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Religião - Boletim ASA nº 78, set-out/2002 Os Dias Terríveispor Chaim Jitlovsky Depois de Shavuot, no calendário de feriados judaicos, vêm Rosh Hashaná, os Dez Dias de Penitência e Iom Kipur. São mais universais e humanos do que nacionais. A "pecaminosidade" do indivíduo, sua incompletude, seu empenho por prestar contas de si pelo ano que passou, seu desejo de melhorar, de remover a sujeira que lhe grudou na alma e a consciência da morte que paira sobre cada um de nós - todos são aspectos tão sérios da nossa vida moral que esses Dias de Penitência mereceram verdadeiramente o nome de Iamim Noraim, Dias Terríveis. E eles certamente são menos terríveis para aquele que tem fé, que tem um Deus no céu - não só um Deus ciumento e vingativo, mas um Deus piedoso - do que para o descrente, que não tem ninguém em quem depositar sua esperança, ninguém a quem rezar, e que precisa enfrentar todos estes sérios problemas da vida com suas próprias forças. Mas que deve refletir sobre eles tanto quanto quem acredita, se não mais. A questão, contudo, é a seguinte: podem momentos tão puramente individuais e profundamente escondidos, os mais íntimos dos íntimos, ser trazidos à luz? De que vale toda a penitência, todo o heshbon ha-néfesh, a prestação de contas espiritual, todo o esforço para se tornar melhor e mais nobre, se tiverem que começar obrigatoriamente no primeiro dia do mês de Tishrei e terminar exatamente no décimo dia após o pôr do sol? Para o homem puramente religioso isto não é uma questão. Isto é como Deus quer. Este é o período que Ele reservou para acertar as contas com seus devedores. Quem, no entanto, não se sente emissor de "cheques sem fundos" não pode ter períodos pré-determinados para se preocupar com a melhora do seu ego, para refletir sobre o significado da vida e sua transitoriedade. Portanto, talvez devessem os Dias Terríveis permitir que o próprio indivíduo decida de que forma e em que grau pode se identificar com o setor religioso e crente de seu povo. Uma coisa, porém, é clara: profanar tais festividades publicamente, ferir deliberadamente o fiel quando o seu estado de espírito se encontra tão sensível, seria uma vulgaridade primitiva. Admitimos que em certo período de nossa História esta vulgaridade primitiva foi uma necessidade. O indivíduo judeu precisava libertar-se por todos os meios do domínio da religião. Agora, no entanto, que a liberdade de pensamento ganhou certos direitos na vida judaica, devemos desfraldar e segurar bem alto a bandeira da tolerância. É evidente que a tolerância verdadeira não reinará realmente na vida judaica até que deixe de ser unilateral, até que não só nós respeitemos o religioso, mas o religioso aprenda a nos respeitar - até que ele aceite que eu posso ser uma pessoa tão boa quanto ele; que eu também posso vivenciar todos estes problemas de pecado e arrependimento, de vida e morte, tão profundamente quanto ele, mesmo que eu tenha um cigarro na boca e uma caneta na mão em Iom Kipur. Por outro lado, não devemos esquecer que durante os Dez Dias de Penitência todo o povo judeu lembra as desumanas perseguições e o sofrimento sobre-humano que teve de suportar através das gerações. Este é um aspecto puramente nacional e ao mesmo tempo profundamente humano que não pode ser desprezado. O povo judeu não tem por que se envergonhar de suas festividades. A vida é santificada no Shabat e nos Dias Terríveis. O Shabat é o dia santificado em que, pela primeira vez, se exerceu o direito ao descanso - o direito do escravo e do trabalhador a um dia de descanso. Este direito é muito mais importante do que o hoje famoso "direito ao trabalho", pelo qual muitos utopistas esperavam solucionar os problemas da sociedade. Toda religião tem seus personagens sagrados. Alguns são sobrenaturais (deuses e anjos), alguns são seres humanos fictícios (heróis lendários), alguns são reais, personalidades históricas que em sua vida e morte expressaram as verdades de sua fé. Toda religião possui locais sagrados (templos, colinas, vales, regatos, árvores) que exaltam o fiel quando ele se aproxima. Tem os seus objetos sagrados (talit, tefilin, rolos da Torá, crucifixos, ícones), seus períodos sagrados (festas e dias de jejum). Tudo isso funciona como uma força magnética sobre as emoções da pessoa verdadeiramente religiosa e cria nela um estado de espírito impossível de descrever. Podem os ritos sagrados induzir esse mesmo estado de espírito uma vez que tenhamos cessado de acreditar na sua origem ou significado sobrenaturais? Ou o homem moderno precisa criar novos ritos para que seu coração possa mais uma vez conhecer a emoção da santidade? Mesmo os deuses que morreram, foram esquecidos ou abominados freqüentemente se levantaram dentre os mortos para ingressar no "paraíso da poesia humana". Isso foi possível porque, por mais alto que um deus habite no céu, ele ou ela permanece criado por necessidades e ideais humanos. E quando a capa sobrenatural perde o encantamento religioso, a essência humana emerge ainda mais claramente e os milagres, cerimônias e rituais transformam-se em símbolos poéticos, expressando um conteúdo espiritual vital. É este conteúdo humano espiritual que evoca as mesmas emoções de santidade evocadas pela velha apresentação religiosa. O movimento por um renascimento nacional-poético da religião judaica deve examinar criticamente os velhos ritos judaicos, rejeitar os que tiveram erodido o conteúdo humano e purificar os que ainda conservam uma essência humana, aprofundando e esclarecendo seu valor humano e seu significado nacional. Trechos do ensaio "O renascimento nacional-poético da religião judaica", de 1911, publicados em inglês na coletânea Festivals, Folklore & Philosophy, a secularist revisits Jewish traditions, Max Rosenfeld, 1997. OLHO - A tolerância verdadeira não reinará realmente na vida judaica até que deixe de ser unilateral.
* Chaim Jitlovsky (1865-1943), filósofo e ensaísta nascido na Bielo-Rússia, defendeu um judaísmo laico, baseado no ídish e em ideais humanistas e socialistas. Emigrou para os Estados Unidos em 1930 e foi um dos fundadores do Ídisher Cultur Farband.
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