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EDITORIAL - Boletim ASA nº 75, mar-abr/2002 Quando o Estado mata A Justiça pode ser cega: mas que olfato ! (Millôr Fernandes) Demorou mas aconteceu. Quase cinqüenta anos depois da execução do casal Julius e Ethel Rosenberg na prisão de Sing Sing, a verdade aparece. Em entrevista à rede CBS de televisão no início de dezembro passado, David Greenglass, irmão de Ethel e testemunha-chave da acusação de espionagem, disse com todas as letras: "Eu menti". Sob orientação do assistente de promotoria Roy Cohn, Greenglass incriminou sua irmã para evitar o indiciamento da esposa, Ruth. Fica, pois, definitivamente comprovado o sacrifício do casal Rosenberg no altar da Guerra Fria. A caça às bruxas colocou a Justiça a serviço da batalha ideológica, assassinando duas pessoas que proclamaram inocência -e falavam a verdade- até a ante-sala da cadeira elétrica. Os Estados Unidos têm um triste prontuário na história dos assassinatos legais. Em nome de interesses de classe ameaçados, foram enforcados, em 1886, os chamados Mártires de Chicago, e eletrocutados, em 1927, os trabalhadores anarquistas Nicolás Sacco e Bartolomé Vanzetti. Em ambos os casos, processos viciados deram amparo legal à eliminação de militantes libertários, cujo crime era, na verdade, a luta pela ampliação dos direitos dos trabalhadores. As versões oficiais, encampadas por grande parte da imprensa, satanizaram as vítimas e defenderam a necessidade de "limpeza social" (aqui entendida como marginalização de estrangeiros e isolamento das correntes anti-capitalistas e anti-clericais). São fragmentos da História que, colocados em perspectiva, soam estranhamente atuais. A histeria belicista que se seguiu aos atentados de 11 de setembro passado nos Estados Unidos gera monstrengos. O império, arranhado, flexiona os músculos. O orçamento militar para 2003 apresentado pelo governo Bush, de 2 trilhões e 13 bilhões de dólares, é o maior em 21 anos. Depois de anular o Tratado de Mísseis Anti-Balísticos, assinado com a União Soviética em 1972, e renovar os investimentos no projeto Guerra nas Estrelas, os norte-americanos acenam para a extensão do controle militar sobre o planeta. Agrupamentos de rebeldes, se rotulados de terroristas, serão atingidos pela mais sofisticada máquina de matar já criada pelo homem. As fronteiras se dissolvem. Forca e cadeira elétrica são brinquedos inocentes perto do que está por vir. Por trás de tudo isso está uma lógica muito semelhante à que eliminou o casal Rosenberg com a benção do ritual jurídico. Numa arena em que se defrontam interesses poderosos, o discurso canta mais alto do que a verdade, a versão vale mais do que o fato. A operação militar de bombardeio ao Afeganistão foi chamada de "Liberdade Duradoura". Um charme. Cabe, entretanto, perguntar: de que liberdade se está falando ? Se ela se aplica ao direito de respirar um ar menos poluído, por que os Estados Unidos, veementes na defesa de sua cadeia industrial, se recusam a assinar o protocolo de Kyoto? Se ela se aplica às Convenções de Genebra para os prisioneiros de guerra, por que a base de Guantánamo tem servido de cativeiro desumano para os prisioneiros trazidos da guerra americana no Afeganistão ? É preciso estar atento e forte, cantava Gal Costa nos idos do Tropicalismo. Pois é. No caso dos Rosenberg, o clima de histeria criado nos porões do macartismo e ecoado pela grande imprensa da época envenenou a capacidade do público perceber o que realmente estava acontecendo: um linchamento. Será uma bela homenagem a Julius e Ethel se insistirmos em pensar, em duvidar, em questionar, em construir uma memória verdadeiramente humanista. Eles morreram porque tentavam tornar o mundo um lugar menos angustiado. Que nós possamos viver e lutar pelo mesmo objetivo. OLHO - Forca e cadeira elétrica são brinquedos inocentes perto do que está por vir. * [topo] |