retirar do Líbano em um ano. A última promessa, ele cumpriu - saiu do Líbano em um ano. Penso que Barak pretendia de fato alcançar a paz, mas ele começou de maneira errada: ficou vários meses sem se reunir com Arafat e começou a negociar com os sírios, retardou a implementação dos Acordos de Oslo e novas retiradas que estavam programadas e, por fim, insistiu em ter uma reunião de cúpula, em Camp David, no verão [boreal] de 2000, quando os palestinos não acreditavam que era chegada a hora de negociar. Parece ser verdade que, em Camp David, Barak ofereceu mais do que qualquer outro primeiro-ministro israelense até então. Ele falou em devolver algo como 80%, 90%, 92% - não se sabe a percentagem exata - dos territórios ocupados, de modo que alguns assentamentos poderiam ser mantidos. Falou de Jerusalém como capital de dois Estados, com os bairros árabes integrando o Estado palestino e os bairros judeus integrando Israel. Havia, porém, uma oferta, que nenhum palestino poderia aceitar, pela qual Israel manteria o controle do espaço aéreo sobre a Margem Ocidental e Gaza, sobre as fontes de água na Margem Ocidental e sobre duas estradas que cruzam a Margem Ocidental, cortando o futuro Estado em três cantões. E, claro, era menos do que 100% da Margem Ocidental e da Faixa de Gaza. Os palestinos, que já haviam desistido de 78% da Palestina histórica, não pretendiam abrir mão de mais territórios. Mas talvez o pior foi que Israel exigiu que, com tais ofertas, o conflito se encerrasse, era pegar ou largar, sem que fosse resolvido o direito de retorno dos refugiados nem a questão do Monte do Templo, dentro da cidade velha de Jerusalém. O presidente Bill Clinton e Barak apresentaram o fracasso de Camp David como sendo o fracasso dos palestinos, como se Israel tivesse oferecido tudo e os palestinos recusaram. Depois disso, as negociações prosseguiram em Taba, em janeiro de 2001, e fizeram grande progresso na questão talvez mais importante, a dos refugiados. Já era tarde demais. Por causa do fracasso em Camp David, a Intifada havia eclodido. O estopim da Intifada foi a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo, mas de fato a Intifada havia sido planejada como resultado da frustração dos palestinos em Camp David. Podemos entender a razão da Intifada, mas penso que foi um erro trágico, pois conduziu ao poder um governo que acredita na força, na Grande Israel, nos assentamentos permanentes nos territórios ocupados, e admite, no máximo, algum tipo de autonomia palestina em áreas isoladas. O governo Sharon criou a situação que existe hoje. Ele não busca uma solução genuína que traga a paz porque não acredita que tal solução seja possível. A primeira Intifada foi um levante civil contra a ocupação e acabou levando Israel à mesa de negociação. Na atual, os palestinos têm uma força policial armada. Além disso, os israelenses não entendem por que esta Intifada começou. Para os israelenses, nós oferecemos tudo em Camp David e eles recusaram. Mais: o governo informou ao público que a questão que causou o colapso das conversações foi a do retorno dos refugiados palestinos. Esta é a única questão que se interpõe entre nós e os palestinos, a única diretamente relacionada à existência do Estado de Israel, porque, é claro, se 4 milhões ou 3 milhões de palestinos voltassem a Israel, não mais haveria um Estado judeu. Ao ser informado de que o direito de retorno era a questão sine qua non, o público israelense voltou à mentalidade que vigorava antes da criação do Estado, em 1948, de que nós somos vítimas, pois oferecemos tudo e eles querem nos destruir. E este é o sentimento geral da população: os palestinos não estão combatendo pelo fim da ocupação, eles estão combatendo para destruir o Estado de Israel. E eu não estou falando da direita, que sempre teve esse discurso. Estou falando de gente que acreditava na possibilidade de paz, de gente que apoiava os Acordos de Oslo, de gente de centro, que agora se volta para outra direção. Vários fenômenos podem ser percebidos. Temos a síndrome de vítima, temos o fracasso em ver o outro lado e a insistência em achar que entre os palestinos só há terroristas. As pessoas dizem que, quando bombardeamos, matamos só terroristas. Às vezes são mortas pessoas inocentes, e o governo pede desculpas. Mas o que o público vê é que os palestinos escolhem propositalmente como alvos cafés e shoppings e gente inocente. Isso faz parte da síndrome de vítima justificada. Os palestinos são terroristas, nós simplesmente nos defendemos. Ver de outra maneira talvez seja doloroso demais. Essa é uma das muitas contradições na opinião pública israelense hoje. Por exemplo, cerca de 70% da população apóiam a política de força de Sharon, mas, ao mesmo tempo, 70% acreditam que ação militar não é suficiente: é preciso também negociação política. Mesmo oficiais veteranos das Forças de Defesa de Israel dizem que não basta a ação militar. Fica-se a imaginar por que o governo não reinicia as negociações. Quando houve uma diminuição da violência em dezembro e janeiro de 2001, Sharon retomou os assassinatos seletivos, o que provocou nova série de atentados terroristas. Na primavera [boreal], quando novamente houve uma redução dos ataques terroristas, Sharon mais uma vez efetuou assassinatos seletivos e o terrorismo recomeçou com força ainda maior. Então reocupamos a Margem Ocidental e a Faixa de Gaza. Neste verão, de novo, a mesma história. O ciclo é contínuo e fica impossível determinar onde começa e onde termina. O resultado é muito claro: cada lado se convenceu de que o outro não está interessado na paz. Existe ainda outra contradição: ambas as opiniões públicas continuam apoiando a solução de dois Estados lado a lado, com Jerusalém como capital dos dois e com a retirada da maioria dos assentamentos. Numa recente pesquisa realizada pelo Paz Agora entre 3 200 colonos judeus de 127 colônias (de um total de 140) nos territórios ocupados, a ampla maioria disse que a melhor solução seria a retirada em troca de compensação financeira ou de um reassentamento em comunidades dentro de Israel. Só uma minoria muito pequena de 2% disse que lutaria para não abandonar as colônias nos territórios ocupados. Isto significa que os colonos não são obstáculo a um acordo de paz. Numa recente pesquisa realizada pelos palestinos, 70% disseram preferir uma resistência não violenta. Temos basicamente o mesmo quadro em ambos os lados. A maioria quer um acordo, a maioria não acredita no outro lado, e a maioria apóia os seus governos, que não estão empenhados em buscar uma solução. Do lado palestino, aumenta o número de vozes conclamando a uma mudança na política palestina. Vemos pela primeira vez críticas a Iasser Arafat e o reconhecimento de que foram cometidos erros, há mais discussão a respeito da necessidade de um compromisso sobre a questão dos refugiados, há uma aceitação da proposta da Arábia Saudita e da Liga Árabe no sentido de que o retorno dos refugiados deve ser condicionado à concordância de Israel. Os palestinos estão dando sinais de que a Intifada chegou ao fim, de que os legisladores devem ter mais poder e de que uma nova geração deve assumir o comando. A popularidade de Arafat caiu, embora não muito. Mas provavelmente Marwan Barguti, chefe do Tanzim, que pertence ao Fatah, é hoje a figura mais popular na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza. O Hamas, embora relativamente forte, tem 20% a 30% de apoio. Os palestinos receberam bem as exigências norte-americanas e israelenses de reformas políticas na Autoridade Palestina, pois desejam a democratização e eleições. Mas agora é Israel que tenta barrar esse processo, ao exigir que as eleições excluam todo candidato que tenha tido qualquer relação com o terrorismo, ou seja, não quer ninguém que tenha vínculos com a atual Autoridade Palestina. Durante o segundo ano da Intifada, o campo da paz em Israel começou a se recuperar. Têm sido debatidas idéias e passos unilaterais que Israel poderia dar independentemente do que os fundamentalistas do Hamas façam, idéias de retirada unilateral dos territórios ocupados ou uma separação unilateral e, no mínimo, de encerrar a reocupação das áreas palestinas e possivelmente desmontar alguns assentamentos. Ao mesmo tempo, pequenos grupos pacifistas têm surgido, grupos de jovens que levam alimentos e roupas para os palestinos nos territórios ocupados. O Paz Agora realiza demonstrações diárias diante da residência de Sharon e semanais em cinco diferentes cidades de Israel. Fizemos uma manifestação com a participação, estimada pela polícia, de 60 mil pessoas - talvez tenham chegado a 100 mil -, pedindo o fim da ocupação e o retorno à mesa de negociações. O Paz Agora mantém há mais de 20 anos uma vigilância sobre os assentamentos. Denunciamos a instalação de postos avançados ilegais, que acabam se transformando em novos assentamentos, mas o governo não toca neles. Paralelamente estamos pressionando para que o Partido Trabalhista deixe o governo, abrindo uma alternativa na oposição. E o que vemos hoje é uma luta no interior do Partido e a possibilidade de que surja nele uma nova liderança. Há também um número crescente de soldados que se recusam a servir nos territórios ocupados, e em muitos casos são de unidades de elite, voluntários, pessoas que agora se recusam a servir por considerar ilegais os toques de recolher e o cerco a cidades palestinas. A mídia está se pronunciando com mais vigor a respeito das mortes acidentais e percebemos que o público israelense está começando a entender que não somos tão vítimas assim e que a crise econômica é resultante da situação de segurança. Há muitas coisas das quais não cheguei a falar esta tarde-noite, particularmente no cenário doméstico, como o crescente racismo dentro do governo e o crescente apoio no país à idéia de transferir árabes, mesmo árabes israelenses, e o desrespeito aos direitos civis, não só dos árabes mas também de judeus. Sei que pintei um quadro triste, mas penso que é de fato triste. O conflito está destruindo Israel, está destruindo os valores sobre os quais o Estado foi fundado, está fortalecendo grupos e idéias que jamais teriam tido uma plataforma 10 ou 15 anos atrás. Mas não estou totalmente desanimada. O Movimento Paz Agora conseguiu criar a Coalisão Palestino-Israelense, reunindo líderes políticos de ambos os lados e dos principais partidos, bem como organizações que representam dezenas de milhares de pessoas. Os israelenses, inclusive o Paz Agora, não se tornarão nacionalistas palestinos nem os palestinos se tornarão sionistas. Mas ambos os povos já perceberam que o sonho de ter tudo só trouxe violência e tragédia. Lutamos agora para restaurar a crença de que a paz é não só necessária mas possível, e para conseguir que as lideranças deponham as armas e avancem mais uma vez. Acreditamos firmemente que isso é possível. OLHO 1 - Barak pretendia de fato alcançar a paz, mas começou de maneira errada. OLHO 2 - A Intifada foi um erro trágico, pois conduziu Sharon ao poder e criou a situação que existe hoje. OLHO 3 - O conflito está destruindo os valores sobre os quais o Estado de Israel foi fundado. * [topo]
|