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Desobediência Militar - Boletim ASA nº 77, jul-ago/2002 Mil rejeicionistas dizem "Não!"por Peretz Kidron / Especial para ASA No momento em que escrevo, abril de 2002, 30 jovens israelenses estão em prisões militares cumprindo penas por se recusarem a participar da campanha de repressão nos territórios palestinos ocupados. Enquanto números crescentes de reservistas são convocados, muitos dos que assinaram declarações de recusa, fiéis ao seu compromisso, avisam aos seus superiores que não desejam ter parte num castigo militar a uma população civil desamparada, ou nas conseqüentes ações que constituem crimes de guerra por qualquer critério aceitável. Até agora, uns 35 rejeicionistas já foram detidos, embora no início o Exército tivesse adotado uma política de menosprezo ao movimento de recusa usando o simples expediente de ignorar esses "atos de insubordinação". O objetivo do comando das Forças de Defesa de Israel era manter a questão das recusas fora do cenário público, tendo aprendido em sua dolorosa experiência na guerra do Líbano e na primeira intifada (1987) que a publicidade que envolve a prisão de um rejeicionista leva dezenas de soldados a seguir a mesma linha de pensamento. Em resultado dessa reação "suave", a maioria dos rejeicionistas saiu-se dessa sem conseqüências disciplinares. Embora mais de quatrocentas recusas tenham sido registradas com relativamente pouca repercussão nos 16 primeiros meses da intifada, o assunto estourou no cenário público quando veio à tona a declaração "Coragem para recusar", em fins de janeiro. O que começou com 52 signatários tem atualmente 400 nomes, enquanto outros tantos assinaram a proclamação paralela promovida pelo veterano grupo de rejeicionistas Yesh Gvul*. Outra declaração com o mesmo teor, de estudantes secundaristas à espera de convocação este ano, tem mais de 150 signatários. Ao todo, o movimento de recusa soma hoje bem mais de mil nomes, e o número cresce diariamente à medida que chegam notícias da descontrolada violência da campanha em centros de população palestina. O esforço do Exército para interromper o movimento de recusa é prejudicado por sua relutância em instalar cortes marciais formais, que poderiam impor penas mais severas. Isto se deve à apreensão no Alto Comando de que tais julgamentos possam ter o efeito inverso, com os réus invocando o princípio da "bandeira preta", cultuado na legislação militar israelense e que requer que os soldados ignorem uma ordem que seja "flagrantemente ilegal". Em vez de dominar os rejeicionistas, o próprio Exército, com sua política agressiva, freqüentemente desrespeitando as normas da lei internacional, teria que sentar no banco dos réus. O prenúncio do desafio que o Exército enfrentaria ocorreu quando Sergio Yahni, 35 anos, foi condenado em 19 de março a 28 dias de detenção por se recusar a prestar o serviço de reservista. Yahni, co-diretor do Centro de Informação Alternativa, é ativista de longa data do Yesh Gvul. Recebeu três penas de prisão durante a primeira intifada, mas frisou que se recusava a servir nas Forças de Defesa de Israel enquanto vigorasse a ocupação - um passo além do princípio de "recusa seletiva", pelo qual os rejeicionistas concordam em exercer atividades militares desde que desvinculadas da ocupação. Depois do último julgamento, Yahni registrou suas objeções numa eloqüente carta ao ministro da Defesa, Beniamin Ben-Eliezer, da qual tiro alguns trechos: "O senhor fracassou em alcançar o seu objetivo: nem o povo palestino desistiu do sonho de soberania e independência, nem o senhor trouxe segurança para o seu próprio povo, a despeito de toda a violência destrutiva do Exército pelo qual é responsável. Para mim está claro que o senhor arriscou todas as nossas vidas apenas para continuar construindo colônias ilegais e imorais. Portanto, não vou servir no seu Exército. O seu Exército, que se autodenomina "Forças de Defesa de Israel", nada mais é do que o braço armado do movimento dos colonos." Outra declaração apaixonada foi emitida pelo capitão da reserva Itai Haviv, condenado em 14 de março a 21 dias de detenção: "Como oficial das Forças de Defesa de Israel servi na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza. Não sou ingênuo. Há momentos em que é preciso matar para sobreviver. Em nome do Estado de Israel cacei crianças que atiravam pedras em mim. Patrulhei os becos de campos de refugiados. Bati com violência nas suas portas de madrugada. Procurei entre colchões material de propaganda. Ouvi bebês chorando. Arranquei pessoas da cama para apagarem palavras de ordem escritas em muros. Impus toques de recolher. Ocupei-me de bandeiras palestinas ondulando em postes de energia. Confisquei documentos de identidade. Conduzi prisioneiros algemados no bagageiro do meu jipe. Atirei em arruaceiros. Parei centenas de veículos em bloqueios. Instalei um posto de observação no telhado de uma confeitaria na rua principal de Gaza. A rotina da ocupação. Todos os dias. Toda hora.. Trinta e cinco anos. Eu acreditava que esta era uma guerra sem escolhas. Afinal, fizemos de tudo em nossa busca pela paz. Construímos mais de cem colônias. Enviamos 200 mil colonos para lá viverem. Perdemos soldados, crianças, mães. Tudo pela segurança do Estado. Pela paz. Para deter o próximo homem-bomba. Durante 35 anos uma bandeira preta sobrevoou nossas cabeças, mas nós nos recusamos a vê-la. Chega. Ou, em hebraico: Yesh Gvul. Há um Limite."
OLHO - Em vez de dominar os rejeicionistas, o próprio Exército teria que sentar no banco dos réus. * Peretz Kidron, escritor e jornalista residente em Jerusalém, é ativo há muitos anos no Yesh Gvul e em outros grupos israelenses pacifistas e de direitos humanos. Tradução de S.M.G.
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