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EDITORIAL - Boletim ASA nº 78, set-out/2002 Yolesman Crisbeles Além dos aviões de carreira, há qualquer coisa no ar. Um espectro ronda a América do Sul: o inconformismo. Depois de seguirem disciplinadamente o receituário do Consenso de Washington - reformas econômicas liberais elaboradas em 1989 por um grupo de economistas ligados ao International Institute of Economics, sediado na capital norte-americana -, Argentina e Uruguai estão na UTI. Os argentinos, cujo país é o quarto maior exportador de carne bovina do planeta e campeão mundial na exportação de óleo de soja, amargam fome, desemprego e miséria. Seis milhões estão desempregados, cem crianças morrem diariamente por causas evitáveis. Os uruguaios, orgulhosos de um país historicamente estável, equilibrado e garantidor dos direitos trabalhistas, vão ao fundo do poço com uma taxa de desemprego que beira os 20% e a pobreza alcançando a taxa recorde de 28%. Durante mais de uma década os brasileiros, juntamente com nossos irmãos do Cone Sul, fomos bombardeados por discursos mistificadores, que pregavam as virtudes milagrosas da "globalização" e da "modernidade". Nosso atual presidente chegou a comparar a mundialização do capital a uma "nova Renascença". Agora, os reis estão nus. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, 54 milhões de pessoas passam fome do Oiapoque ao Chuí (crime particularmente feroz num país cujo rebanho bovino é de 180 milhões de cabeças, mais de uma para cada brasileiro). Os bolsões de miséria abastecem a violência. Em cidades como Rio e São Paulo morrem tantos civis como em guerras localizadas. Para cada jovem assassinado na Europa 200 o são no Rio. Em São Paulo, 62% das mortes de jovens são por homicídios. Há, depois da tempestade neoliberal, uma insatisfação popular crescente. Ainda incipientes e sem organicidade, movimentos de protesto se espalham. Nesta fase, prevalece a denúncia contra a degradação social e econômica. Cabe, entretanto, às forças políticas progressistas lutar para alavancar este inconformismo disperso para um degrau mais elevado de compreensão das verdadeiras raízes da crise, acenando para a possibilidade de novas opções para a sociedade. Como disse o jornalista argentino Hugo Presman, "o futuro tem muitas portas e poucas certezas". É neste cenário nervoso que se aproximam as eleições gerais em nosso país. Embora não seja o único mecanismo que define uma democracia, o processo eleitoral é um importante momento de encontro com a realidade. Ao escolher candidatos, alguns grupos repetem os mantras das panelinhas: "mulher vota em mulher", "vascaíno vota em vascaíno", "judeu vota em judeu" etc. Estes falsos truísmos ignoram o essencial: a consistência do projeto político do candidato, seu compromisso e o de seu partido com uma sociedade mais justa e a capacidade de articular grupos diferentes em torno deste compromisso. Priorizar a etnia, o gênero ou a paixão clubística pode acabar levando ao parlamento discípulos do Yolesman Crisbeles. Palavra-de-ordem escrita em faixas nos primeiros desfiles da Banda de Ipanema, significava ... absolutamente nada! Sejamos generosos no limiar de 5763. Para um verdadeiro shaná tová/gut ior, comecemos por votar preocupados em ir além do nosso estreito campo visual.
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