EDITORIAL - Boletim ASA nº 77, jul-ago/2002

Do limão, uma limonada

Quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se a monstruosidade. 
(Honoré de Balzac)

Faz pouco mais de uma década analistas apressados anunciavam o fim da História e das ideologias. Sobrava, para eles, um pensamento único, que precisava apenas de retoques cosméticos e adaptações circunstanciais. O núcleo duro da nova era, composto pela economia de mercado e pelo pensamento político liberal, era definitivo e representava o clímax da organização social.

O tempo mostrou, rapidamente, que aquela visão não passava de um desejo ardoroso. Passada a euforia pós-queda do muro de Berlim, as tensões não param de crescer, as desigualdades se aprofundam, as soluções militares para os problemas sociais e políticos estão na moda. E pur ... si muove ! 

Sobrevive, entretanto, um filhote persistente: a nostalgia do pensamento único. É a tentação de reduzir todas as possibilidades a uma só, de destruir ou ridicularizar as visões alternativas, de impor uma posição supostamente inatacável. A esse vírus obscurantista não estão imunes as comunidades judaicas.

Quando se trata, por exemplo, do conflito do Oriente Médio, percebe-se uma intolerância mal-disfarçada de amplos setores comunitários contra pessoas e/ou instituições que ousam divergir das visões oficiais incondicionalmente pró-Israel. Procura-se desqualificar a divergência rotulando os divergentes de "traidores", "ingênuos" e, algumas vezes, de "anti-semitas". A avalanche conservadora não respeita limites. Em revista recentemente publicada no Rio, voltada para a comunidade judaica, o jornalista Alberto Dines, que havia ousado flagrar o militarismo do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon, foi denunciado "perante o tribunal de honra do povo de Israel". Assim é: em vez de um espaço legítimo de debate, propõe-se um tribunal e um réu cujo crime foi pensar.

A ASA não aceita esta situação. Consideramos o espírito crítico uma condição indispensável para se compreender o homem e a sociedade. A caça às bruxas e as ameaças de herem são um insulto à cultura do diálogo que o povo judeu desenvolveu em tantas fases de sua história. O debate é a nossa oferta generosa de um salto de qualidade.

Ela se traduz, na prática, pela variedade das nossas programações, sempre preocupadas em mostrar diferentes olhares sobre os temas abordados, e no espaço plural do Boletim ASA. Nesta edição, o artigo de Nachman Falbel mostra que temas dolorosos para os progressistas, como os crimes stalinistas, podem e devem ser apresentados de peito aberto. Um amplo painel sobre o Oriente Médio vai do texto do movimento pacifista israelense Yesh Gvul à entrevista com Bernardo Kocher, passando por análises de David Somberg e Sérgio Storch sobre as reações de judeus cariocas e paulistas frente aos conflitos. A bela crônica de Roney Cytrynowicz faz uma síntese perfeita do que afirmamos. O historiador conta como a experiência familiar com a diversidade enriqueceu seu horizonte afetivo e intelectual. Todos textos exclusivos.

Vamos continuar avançando. Com companheiros de viagem - como o Museu Judaico e o Centro de História e Cultura Judaica, com quem estamos criando parcerias informais - e todos aqueles que, mesmo divergindo de nós, se dispõem ao diálogo franco e civilizado. 

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