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Documentos - Boletim ASA nº 75, mar-abr/2002 Se não me falha a memória...por Jacques Gruman / Especial para ASA Num de seus livros de crônicas, Moacyr Scliar observa que, depois de contar muitas vezes uma determinada passagem de sua vida, já não mais sabia distinguir entre o que realmente acontecera e aquilo que sua imaginação acrescentara. A repetição, pois, não fora suficiente para congelar a narrativa e barrar a invenção. O cronista se confundia com o ficcionista.
No terreno coletivo, sujeito a oscilações radicais e conflitos agudos, a memória torna-se ainda mais gelatinosa, plástica. Um movimento político vitorioso, por exemplo, costuma recriar a narrativa histórica, marginalizando a interpretação dos derrotados e ofuscando tudo o que faça lembrar a memória anterior. Stalin apagou a imagem de Trotsky das fotos pós-1917. A ditadura militar instalada no Brasil com o golpe de Estado de 1964 tratou de remover da consciência coletiva as pegadas do movimento popular que tentava, até então, mudar a cara do país. Reformadores ganharam o rótulo de "subversivos" e uma geração inteira, afastada da política, foi educada a partir dessa imagem distorcida.
É nesta perspectiva que se situa a importância da abertura à consulta pública do acervo de documentos da ASA e da Biblioteca Scholem Aleichem. A partir de agora, não será mais possível reconstruir a trajetória do judaísmo progressista em nosso país sem um mergulho profundo nos papéis que registram as atividades das duas instituições. Saímos, finalmente, da "achologia". Prestamos, assim, mais um serviço relevante para a comunidade judaica e para o mundo acadêmico. Reforçando a memória, criamos melhores condições de fortalecimento das identidades particular e geral. Lembro, a propósito, Leandro Konder. Em artigo publicado no Globo em 4 de janeiro de 1998, o filósofo disse: "O desmemoriado, com sua identidade enfraquecida, fica à mercê das flutuações da moda; perde a noção da história que o liga às outras pessoas, torna-se esponjoso: absorve tudo e não retém nada. Mostra-se receptivo a todas as influências, obediente a todos os comandos. Segue a direção do vento." * Jacques Gruman é diretor da ASA e colabora neste Boletim.
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