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Crônica - Boletim ASA nº 77, jul-ago/2002 Meu avô bundista e meu avô religioso: saudades do século 20por Roney Cytrynowicz / Especial para ASA A passagem de milênio permite evocar alguns pedaços de memórias do século passado. Não que elas sejam consistentes (historicamente) para ganhar o estatuto de memórias, mas como são do século, do milênio passado... têm pelo menos o direito de ser memórias (zihroines)... Meus dois avós eram pessoas muito diferentes, em todos os sentidos, também do ponto de vista político. Meu avô materno, Eliezer, nasceu na Polônia e passou a guerra na Rússia. Na Polônia foi simpatizante, às vezes militante, do Bund, do Partido Comunista e do Linke Poalei Tsion. Quando ele atravessou a pé a fronteira da Polônia com a Rússia, em setembro de 1939, escondeu a carteirinha do partido diante da desconfiança que os comunistas russos tinham dos comunistas poloneses. Acabada a guerra, imigrou para Israel. Ele, que fora marceneiro, cenógrafo e vendedor ambulante de relógios, abriu em Tel Aviv uma pequena loja de relógios e móveis antigos. Mesmo morando em Israel por 50 anos, meu avô nunca perdeu um certo humor crítico, às vezes debochado, ao se referir ao sionismo e mesmo a Israel, ao qual o prendiam profundos laços afetivos. Conhecedor da literatura ídish, adorava me contar histórias do grande almoço público e provocativo que ele e seus companheiros faziam em Iom Kipur na Polônia. Politicamente, culturalmente, meu avô materno era um homem de esquerda, mesmo quando isso significou não qualquer militância ativa, mas um profundo amor pelos escritores de língua ídish, um secularismo arraigado e valores e visões de mundo cultivados pelos círculos judaicos de esquerda da Europa Oriental. Esta visão de mundo, judaica, laica, de esquerda, universalista, ídish, é um precioso patrimônio cultural judaico dos séculos 19 e 20. Meu avô paterno, Jeremias, também nasceu na Polônia e passou a guerra na Rússia. Era pedreiro e media o sucesso no trabalho pelo número de escadas que tinha em atividade. Ele veio ao Brasil em 1954, após morar na Alemanha e em Israel. Era um homem profundamente religioso e foi morar no Bom Retiro [São Paulo], bem próximo a uma sinagoga, a da rua Guarani, referência diária central em sua vida. O Shabat, toda sexta-feira à noite, era o dia de encontro de toda a família e a vida dos meus avós organizava-se, em parte, nos preparativos semanais. Minha avó cozinhava para 30 pessoas e meu avô, além de pescar o peixe que viraria o guefilte fish, rezava sozinho, não se importando que todos conversassem e não prestassem atenção. A família conta que durante a guerra, na Rússia, mesmo diante da pior fome e do inverno, meu avô jamais comeu carne de porco, a única disponível. Ele mantinha sua fé e sua fé o mantinha. Na sinagoga, nas festas, eu era o "neto do Jeremias" e isso me concedia um lugar muito definido naquele espaço, mesmo que fosse para levar bronca pela correria e bagunça em meio aos bancos de reza. Por que evoco estas memórias familiares? Este mundo, aquele mundo, não existe mais. Acabou. Mas não estou aqui a fazer um exercício nostálgico de saudosismo, por mais saudades que tenha dos meus avós e do mundo deles (nosso) e do século 20, que talvez um dia seja chamado de "o século da ideologia". Eu não acredito que o mundo era melhor e que é possível comparar o presente com o assado. Mas, na minha infância, pude vivenciar uma diversidade judaica que não existe mais. O que vemos hoje como judaísmo parece desenraizado de si mesmo. É claro que esta idéia não é uma defesa de nenhum essencialismo ou purismo étnico ou religioso, como um conjunto de valores fixos ou regras imutáveis, nem muito menos qualquer preocupação conservadora com a perda de valores. Acho que tudo isso é muito dinâmico e não adianta ficar protegendo-se, em fortalezas, chame-se identidade, casamento ou escola judaica exclusivista. O judaísmo, em todas as suas formas, sempre existiu rompendo suas tênues fronteiras, para lá e para cá. Mas hoje, o mundo judaico foi reduzido a categorias terrivelmente empobrecedoras e desconectadas de inserções sociais, culturais e políticas. Meus dois avós foram pessoas centrais na minha formação enquanto modelos de vida judaica. Entre a sinagoga do Bom Retiro e o Bund polonês, entre os sidurim de reza em hebraico e a literatura ídish, entre a reverência profunda ao Iom Kipur e uma ousada irreverência (às vezes quase desprezo) pela religião, entre uma visão mais exclusivista e uma mais universalista, entre Brasil e Israel, e tantos outros contrastes, eram eles que tornavam a experiência judaica uma experiência social, política e cultural. O que sobrou hoje, ano 2002? Não se trata apenas de saber o que foi o Bund, a vitalidade histórica dos movimentos judaicos de esquerda e comunistas, o secularismo, a Hascalá [Iluminismo judaico], o sionismo e a construção de Israel, a intensidade dramática dos debates ideológicos que existiram com toda sua força até pelo menos os anos 1970. Tanto a experiência secular como a religiosa parecem, neste momento, bastante incapazes de propor caminhos interessantes. No que se refere à religiosa, afora os movimentos e sinagogas conservadores e reformistas, surgiu uma "ortodoxia" medíocre, salvacionista e centrada em um apelo de auto-ajuda. Os não ortodoxos nem sequer têm um nome afirmativo que os designe. Meu avô era profundamente religioso, mas ninguém dividia o mundo entre ortodoxos - palavra que nem era usada - e não ortodoxos. Quem inventou esta divisão? Quem está dentro e quem está fora? E os movimentos seculares que tanta força tiveram nos séculos 19 e 20? De certa forma, existe uma interrupção geracional. Algo não passou de uma geração para a outra. Nós estamos perdendo o acesso a estas experiências, a estas vivências, que conhecemos apenas por ecos longínquos. Mesmo que desconfiemos que algum dia tenha existido um "original", um autêntico, quando tudo é sempre dinâmico e conflituoso, este eco de agora é mero efeito sonoro, repetição compulsiva. Só posso imaginar... meu avô Jeremias, religioso, talvez me respondesse que estou com "muita minhoca na cabeça e que melhor faria se fosse com ele pescar e à sinagoga"(nesta ordem). Já meu avô Eliezer, bundista, é provável que ele, carinhosamente, nem levasse a sério estas minhas perguntas; no máximo, talvez concedesse: "Por que você acha que algum dia foi diferente? O que te preocupa? Quem sabe o futuro?" Eu aceitaria a resposta deles e me tranqüilizaria. Saudades do século 20... OLHO - Tanto a experiência secular como a religiosa parecem, neste momento, bastante incapazes de propor caminhos interessantes. * Roney Cytrynowicz é historiador.
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