Documentos - Boletim ASA nº 75, mar-abr/2002

Se não me falha a memória...

por Jacques Gruman / Especial para ASA

Num de seus livros de crônicas, Moacyr Scliar observa que, depois de contar muitas vezes uma determinada passagem de sua vida, já não mais sabia distinguir entre o que realmente acontecera e aquilo que sua imaginação acrescentara. A repetição, pois, não fora suficiente para congelar a narrativa e barrar a invenção. O cronista se confundia com o ficcionista.

Em 1951, Akira Kurosawa dirigiu um de seus clássicos, Rashomon. A trama central se desenvolve no século 11. Um lenhador, um sacerdote e um plebeu encontram-se num templo em ruínas num dia de chuva torrencial. Conversam sobre um assassinato que haviam presenciado. Cada um deles conta uma versão completamente diferente do outro. Mais ainda: mesmo o morto, cujo espírito se incorpora numa médium, narra uma versão pouco verossímil. A memória de todos parece um menino travesso, que brinca com os fatos, pouco interessado numa hipotética verdade única.

Eis aí, sem artifícios, dois bons exemplos das armadilhas que nos apronta a memória. Ao contrário do que prega o senso comum, ela é movediça, volúvel, sujeita a movimentos pendulares e mediações complexas. No plano individual, uma simples alteração de humor ou uma pirraça adolescente podem acabar apagando, por censura inconsciente, passagens dolorosas ou socialmente condenáveis. A trajetória pessoal veste roupagem majestosa mas, logo abaixo da superfície, aparece o que a escritora norte-americana Austin O'Malley chamou de "velha louca, que guarda trapos coloridos e joga comida fora". 

O Theatro Phenix ficava situado na Av. Almirante Barroso. A opereta "A moça do Cáucaso" foi apresentada no dia 29 de dezembro de 1935, sendo protagonista Miriam Koralova e cantor, Leon Blumenson.

No terreno coletivo, sujeito a oscilações radicais e conflitos agudos, a memória torna-se ainda mais gelatinosa, plástica. Um movimento político vitorioso, por exemplo, costuma recriar a narrativa histórica, marginalizando a interpretação dos derrotados e ofuscando tudo o que faça lembrar a memória anterior. Stalin apagou a imagem de Trotsky das fotos pós-1917. A ditadura militar instalada no Brasil com o golpe de Estado de 1964 tratou de remover da consciência coletiva as pegadas do movimento popular que tentava, até então, mudar a cara do país. Reformadores ganharam o rótulo de "subversivos" e uma geração inteira, afastada da política, foi educada a partir dessa imagem distorcida.


Muitas programações eram realizadas fora dos recintos das instituições judaicas.

Pesquisadores sérios sabem como é perigoso construir teses a partir exclusivamente de depoimentos pessoais. Cada depoente seleciona um quinhão de fatos e, a partir deles, se funda uma versão. Como, entretanto, selecionar é tomar partido, uma história só pode ser integralmente contada se as visões pessoais forem complementadas pela consulta a documentos. É uma triagem indispensável.

É nesta perspectiva que se situa a importância da abertura à consulta pública do acervo de documentos da ASA e da Biblioteca Scholem Aleichem. A partir de agora, não será mais possível reconstruir a trajetória do judaísmo progressista em nosso país sem um mergulho profundo nos papéis que registram as atividades das duas instituições. Saímos, finalmente, da "achologia". 

Prestamos, assim, mais um serviço relevante para a comunidade judaica e para o mundo acadêmico. Reforçando a memória, criamos melhores condições de fortalecimento das identidades particular e geral. Lembro, a propósito, Leandro Konder. Em artigo publicado no Globo em 4 de janeiro de 1998, o filósofo disse: "O desmemoriado, com sua identidade enfraquecida, fica à mercê das flutuações da moda; perde a noção da história que o liga às outras pessoas, torna-se esponjoso: absorve tudo e não retém nada. Mostra-se receptivo a todas as influências, obediente a todos os comandos. Segue a direção do vento."

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Jacques Gruman é diretor da ASA e colabora neste Boletim.

 

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