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ÍDISH - Boletim ASA nº 74, jan-fev/2002 A contribuição da imprensa israelensepor Guila Flint / Especial para ASA Quando as tropas israelenses reocuparam a cidade de Belém, no dia 18 de outubro, o repórter para assuntos militares do canal 2, Roni Daniel, foi junto. Na reportagem transmitida no dia seguinte, o repórter foi visto invadindo o hotel Paradise, junto com os soldados israelenses, e para surpresa dos telespectadores ele mais parecia um Rambo do que um jornalista. A postura de Daniel representa muito bem o comportamento de grande parte da imprensa israelense durante esse ano de confrontos. Muitos dos jornalistas e analistas se transformaram em porta-vozes do governo israelense, transmitindo somente a narrativa deste. Quando Roni Daniel participou da invasão do hotel Paradise em Belém, ele não mostrou aos telespectadores os duros resultados dessa invasão, nem os tanques que lá fora do hotel destruíram as calçadas e o asfalto das ruas e bombardearam as lojas nas proximidades, transformando a rua principal da cidade em algo parecido com Beirute durante a guerra do Líbano. Daniel também não mostrou a destruição deixada pelos soldados no hotel, nem o fato de que, dos andares altos desse mesmo hotel, atiradores do exército dispararam contra palestinos em Belém. Vinte e três palestinos foram mortos durante os dez dias que as tropas israelenses permaneceram na cidade - pelo menos sete deles eram civis. O crítico de televisão do jornal Haaretz, Rogel Alper, escreveu ironicamente que os analistas militares têm se tornado supérfluos. Segundo Alper, já seria preferível que os canais de televisão cedessem alguns minutos por dia diretamente ao chefe do Estado Maior do exército, Shaul Mofaz. Assim, o general apareceria e colocaria a sua posição diretamente ao público, sem o disfarce de analista. A "guerra" entre israelenses e palestinos é mostrada pela imprensa em Israel geralmente do ponto de vista das tropas israelenses. Freqüentemente se vêem "soldados cansados depois de uma operação militar bem sucedida", mas não se vêem os resultados dessa operação do lado palestino. O próprio uso do termo "guerra" para qualificar os confrontos desde o início da Intifada é bastante problemático, em vista da ausência de simetria entre as forças dos dois lados. São poucos os jornalistas israelenses que trazem ao público de Israel a narrativa palestina dos acontecimentos. Os mais constantes são Gideon Levy e Amira Hass, do jornal Haaretz, e Yoram Binur, do canal 2 de televisão. Amira Hass mora em Ramalá, na Cisjordânia. Ela é a única jornalista israelense que mora permanentemente na área palestina. Hass vive o dia-a-dia da ocupação israelense do lado palestino. Nas duas semanas durante as quais as tropas israelenses reocuparam Ramalá, ela, junto com seus vizinhos palestinos, foi submetida ao toque de recolher. Gideon Levy escreve um artigo semanal sobre histórias pessoais de palestinos vítimas da ocupação, cujo título é "A região das sombras". Muitos israelenses deixaram de ler o artigo de Levy, pois sabem que sempre trata de histórias dolorosas, duras e pesadas. O artigo é publicado no suplemento do fim de semana do jornal e algumas pessoas temem que a leitura dos depoimentos trazidos por Levy lhes "estrague o fim de semana", outras dizem que já não agüentam mais ler sobre a tragédia dos palestinos e se sentem impotentes e deprimidas diante dessa realidade. Yoram Binur é o repórter de televisão que transita com mais freqüência nas cidades palestinas da Cisjordânia e traz a narrativa da população e de seus líderes. A informação sobre o que realmente acontece nos territórios palestinos é tão escassa que os israelenses interessados recorrem a meios de comunicação estrangeiros como a BBC e a CNN. Aqueles que entendem árabe costumam assistir ao canal de televisão do Catar, El Jazira, porém recentemente políticos da direita exigiram a proibição das transmissões desse canal em território israelense por "divulgar incitamento contra Israel". Os canais de rádio também têm evitado entrevistar líderes palestinos, segundo a recomendação que receberam de líderes políticos - "para que fornecer um microfone aos inimigos?" Assim, com a ampla colaboração da imprensa local, os palestinos se tornam cada vez mais distantes e invisíveis e, portanto, incompreensíveis para a maioria dos israelenses. De parceiros potenciais para uma coexistência pacífica, os palestinos voltam a ser considerados inimigos e deixaram de ser vistos ou ouvidos. Vale notar que essa colaboração da imprensa é totalmente voluntária. Em Israel existe uma ampla liberdade de expressão e ninguém obriga os jornalistas a adotarem o ponto de vista do governo, eles o fazem por opção. Quase mil pessoas morreram durante esses quinze meses de confrontos, aproximadamente 200 israelenses e 800 palestinos. A população, dos dois lados do conflito, perdeu a confiança na paz e passou a apoiar a violência contra o outro lado. Segundo as pesquisas, 70% dos palestinos apóiam os atentados contra israelenses e 65% dos israelenses apóiam a política de eliminação de palestinos suspeitos de terrorismo adotada pelo governo de Ariel Sharon. Para reencontrar o caminho do diálogo é necessário que cada lado possa ver e ouvir o outro e, neste sentido, a imprensa poderia exercer um papel fundamental, se quisesse. * Guila Flint é jornalista em Tel Aviv e co-autora, com Bila Grin Sorj, do livro Israel Terra em Transe - democracia ou teocracia? (Editora Civilização Brasileira,2000).
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