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Ídish - Boletim ASA nº 75, mar-abr/2002 A língua cercadapor Renato Mayer / Especial para ASA "Na história judaica, a distância entre estar doente e morrer é muito, muito longa." Para que uma língua permaneça viva é preciso, primeiro, que haja uma população de falantes e, segundo, que se mantenham as condições culturais e sociais na qual ela se desenvolveu. Na história judaica, foi possível, com o intenso e excepcional empenho de homens como Asher Ginzberg e Eliezer Ben Iehuda - ambos falecidos na década de 1920 - retirar o hebraico do recôndito de língua do culto e do estudo religioso e transformá-lo em elo de ligação no dia-a-dia de uma comunidade dinâmica, formada por judeus de todo o mundo, renovados por sua esperança numa velha terra nova, Eretz Israel. Este ressurgimento resultou também do esforço de várias gerações. Se o hebraico cresceu e ampliou seu horizonte de falantes, as outras línguas próprias dos judeus - talvez por isso - percorreram o caminho inverso. O ladino, que traz consigo uma história de 500 anos de comunicação judaico-espanhola e mediterrânea, sofreu um golpe terrível com o extermínio, pelos nazistas, de mais de 70 mil judeus gregos e hoje agoniza, até mesmo em Israel. Lá, em 1996, foi criada por lei do Parlamento, uma Autoridade Nacional do Ladino, que patrocina exposições, bibliotecas, conferências, cursos em alguns colégios e nas principais universidades do país. Mas é claramente uma iniciativa de preservação e não de expansão. O caso do ídish, pela sua dimensão, é ainda mais doloroso. São mil anos, desde seu surgimento como a leshon ashkenaz - a língua dos judeus da Alemanha , de onde migrou, com levas de populações perseguidas, para o Leste Europeu. Ao tempo de sua consolidação como idioma, segundo os filólogos, no final do século 18, constituía-se de 70% a 80% de termos originários do alemão, 15% a 25% do hebraico e de 5 a 10% de línguas eslavas, além de elementos esparsos de outros idiomas, como o francês. Nesta mesma época, na Alemanha, seu crescimento se atrofiava e o ídish passou a ser visto como veículo de expressão dos setores menos educados do mundo judaico. Os judeus alemães, atraídos pela ideologia racionalista e pela assimilação, adotaram francamente a língua do país e até seus dialetos regionais. Na Europa Central e Oriental, porém, o ídish floresceu e se desenvolveu. Era a língua do cotidiano dos judeus, do comércio, da literatura, da imprensa, do sistema escolar, a que serviu à campanha dos hassidim em seu reflorescimento religioso e a todos os movimentos culturais e políticos. Em 1939, escreve David Margolis no The Jerusalem Report, três quartos dos 11 milhões de judeus europeus falavam ídish. Somente a Polônia tinha 3 milhões de judeus - muitos dos quais analfabetos em polonês -, que sustentavam 27 jornais diários e cem semanários em ídish. O artigo de Margolis é, na verdade, a resenha de um livro, Yiddish: a Nation of Words, escrito e publicado recentemente nos Estados Unidos por Miriam Weinstein. Ali há indicações do porquê desta língua, tão pujante ao seu tempo, ter encolhido para aproximadamente dois milhões de falantes, os quais diminuem a cada dia. Em suas palavras, o ídish é uma língua sob cerco, "em estado de coma, sustentada por engrenagens tão diversificadas como programas de universidades, o interesse renovado pela música klézmer, uma onda de sentimento de identidade étnica e o isolamento dos judeus ultra-ortodoxos, para alguns dos quais o ídish é a primeira língua que aprendem com suas mães". Mais que tudo, o genocídio perpetrado pelos nazistas eliminou fisicamente acima da metade da população falante do ídish e destruiu as bases sociais e culturais em que se desenvolvia. Deixou, no pós-guerra, conseqüências políticas e psicológicas em que os elementos centrífugos em relação ao idioma eram mais fortes do que os que poderiam concorrer para o seu revigoramento. Em Israel mesmo, onde se pretendia forjar a imagem de um novo judeu - do que não se deixara abater pelo Holocausto e que tomava para si o desafio de construir um país próprio em terra inóspita -, o ídish não era bem aceito. Já antes do estabelecimento do Estado, os defensores do hebraico dissolviam reuniões de idishistas e chegaram até a queimar bancas que vendiam jornais em ídish. Em 1930, o exército britânico foi chamado a dar segurança aos freqüentadores do cinema que queriam assistir ao lacrimoso A Ídishe Mame. A Universidade Hebraica, somente em 1952 começou a dar cursos em ídish, embora hoje conceda até doutorados neste idioma. Na antiga União Soviética, onde viviam outros 3 milhões de judeus, a política em relação ao ídish foi, na melhor das hipóteses, dúplice, quando não antijudaica. As autoridades o reconheceram como a língua nacional dos judeus e criaram, na década de 1920, uma ampla rede de escolas nas quais os ensinamentos eram dados neste idioma. Os objetivos, no entanto, eram substituir qualquer outra forma de educação judaica, reduzir ao mínimo o conteúdo de elementos religiosos e desvincular o ídish do hebraico e da cultura que lhe era associada. As escolas judaicas, praticamente limitadas ao ensino primário, se transformaram, assim, em instituições sem qualquer valor ou conteúdo prático, não chegando a surpreender, portanto, que muitos judeus preferissem enviar seus filhos às escolas russas, como meio de dar continuidade aos estudos e abrir-lhes perspectivas de progresso intelectual e profissional. A partir da segunda metade dos anos 30, as perseguições aos judeus tomaram um caráter mais aberto e suas escolas foram sendo gradativamente fechadas. Mil novecentos e quarenta e oito, o mesmo ano em que Stalin reconheceu a independência de Israel, constituiu o pior momento dessa política de supressão: foi extinto o Comitê Judaico Antifascista; fechada a editora judaica de Moscou, a última que restava; interrompida a publicação do único jornal em ídish, o Einikait; presos e executados inúmeros artistas e escritores judeus. Neste mesmo ano, foi também fechado o Teatro Judaico de Moscou, até então considerado o orgulho da cultura soviética em ídish. Um tímido renascimento só foi possível após a morte de Stalin e em princípios da década de 60, com o aparecimento da revista mensal Sovietish Heimland. Tão tímido que, entre os 890 mil judeus que deixaram a antiga União Soviética, de 1989 a 2000, para se fixarem em Israel, o russo é a língua dominante. Em russo circulam as dezenas de seus jornais diários, em russo será a programação do seu canal de TV, próximo a entrar no ar. Como diz Margolis, "o final feliz poderia ter sido o renascimento real do ídish nos Estados Unidos". Mas o mosaico americano tem uma força de assimilação irresistível, com um pacto não explícito de troca da aceitação e do êxito pessoal por uma rejeição da valorização étnica . "A tragédia do sucesso dos judeus no Novo Mundo", prossegue ele, "é que os judeus americanos foram dos mais rápidos em se despirem de sua língua nativa, privando seus filhos da oportunidade de aprendê-la. Hoje, na América, o ídish é uma língua de paródias, com o sotaque ídish marcando o momento das risadas. A terrível indiferença dos círculos literários americanos para com os tesouros da literatura ídish foi apenas mais um lance na conspiração do esquecimento." Isto não se aplica aos ultra-ortodoxos. Assim, como em outros campos, permanecem os virtuais guardiães de uma tradição, reproduzida e repassada aos seus numerosos filhos. Grande número deles aprende o ídish antes do inglês. O cerco, porém, prossegue. O próprio livro de Miriam Weinstein dificilmente será traduzido para o ídish. Como em tantos momentos da História judaica, todavia, é cedo ainda para contabilizar esta perda, decretar a morte de uma língua que atravessou um milênio. Lembrando a epígrafe de Bashevis Singer neste caso, resistir, mesmo bastante doente, pode levar muito, muito tempo. OLHO - Hoje, o sotaque ídish marca o momento das risadas. * Renato Mayer, economista, é colaborador de ASA.
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