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Crise Social - Boletim ASA nº 76, mai-jun/2002 Os casos que ninguém vêpor Lea Pustilnic Lozinsky / Especial para ASA Os percalços econômicos que atingem a classe média brasileira há vários anos fizeram surgir, também no seio da comunidade judaica, um novo tipo de "caso social": são as famílias que chegaram a possuir casa e automóvel e a proporcionar escola particular para os filhos, mas que, com a redução do poder aquisitivo, ficam sem meios de pagar as contas de luz, água e condomínio. Como ajudar, num momento de desespero, circunstancial em algumas situações, a pagar as contas atrasadas, os estudos de um filho, uma eventual cirurgia de catarata de alto risco (para que a pessoa não perca a visão), um exame não encontrado em hospitais públicos, ou um par de óculos? Situações dramáticas ocorrem muitas vezes do nosso lado, sem que a comunidade se dê conta ou tome conhecimento. Um senhor sem família foi encontrado mendigando nas ruas, 15 anos atrás, falando em ídish. Informadas do caso, as ativistas do Froien Farain, a Sociedade das Damas Israelitas, o trouxeram para a instituição, onde ele acabou se revelando um conhecedor de todos os cantos litúrgicos. Fazia sempre questão de rezar no Shabat e nas festividades. Infelizmente, veio a falecer em março passado. Um outro, foi encontrado em estado de inanição, num hospital público. Agora está no Froien Farain, integrado e participante. Uma senhora de bastante idade e poucos recursos tem dois filhos deficientes e precisa assegurar a sobrevivência deles após sua morte. Uma outra, abrigada pelo Froien Farain há muitos anos, espera ansiosa toda semana o dia em que uma voluntária a leva para visitar a filha numa casa psiquiátrica. Quem fica chocado com tão poucos exemplos deve saber que esta página é insuficiente para relatar os inúmeros casos que mexem muito com o nosso emocional e são uma realidade constante e próxima. O Froien Farain, a instituição beneficente feminina mais antiga do Rio, célula mater do Lar da Criança Rosa Waissman (fundado em 1938) e do Lar da Velhice ( 1963), foi criado em 1923 por seis mulheres para estender a mão aos imigrantes judeus que, fugindo da miséria, das perseguições e dos pogroms, chegavam da Europa em busca de uma nova vida e desconhecendo o que os esperava - o clima, os hábitos e o idioma da terra. Essas mulheres de visão e de coragem ajudaram a resgatar dezenas de moças que, do contrário, acabariam engrossando a lista daquelas que fizeram a história das "polacas". Desde então, os princípios judaicos da solidariedade e dignificação da condição humana inspiraram o Froien Farain na sua missão assistencialista. O Froien Farain é mais que um suporte para o idoso com comprometimento que não é atendido por outras instituições. Isto significa ter um número maior de enfermeiros e de funcionários, ao que se acrescenta a alimentação casher que, como se sabe, tem custo mais alto. Além dos residentes e dos que estão em recuperação, a alimentação é oferecida diariamente a 20 membros carentes da comunidade, o que perfaz uma média de 5.280 refeições mensais. Duas pessoas, impossibilitadas de vir até nós, recebem a alimentação diariamente em sua casa. Quarenta e cinco famílias sobrevivem com a nossa contribuição mensal, oferecemos remédios de uso continuado para uma média de 30 pessoas, atendimento domiciliar para doentes e atendimento psiquiátrico para outras 15. Temos, no momento, cinco pacientes internados em clínicas especializadas. Hoje sabemos que a solidão é um dos maiores veículos para a depressão, distúrbio tão freqüente na terceira idade. Por isso, nossos residentes podem ser encontrados não apenas no refeitório, mas também assistindo a filmes, tocando instrumentos musicais, fazendo exercícios físicos e trabalhos manuais, exercitando a memória em jogos de bingo e, em alguns casos, resgatando o contato com a religião através do Cabalat Shabat e das outras festividades. Este é o resultado do trabalho de uma equipe interdisciplinar de profissionais dedicados, composta por assistente social, médico, psicóloga, psiquiatra, musicoterapeuta, arteterapeuta, fonoaudióloga, fisioterapeuta e nutricionista, com o suporte de enfermeiros, funcionários e voluntárias. Nossos residentes e casos sociais participam, quando seu estado permite, de um intercâmbio realizado com grupos de movimentos juvenis e escolas. Onde buscar recursos para suprir estas necessidades? Traçando um paralelo com a grave crise econômica e social da Argentina, em nenhum momento a subvenção vinda de organizações judaicas internacionais foi interrompida. Mais próximo de nós temos o exemplo de São Paulo, que é um Estado economicamente mais forte e com uma comunidade mais presente e atuante. O Froien Farain tem seus associados, faz campanhas, recebe donativos eventuais, realiza um evento anual, mas o nosso compromisso mensal é muito alto. A comunidade judaica do Rio, pouco presente, sem conhecimento das proporções reais do nosso quadro de pobreza nem das organizações que efetivamente contribuem para torná-lo menos agudo, mostra que temos um longo caminho a percorrer. OLHO - Não conhecemos as proporções reais do quadro de pobreza da comunidade judaica do Rio. * Lea Pustilnic Lozinsky é presidente do Froien Farain.
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