Entrevista - Boletim ASA nº 79, nov-dez/2002

"Guevald ! Não tenho do que me queixar"

Entrevista com Osias Wurman

[ASA] Nas recentes eleições para a FIERJ, vários candidatos ao Conselho Deliberativo destacaram a juventude como critério para serem votados. A idade é um mérito em si? A presença de muitos jovens na Federação é necessariamente uma vantagem?

[Wurman] A vantagem está na vontade de se dedicar à comunidade desde cedo. Como somos longevos, aquele que se apresenta jovem tem a perspectiva de prestar serviços por um tempo maior. O outro lado é que o jovem tem pouca experiência em lidar com pessoas de mais idade, com problemas comunitários e com o lado político, que é saber transigir, dialogar, compor. Mas são esses jovens que vão às ruas - como duas vezes este ano - para enfrentar manifestações pró-palestinas na porta do antigo consulado de Israel. Eu estive lá e só vi jovens barrando a entrada de pessoas agressivas que queimaram a bandeira de Israel. Não quero dizer que eles sejam policiais, não. Mas são eles que expõem a vida para defender toda a comunidade na chuva ou no sol. E nós acreditamos em hémshech, a geração do futuro. 

[ASA] Muitas entidades reclamam da baixa participação nas atividades comunitárias. O mesmo se pode dizer do número de votantes nas eleições para o Conselho Deliberativo - 10% da população judaica estimada para o Rio de Janeiro. A que atribui esse desligamento e o que propõe para reverter o quadro?

[Wurman] Eu devo comemorar esta situação. Na realidade, tivemos mais do que o dobro de votantes das últimas eleições. O segredo foi a harmonia na chapa, que abrangeu todos os setores da comunidade segundo aspectos religioso, de origem e de sexo. Eu acredito que somos 35 mil a 45 mil, mas supondo 30 mil (o último censo do IBGE dizia que existem no Rio 28.500 judeus), dos quais a metade está abaixo da idade mínima de votação, que é de 16 anos, e tirando os judeus carentes que moram na favela Nova Holanda, no Vidigal, na Rocinha, tivemos a presença de 20% dos habilitados a votar. Toda vez que o anti-semitismo diminui de intensidade, há um relaxamento, as nossas instituições são menos freqüentadas, aumenta o número de casamentos inter-religiosos. Em São Paulo, onde existem 60 mil a 70 mil judeus, as eleições para a Federação Israelita-Fisesp são realizadas em dois domingos seguidos, e o total de votantes da última vez não atingiu 800. 

[ASA] Você e seus companheiros de chapa se identificam como "brasileiros, judeus e sionistas". Sabendo que há na comunidade judeus que não são sionistas, e nem brasileiros, eles não deverão se considerar representados em sua gestão?

[Wurman] Eu sou filho de imigrantes poloneses que vieram para o Brasil fugidos do anti-semitismo da Polônia nos anos 1934 e 1936. Tenho grande respeito por eles, como tenho pelos meus amigos agnósticos. Seria muito difícil abranger na minha chapa todas as minorias da comunidade, mas não vou deixar de ser presidente para todas as minorias que não se apresentaram. Isto quer dizer que eu respeito as diferenças e massacro as divisões.

[ASA] Divisões, para você, são opiniões diferentes?

[Wurman] Divisão, que eu gosto de pisar, é quando vejo um judeu ortodoxo considerar que um liberal não é tão judeu quanto ele ou quando vejo um liberal achando que um ortodoxo é fundamentalista e radical. 

[ASA] Judeu deve votar em judeu?

[Wurman] Não necessariamente. Vota-se em quem tem as mesmas aspirações. Nas últimas eleições, dei apoio, como pessoa física, a todos os candidatos, judeus e não judeus, que me procuraram e que indiretamente estavam endossando as ambições de cidadania da comunidade judaica. Luís Paulo Conde, na véspera das eleições, já tecnicamente eleito vice-governador na chapa da Rosinha, me procurou para me dar um abraço. Da mesma forma, fui recebido pelo prefeito César Maia, que expressou o carinho e respeito que tem pela nossa comunidade. São Paulo não conseguiu eleger nenhum deputado estadual judeu. O único que foi apoiado oficialmente, com memorando e carta do presidente da Fisesp, teve só 4.100 votos.

[ASA] Em entrevista à revista Messibá você afirmou que acha "subdimensionada a representatividade política dos judeus brasileiros". O que seria uma representação adequada para a comunidade judaica?

[Wurman] Houve época em que tínhamos aqui pelo menos dois vereadores. Hoje, temos só um. É importante termos representatividade para, por exemplo, tentar evitar a aprovação, da entrega da Medalha Pedro Ernesto para [o presidente da Autoridade Palestina] Iasser Arafat e [o presidente da Síria] Bashar Assad. Isso aconteceu porque no dia da votação o nosso único vereador estava no hospital.

[ASA] Como avalia o recente episódio da colocação de um outdoor agressivo, reproduzindo a capa de uma revista judaica do Rio, na região da SAARA?

[Wurman] Eu participei da colocação de outdoors na cidade por diversas vezes, com mensagens construtivas, como um que dizia "Shaná tová, um ano de paz para todos os povos". Dessa vez, uns dois meses após a colocação dos outdoors não só na Saara mas em outros 20 pontos da cidade, fui chamado pelos líderes da SAARA que me lembraram o manifesto pela paz no Oriente Médio em que ficou estabelecido que não importaríamos o conflito do Oriente Médio para o Brasil. Se não pelo mérito, por uma questão de inteligência e estratégia, já que os judeus no Brasil somos, no máximo, 150 mil pessoas, ao passo que os árabes e seus descendentes totalizam 8 milhões, sendo que muçulmanos, 1 milhão e 500 mil.

[ASA] A retirada da segunda chapa, liderada por Léo Portnoi, na disputa pela mesa do Conselho Deliberativo da FIERJ não prejudica o debate das questões relevantes para a comunidade?

[Wurman] A retirada foi fruto de um entendimento visando evitar que a disputa do cargo de presidente do Conselho se transformasse em fator de grave desagregação comunitária. Foi um consenso entre todos os candidatos envolvidos, para o bem maior da comunidade.

[ASA] O desemprego e a diminuição da renda média atingem também a comunidade judaica do Rio. Como será a atuação da FIERJ nessa frente?

[Wurman] O atendimento aos carentes deve ser feito por profissionais, em grandes centros de recepção aos carentes, onde haverá bolsa de emprego, atendimento odontológico, farmácia, roupas e cesta básica. A Federação tem que tratar de problemas políticos. Por exemplo, o eixo Rio-São Paulo andava meio rompido, mas nós, antes mesmo de tomar posse, já estamos conversando. Outro exemplo: a Mangueira procurou patrocinadores entre as instituições judaicas de São Paulo para fazer o carnaval de 2003, cujo tema são os Dez Mandamentos. Um grupo da Casa de Cultura de Israel resolveu bancar, mas a comunidade reagiu porque não foi explicado que a Mangueira é uma das poucas escolas que não estão entregues à delinqüência e onde o nu total é proibido. Também não foi explicado que os patrocinadores continuarão ajudando nas obras assistenciais da comunidade. A única intenção deles é divulgar a origem das três religiões monoteístas, é uma forma de hazbará, com dinheiro particular, que não foi desviado de nenhum fundo.

[ASA] Qual é a sua avaliação das letras dos sambas?

[Wurman] É de que nenhum ortodoxo deve assistir ao carnaval at all, porque não vão encontrar o que querem. Nem estudar a história do povo judeu no desfile da Mangueira. Mas deverá ser um momento de grande divulgação de que esse tesouro de moral e ética que até hoje prevalece foi trazido ao mundo por intermédio do povo judeu. E que o judaísmo é a base do cristianismo e do islamismo.

[ASA] Qual será o seu primeiro ato depois de empossado?

[Wurman] Vai ser beijar a mezuzá, que é o símbolo que diferencia a casa judaica da não judaica.

[ASA] E o segundo?

[Wurman] Vai ser gritar pela janela, em ídish, "Guevald!" [Socorro!], porque esses poucos dias após a eleição estão me dando uma amostra grátis do que vem por aí. Já atendi casais que querem se separar, pessoas com doenças graves, disputa entre instituições, a disputa do Conselho Deliberativo, o carnaval, anti-semitismo na televisão e... não tenho do que me queixar.

 

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