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Sionismo - Boletim ASA nº 78, set-out/2002 Perplexidades sobre o amanhãpor Renato Mayer / Especial para ASA O atual governo de Israel tem forte apoio político interno e conta com o inequívoco suporte da administração Bush. Sua atuação, no entanto, apressa um difícil encontro da sociedade israelense com suas próprias contradições e com um problema que lhe é central: a natureza do Estado judeu e a fidelidade à sua concepção original sionista. Essa questão, mantida durante muito tempo numa espécie de limbo, vem sendo levantada por setores da intelectualidade e da imprensa, tendo em vista que a situação de conflito aberto com os palestinos põe em realce dois fatores que a impactam diretamente: os assentamentos e a distribuição demográfica entre judeus e não judeus. De acordo com o Bureau Central de Estatísticas de Israel, no final de 1999 havia 145 assentamentos na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza, com uma população de 179 mil colonos que, possivelmente, seriam hoje 200 mil. Sua existência é, hoje, um dos principais obstáculos à paz. Nas palavras do professor Haim Ben-Shahar, assessor econômico do Partido Trabalhista, "os assentamentos, em primeiro lugar, impedem o estabelecimento de um Estado palestino com contigüidade territorial e fronteiras razoáveis, adiando, assim, qualquer acordo possível. E, em segundo, manter os assentamentos e atravessar o território com estradas de contorno facilita atos terroristas que podem também vir a sabotar qualquer acordo, seja interino ou permanente" (jornal Haaretz, edição em inglês, 7 de maio de 2002). Entre 1948 e 1967, passaram-se quase duas décadas para que Israel (sem a necessidade de territórios adicionais, muito menos de assentamentos) prosperasse, crescesse e se afirmasse como nação. A justificativa moral que impulsionou o país, como antes a imigração para a Palestina e a independência, repousava na necessidade de salvar vidas e assegurar um futuro próprio para os judeus, sobretudo os da Europa devastada pelo Holocausto, e não num direito histórico àquela terra. O jornalista Zeev Sternhell escreve que "com o fim da Guerra de Independência, todos os objetivos que o movimento sionista havia estabelecido para si tinham sido alcançados"(Haaretz, edição em inglês, 28 de junho de 2002). Sternhell considera que a glorificação do sionismo, com base em um direito histórico, pressuposto do movimento de construção e expansão dos assentamentos, arrisca minar o fundamento da própria presença judaica na Terra de Israel. E prossegue: "Se, de fato, não há qualquer diferença entre os territórios conquistados com o fim da Guerra de Independência e aqueles que caíram em nossas mãos durante a Guerra dos Seis Dias, torna-se possível crer que o sionismo nunca foi, de fato - conforme sempre afirmaram seus opositores -, um movimento de libertação nacional ou de salvamento dos judeus da extinção física e cultural, mas sim um movimento imperialista que objetiva contínua expansão." Afinal, por que deter esse movimento aqui ou ali, se se trata de um resgate e reocupação histórica de uma terra que deve pertencer aos judeus e com a qual estes se sentem comprometidos? A evidente ameaça à paz que isto representa levanta a possibilidade de abandono dos assentamentos, sua entrega aos palestinos e realojamento de sua população dentro das fronteiras de antes da Guerra dos Seis Dias. Há estimativas de que tal alternativa custaria muito menos do que usualmente se imagina. O professor Ben-Shahar empenhou-se em comprová-lo (Haaretz em inglês, 7 de maio de 2002). É verdade que ele é um "otimista" e considera como politicamente aceitável entre as partes interessadas a transferência de fronteiras, ao invés de uma traumática transferência de populações. Acredita, assim, na viabilidade de uma troca de terras, que permitiria a Israel anexar os assentamentos situados na Grande Jerusalém e em outras áreas próximas à chamada Linha Verde, a antiga fronteira. Conseqüentemente, a maioria dos colonos nessas áreas permaneceria dentro das fronteiras retificadas de Israel e o número de assentamentos a serem evacuados, no âmbito de um acordo permanente, cairia para cem, totalizando 80 mil habitantes. Supondo uma família média de cinco pessoas e um custo de realojamento, infra-estrutura e de novas moradias em padrão compatível com o que têm hoje os colonos - cerca de 150 mil dólares por família -, Ben-Shahar estima o custo financeiro do fim dos assentamentos em território palestino em 2 bilhões e 400 bilhões de dólares, cerca de 2,2% do Produto Interno Bruto - PIB - de Israel. Não estão aí computadas as economias indiretas com a eliminação dos gastos com defesa e segurança, e mesmo infra-estrutura, que hoje implica a manutenção de assentamentos isolados, ou os ganhos, com o realojamento, para a indústria de construção dentro de Israel. Tampouco entraram eventuais compensações adicionais aos colonos para facilitar a sua mudança. Pode-se dizer que é um método simplificado, mas que funciona como referência. Se estendido a todos os colonos, se chegaria perto de 5,5% do PIB, percentual ainda inferior ao que o Jerusalem Post, em sua edição de 28 de junho último, estima como o custo da Intifada: entre 6,5% e 7,5% do produto gerado anualmente em Israel ! O dilema da convivência futura entre o sionismo e o compromisso democrático do Estado transparece na evolução demográfica de judeus e não judeus em Israel, questão agravada, porém não causada pelas conquistas territoriais da Guerra dos Seis Dias. Uma comissão de alto nível tem-se reunido, em caráter permanente, no Instituto Van Leer, de Jerusalém, para examinar as tendências de crescimento das respectivas populações e encontrar a melhor solução dentro do espectro de transferência de territórios e de populações. Seu pressuposto: a garantia do caráter judaico do Estado de Israel repousa numa proporção ideal de 80% de judeus e 20% de árabes e qualquer pedaço de terra que venha a ser acrescentado a Israel deve preservar tal distribuição. Seu temor (conforme confidenciado por Yiftah Spector, um empresário membro do comitê): "Se continuarmos mantendo os territórios, será como na África do Sul, uma minoria governando uma maioria. E essa maioria poderia acabar, por meios democráticos, eliminando o Estado Judeu."(Lily Galili no Haaretz em inglês de 28 de junho de 2002). Segundo os demógrafos, no ano de 2020, a população em Israel e nos territórios se situará na faixa de 15 milhões a 15 milhões e 500 mil de pessoas: os judeus serão 40 %, mais ou menos 6,5 milhões; os árabes israelenses, 2 milhões . Dentro do Estado de Israel propriamente dito, em 2020, a proporção de judeus será de 65%. Os critérios comumente aceitos da demografia definem como binacional um estado em que há uma minoria com mais de 30% da população. Existe uma enxurrada de propostas para assegurar que o país permaneça, a longo prazo, em sua condição de Estado Judeu; a questão da igualdade e o respeito a direitos permanece, na imensa maioria delas, em segundo plano. Há agravantes nesse problema: além da população judia, que ultrapassa 5 milhões, de mais de um milhão de árabes israelenses, e de uma certa parcela de outros naturais do país (drusos, cristãos, bahais etc.), trabalham em Israel hoje quase 400 mil estrangeiros, dos quais 46% -- conforme dados do Ministério das Finanças - são palestinos. Os outros são, em sua maioria, filipinos, chineses, romenos, portugueses etc., uma grande quantidade dos quais em situação ilegal. Constituem 11,5% da força de trabalho e fazem os trabalhos mais braçais, aqueles que, na opinião generalizada, os israelenses não se dispõem mais a fazer. Israel repete, assim, o modelo dos Gastarbeiter, os imigrantes que, nos anos 1960, afluíam à Alemanha, França, Suíça e a outros países da Europa Ocidental para as ocupações de pagamento inferior. O perfil de elite regional obedece a um padrão não apenas de origem, mas se cristaliza em bases econômicas, sociais e, cada vez mais, políticas. Para onde foi o sonho original dos pioneiros sionistas de uma terra de iguais onde todo trabalho é valorizado? Uma série de pesquisas, conduzidas na Universidade Bar-Ilan, mostrou que, numa escala de valores, em diferentes momentos de tempo, os entrevistados atribuíam maior importância ao Estado judeu. A paz e a democracia vinham atrás daquele valor, alternando-se no segundo lugar de acordo com as circunstâncias que envolviam o momento específico de cada pesquisa. "Esta é, sem dúvida, a razão por que tanta gente evita discutir o problema, uma vez que está consciente do fato de que, por trás da 'questão demográfica', há grandes massas de gente cuja própria existência é encarada como um problema." Essas reflexões nos remetem a uma questão maior: onde reside a identidade judaica, nossos valores mais profundos - na paz e na democracia ou no Estado que judeus de todo o mundo construíram, a partir do momento em que se constituíram em maioria na Terra Prometida? Reconheçamos que, daqui, de nossas confortáveis posições no Galut, onde ainda formamos 63% do mundo judaico, torna-se menos difícil e arriscado achar respostas do que na conturbada Terra de Israel. Mas façamos eco à advertência do professor Bernardo Kocher, da Universidade Federal Fluminense, em entrevista no último Boletim ASA: o silêncio e a complacência não irão diminuir o nosso desgaste moral. OLHO
- O dilema da convivência futura entre o sionismo e o compromisso democrático
do Estado transparece na evolução demográfica de judeus e não judeus
em Israel. * Renato Mayer, economista, é colaborador de ASA.
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