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EDITORIAL - Boletim ASA nº 76, mai-jun/2002 Pela paz com justiça no Oriente Médio A diretoria da Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação vem a público manifestar-se sobre a recente evolução dos acontecimentos no Oriente Médio. Como judeus e cidadãos brasileiros mergulhados em sólida tradição internacionalista, não podemos nos omitir frente a uma perigosa escalada da violência no conflito palestino-israelense. Esperançosos numa solução que traga paz com justiça para a região, assumimos as seguintes posições: 1. Apoiamos as forças democráticas e progressistas de ambos os lados, as quais não se deixam levar pela retórica do ódio e da violência e trabalham por saídas negociadas para o conflito e pela construção de canais que levem à convivência entre iguais. São elas que podem garantir a sanidade num ambiente contaminado por ressentimento e vingança. 2. Condenamos o terrorismo, quer venha de grupos ou estados, e nos solidarizamos com as vítimas desta forma de barbárie. Além de moralmente abominável, o terrorismo é politicamente catastrófico, pois, apostando na lógica do "quanto pior melhor", estimula as forças mais reacionárias no interior das sociedades. 3. Defendemos o mais estrito respeito aos tratados e convenções internacionais que tratam de populações civis em regiões atingidas por conflitos militares. Não há circunstâncias atenuantes para a violação sistemática da Convenção de Genebra, fato corriqueiro nos territórios ocupados por Israel em 1967. 4. Propugnamos a presença imediata da ONU na região, através de forças militares de intervenção, até que as partes envolvidas estejam decididamente comprometidas com um processo de negociação. Esta parece ser a única forma eficaz de se estancar o banho de sangue e forçar os protagonistas a voltar ao diálogo. 5. Concordamos com os grupos pacifistas: é preciso acabar imediatamente com a ocupação israelense de territórios historicamente reivindicados pelos palestinos (correspondentes, hoje, a 22% da Palestina à época do mandato britânico). A ocupação corrompe o ocupante, humilha as populações das áreas ocupadas e inviabiliza qualquer entendimento. 6. Somos favoráveis à resolução 1.397 da ONU, de 13 de março de 2002, que estabelece a existência de "dois estados, Israel e Palestina, vivendo lado a lado, dentro de fronteiras seguras e reconhecidas". Para que isto conduza a uma paz estável, é indispensável que o futuro estado palestino seja economicamente viável e politicamente independente, sem a mais remota semelhança com bantustões auto-administrados e cercados por força militar. Lembramos que os momentos de menor violência no Oriente Médio sempre coincidiram com períodos de maior esperança na concretização do direito de auto-determinação nacional dos palestinos. 7. Entendemos e aceitamos a importância de Jerusalém no imaginário nacional de israelenses e palestinos. Assim sendo, achamos justa a proposta de divisão administrativa de Jerusalém, com a parte oeste sob soberania de Israel e a parte leste controlada pelo futuro Estado da Palestina. Aprofundando-se o processo de paz, esta divisão tenderia a ser mera formalidade, caminhando-se para uma administração conjunta que atendesse aos formatos político, econômico, social e cultural das duas comunidades. 8. Endossamos as tentativas realizadas em Taba em janeiro de 2001 para solucionar a questão dos refugiados palestinos. Naquela ocasião, os negociadores estiveram próximos de um acordo aceitável, baseado no reconhecimento, formalizado pela delegação israelense, de que Israel foi parcialmente responsável pelo problema, e na resolução 194 da ONU, de dezembro de 1948. Este é um assunto delicado mas que não deve ser negligenciado num contexto de solução definitiva do conflito palestino-israelense. 9. Repudiamos com firmeza qualquer tentativa de silenciar os críticos de Israel sob a alegação de que este tipo de crítica é, necessariamente, uma atitude anti-semita. As comunidades judaicas e todas as pessoas interessadas têm o mais absoluto direito de olhar criticamente as políticas dos governos israelenses. Impedir uma postura independente é sabotar a democracia e facilitar o fechamento. É em ambientes assim, sufocantes, que se fertilizam as idéias autoritárias e o sectarismo. 10. Repudiamos com igual firmeza as tentativas de se agregar palavras de ordem anti-semitas às manifestações políticas envolvendo o Oriente Médio. Traduzem uma visão preconceituosa e superficial sobre as forças que se enfrentam na região, dificultando a aliança com grupos judaicos democráticos e pacifistas. Na mesma linha vão os atentados contra sinagogas e instituições judaicas, principalmente na Europa, que merecem o desprezo de todos. Rio de Janeiro, 22 de abril de 2002. * [topo] |