Documento - Boletim ASA nº 76, mai-jun/2002

Memória de uma militante especial

por Zilda Márcia Grícoli Iokoi / Especial para ASA

A primeira documentação de Rivca Goldheil Gutnic, registrada no DOPS, refere-se a pedidos de autorização para mudanças de endereços. O primeiro, da rua Prates nº 467 para a mesma rua nº 408, casa 20. O segundo, desta última, no Bom Retiro, para a rua Paes Leme nº 158, no bairro dos Pinheiros. Esses pequenos sinais de controle, entretanto, faziam parte de uma história mais complexa de vigilância, infiltração e preconceitos. As medidas haviam sido tomadas durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo com que os imigrantes devessem portar cartões de identificação, controlados pelo Departamento de Polícia Política, onde a localização imediata de cada um pudesse ser obtida sem qualquer problema. Havia um conjunto de procedimentos especialmente tomados para vigiar e punir os que se voltassem contra as determinações consagradas. A equipe de controle deveria ser muito numerosa, a ponto de, mesmo quando um suspeito fosse visto por algum funcionário do serviço de informação, este, por iniciativa própria, poder armar o sistema para acompanhar o suspeito. Rivca havia migrado para o Brasil com a tarefa de organizar a base do Partido Comunista e, em companhia de Waldemar [seu marido], procurou desenvolver uma ampla atividade organizativa para os operários de São Paulo. 

Em 1933, com o aumento da repressão, Rivca transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde montou, na praça Onze, uma cozinha coletiva para prosseguir nas atividades organizativas e também criar um espaço cultural para judeus progressistas. A base alimentar atraía muitos grupos e, naquele período, a jovem militante conseguiu aproximar-se de vários homens e mulheres que continuavam migrando para o Brasil. Após o levante de 1935, Waldemar foi deportado para a Alemanha. Rivca ficou totalmente sozinha. Pensou que seu marido havia sido morto. Depois da guerra, soube que ele fora libertado na França e que ali se casou. Rivca continuou sua militância ao longo da vida e, em São Paulo, atuou na Casa do Povo, participando tanto do coro como do grupo de teatro ídish. Na velhice, foi viver no Lar Golda Meir, lugar onde a conheci aos 87 anos de idade, lúcida e com muitas saudades daquele período, quando aos 19 anos atravessou o oceano em busca de sua utopia. 

Ao lado de muitos outros judeus oriundos do Leste Europeu, a jovem militante desafiou a polícia política de Vargas, articulou com outros militantes da Argentina, Uruguai e Chile as bases da Terceira Internacional no Cone Sul e fez com que muitos brasileiros pudessem conhecer algumas histórias de solidariedade internacional num período em que o movimento operário havia sofrido grande repressão com o massacre dos anarco-sindicalistas. 

Para saber mais sobre Rivca , Waldemar e a filha do casal, Clara, leia "A tragédia de Riva", de Rosa Goldfarb, no Canto da Rosa, ASA 72.

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Zilda Márcia Grícoli Iokoi, historiadora, é professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo.

 

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