EDITORIAL - Boletim ASA nº 79, nov-dez/2002

No planeta de mister W

Guerra, caça e amores, por um prazer cem dores
(dito popular brasileiro)

Mais uma vez há cheiro de pólvora no ar. Em vez de guerrear a fome e a miséria de 1 bilhão e 300 milhões de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia e não conseguem comprar alimentos, o império prepara mais uma expedição punitiva contra o Iraque. Alegando que o regime de Sadam Hussein ameaça o mundo (sem apresentar provas convincentes disso e sabotando soluções não-bélicas sugeridas pela ONU), os Estados Unidos inauguram a chamada Doutrina de Ação Preventiva, guarda-chuva sob o qual ficam "justificadas" agressões a quaisquer países que ameacem a sua hegemonia. Hoje o Iraque, amanhã ... 

A nova guerra do Golfo, tramada no contexto da luta contra o "eixo do Mal", mascara os interesses das grandes corporações petrolíferas no Oriente Médio. Os Estados Unidos importam cerca de 10 milhões de barris diários de petróleo bruto (equivalentes a cerca de 5,5 vezes o consumo total brasileiro) e a substituição de Sadam Hussein por um governo "amigo" poderia não só aliviar a pressão sobre a oferta, que instabiliza os preços internacionais, como traria boas oportunidades de negócios. Dick Cheney, que foi executivo da Halliburton (uma das principais empresas petrolíferas norte-americanas), e George W. Bush foram eleitos com forte apoio financeiro destas empresas. Há, ainda, um fator simbólico. Num mundo unipolar, flexionar regularmente os músculos mostra quem é o galo que manda no terreiro.

Esta guerra desejada completa o ar sufocante que se vive na área dos direitos humanos. Em nome do "combate ao terror" (que ninguém define muito bem o que é), dá-se carta branca para as burocracias policiais e de segurança nacional anularem direitos individuais penosamente conquistados. Há um ano está em vigor nos EUA a chamada Lei Patriota. Com ela, os agentes de segurança estão autorizados a instalar escutas telefônicas e fazer espionagem na Internet em suspeitos de terrorismo, promover revistas secretas em domicílios e locais de trabalho e deter estrangeiros sejam detidos durante até sete dias sem qualquer acusação formal (antes, o prazo era de um dia). Desde 11 de setembro de 2001, cerca de 10 mil pessoas foram detidas nesta base, a grande maioria de origem árabe ou muçulmana. Intelectuais são perseguidos como nos tempos da guerra fria. Grupos conservadores, liderados pela mulher de Dick Cheney, criaram uma "lista negra" com o nome de pelo menos cem professores universitários acusados de impatrióticos. Segundo o jornalista Marcio Aith, da Folha de S.Paulo, o Departamento de Justiça está recrutando milhões de funcionários de empresas de serviços domiciliares (carteiros, entregadores de pizza etc.) para trabalharem como delatores.

O clima perigoso não se restringe aos EUA. A ONG Human Rights Watch lançou no início deste ano a campanha Opportunism Watch, para monitorar as atividades de governos "oportunistas", que, em nome do combate ao terror, "intensificaram a repressão a oponentes políticos, separatistas e grupos religiosos, adotaram políticas desnecessariamente rígidas contra refugiados e outros estrangeiros ou sugeriram que deveriam ficar imunes à crítica por suas práticas em relação aos direitos humanos". Além dos EUA, a lista inclui, entre outros, China, Egito, Israel, Jordânia, Síria e Rússia. 

Há resistência. Insuficiente e sem coordenação, ainda, para barrar a insolência imperial e seus filhotes e reverter o espírito intolerante que predomina, por exemplo, na população norte-americana. Pesquisa do Instituto Gallup realizada no final de 2001 registrou que 49% dos norte-americanos apoiariam a idéia de que os árabes, incluindo os cidadãos americanos de origem árabe, deveriam andar com uma identificação especial. Lembra, tristemente, a estrela amarela que os judeus portavam sob o jugo nazista, diferenciando-os de forma odiosa do restante da população. Em tal conjuntura, torna-se fundamental reforçar o campo dos países que lutam pela soberania nacional e pelo direito de criar projetos nacionais independentes, com democracia interna e respeito à privacidade. O Brasil está no centro deste caldeirão e pode desempenhar papel relevante na busca de saídas para o olhar de Medusa, expressão usada pelo escritor mexicano Carlos Fuentes para designar o poder capaz de transformar em pedra qualquer país que desafie os xerifes do mundo.

 

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