ISLÃ - Boletim ASA nº 74, jan-fev/2002

Nem sempre é o que parece

por Vitória Peres / Especial para ASA

Após os atentados de 11 de setembro muito se escreveu sobre o Islã. O radicalismo de um tipo de discurso muçulmano veio à tona e "guerra santa" e "mártires" que não temiam a morte passaram a fazer parte da nossa informação cotidiana. Entretanto, pouco espaço tiveram na mídia as vozes moderadas do Islã, intelectuais e teólogos muçulmanos de diferentes países que não só fazem a crítica desses grupos fundamentalistas, como explicam seus recursos simbólicos e propõem novas interpretações e mudanças. Alguns inclusive defendendo uma separação entre religião e direito, ou seja, uma mudança na sharia, ou lei divina, considerada por muitos uma questão espinhosa e difícil de ser tratada no Islã de hoje. 

Escutar as várias vozes e observar os múltiplos sentidos é necessário para não formamos uma idéia essencialista da religião muçulmana. Ouvindo diferentes interpretações é possível ver que não há algo como um islã único, um rótulo fechado. Rótulos fechados são construídos em cima de conceitos (ou pré-conceitos) ideológicos e limitantes. 

Um dos temas mais polêmicos e mais distorcidos tem sido o conceito de guerra santa, ou jihad, e por isso escolhi abordá-lo.

Jihad, que, segundo a interpretação de alguns autores, quer dizer literalmente esforço - mais especificamente se refere à frase do Corão "esforçar-se no caminho de Deus"-, usualmente é traduzido como guerra santa. Há a grande jihad e a pequena jihad. Para defender esta concepção de esforço interno, contam que o profeta Maomé, uma vez retornando de uma guerra, disse que essa era a pequena jihad e que a grande jihad era a batalha interna, que se trava para combater nossas paixões e defeitos, submetendo nossa natureza inferior. Portanto, a guerra santa menor, jihad al asghar, se refere ao combate externo para preservar a religião, e a maior, jihad al akbar, ao combate interno realizado pelo crente. Este combate interno é que de fato, segundo esta interpretação, representa a verdadeira guerra santa.

Há autores que, embora defendendo a interpretação do conceito de jihad também como guerra santa externa, enfatizam seu caráter de guerra de autodefesa, para preservar a religião. No início do islã, o profeta e seus primeiros seguidores tiveram que se afirmar em um ambiente hostil em que, para poder seguir com sua mensagem e assegurar a prática de sua nova fé, precisaram se defender constantemente e mesmo empreender guerras contra opositores. 

E afinal, há ainda aqueles autores que interpretam o conceito de jihad como se referindo a uma guerra de expansão, insistindo na idéia de que o objetivo da jihad seria expandir a fé islâmica para todo o mundo, e assim constituir uma única umá, ou comunidade muçulmana. A pretensão universalista, de estabelecer um modelo único e exemplar do divino, aparece em geral nas religiões de mensagem universal, não é uma exclusividade do islã. O cristianismo também acalenta esta mesma pretensão. É quando ela se torna radical e funciona como uma desculpa para conquistas econômicas e políticas, entremeadas de conversões forçadas, que passa a ser perigosa. Esta versão de jihad é a que mais aparece na mídia e assusta o cidadão comum. 

Aos que lutam na jihad, o Corão promete recompensas. Este tipo de promessa tampouco é exclusivo do islã. Promessas de um paraíso após a morte estão presentes em várias religiões, e mesmo no cristianismo já houve suicídios de grupos de fiéis em busca da recompensa após a morte. É um tipo de interpretação literal das escrituras. Entretanto há também outras leituras mais simbólicas. 

No islã, os combatentes da jihad são chamados de sharide, ou mártires. Vozes moderadas do islã têm enfatizado que o uso atual de jihad e de sharide, em relação ao terrorismo ligado a muçulmanos, é totalmente descontextualizado e ideológico, já que os terroristas matam inocentes. E é comum, nos capítulos da sharia (lei divina muçulmana) que tratam da jihad, falar que os combatentes das guerras santas não deveriam matar mulheres e crianças, a menos que elas atacassem primeiro, e exortá-los a não torturar ou mutilar prisioneiros, determinando também bom tratamento aos não-combatentes. As vítimas dos terroristas são em geral não-combatentes, e há mulheres e crianças também.

Ademais afirmam que, no Corão, o mártir, ou sharide, é aquele que morre pela face de Deus e este não seria o caso dos terroristas, tomados como estão por um discurso equivocado e ideologicamente confuso de combater o Ocidente ateu e materialista que vem ferindo a comunidade - umá - muçulmana. Atribuem, portanto, esse terrorismo a causas econômicas e políticas, que se escondem atrás de uma roupagem religiosa, como forma de justificar e mobilizar seus seguidores.

Antes de partimos para uma análise dessas diversas posições é bom ressaltarmos duas coisas. Primeiro, que a jihad nem sempre foi um conceito atuante e lembrado na história do islã. Alguns historiadores apontam que no início do islã era comum o recurso a este conceito, mas que depois ele foi mais ou menos esquecido, tanto que no tempo das cruzadas, em fins do século 11, houve uma dificuldade em mobilizar os muçulmanos circundantes para o combate. Alguns soberanos muçulmanos procuraram até mesmo alianças com os príncipes e guerreiros cristãos, envolvidos como estavam em rivalidades com os outros estados muçulmanos. No século 12, sob a liderança de Saladino, é retomado este conceito e proposta uma jihad contra os cruzados. Esta jihad teve objetivos e duração limitados. Com a reconquista de Jerusalém, as relações com os francos foram retomadas, ou seja, não se tinha a idéia de uma expansão ilimitada do islã no mundo. 

A segunda coisa é que esta idéia de guerra santa não está restrita apenas ao islã, mas era comum no Oriente Médio como um todo. Ela está presente nos livros do Velho Testamento, como Deuteronômio e Juízes, e também inspirou cristãos em suas guerras contra os persas (cristãos bizantinos) e nas cruzadas para a retomada de Jerusalém. Segundo alguns autores, esteve presente na intolerância dos reis cristãos Fernando e Isabel ao expulsarem os judeus e muçulmanos da Espanha em finais do século 15 e no século 16, e na Inquisição Católica, em que se travou uma guerra santa contra os hereges. 

A idéia de martírio pela fé tampouco está restrita ao islã, existindo também em outras religiões. Vários santos do cristianismo, por exemplo, são mártires. Também não é raro encontrarem-se mártires em causas políticas.

A jihad é de fato um recurso presente no ideário muçulmano, mas isto não quer dizer que seja, como dizem alguns, uma parte essencial e constitutiva da religião muçulmana. Seu uso, ao longo da História e hoje em dia, tem não apenas um sentido religioso, mas também, e principalmente, uma função ideológica. Sua manipulação esconde os verdadeiros fins, que são, muitas vezes, políticos e econômicos. Além do mais, convocar uma jihad não quer dizer ser atendido, pois isso depende de muitos outros interesses envolvidos. Durante a queda do Império Otomano, no final da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, o sultão turco, considerado o líder da comunidade muçulmana, convocou uma jihad entre todos os crentes e não foi atendido.

Ao ouvirmos falar em jihad e shahide, portanto, não esqueçamos que os terroristas não representam a totalidade do islã. Muitos muçulmanos não aceitam essa jihad contra o Ocidente com o intuito de expandir o islã e estabelecer a sharia, o código muçulmano de comportamento, em todo o mundo. Os terroristas são uma minoria e aqueles que simpatizam com suas ações no mundo muçulmano não constituem a totalidade do islã. Líderes como Bin Laden sabem fazer seus discursos radicais com elementos que ecoam no ideário do muçulmano comum, que vive em seus países as dificuldades das grandes massas excluídas do processo de globalização. É preciso começar a subsidiar as alternativas a esse discurso que ajudem a tratar das necessidades reais dessas massas, e isto a política internacional quase não tem feito. 

O lado tolerante do islã precisa também ser destacado, para que não prevaleça uma interpretação única. O Corão prega o respeito aos "povos do livro", ou seja, àqueles que têm suas escrituras sagradas, como os cristãos e os judeus, entre outros. Também aceita os profetas do Velho Testamento e considera Jesus Cristo um profeta. Esta tolerância esteve presente ao longo da História. Basta lembrar o Califado de Córdoba, Al Andalus, quando os muçulmanos, os "mouros", governaram aquela região e houve um rico convívio e intercâmbio entre cristãos, judeus e muçulmanos.

O islã, desde seus primórdios, conviveu de uma forma muito próxima com os judeus. Eles foram muito mais protegidos nos países muçulmanos do que nos países cristãos ao longo da História. O desentendimento começou a ocorrer e se radicalizou recentemente com a criação do estado de Israel e a questão palestina.

É o momento de dar mais espaço e procurar ouvir as vozes moderadas e tolerantes do islã, tanto as mais tradicionais como também as reformistas. O fanatismo não é exclusividade de ninguém e nenhum de nós a ele está imune. Observar-nos atentamente para que não aflore em nós, é uma das formas possíveis de lidar com ele.

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Vitória Peres é antropóloga e professora visitante do Departamento de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

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