EDITORIAL - Boletim ASA nº 74, jan-fev/2002

Virando a página

Os químicos denominam ponto de viragem o momento em que duas substâncias em contato chegam numa fase crítica da reação. Esta passagem é visível a olho nu, denunciada por uma mudança brusca de cor ou pela transformação do estado físico. Talvez em algum momento do futuro o ano de 2001 seja interpretado como um ponto de viragem da ASA.

O trabalho realizado nos últimos anos permitiu um acúmulo de forças que desembocou numa nova etapa. Os sinais são bastante evidentes. A ASA deixa de ser apenas uma boa intenção e se firma como um centro cultural dinâmico, focalizado na comunidade judaica mas sintonizado com todos os acontecimentos contemporâneos. Constrói vasos comunicantes, que colocam em contato suas raízes mais caras com as angústias e os sentimentos do homem moderno, do cidadão.

Em compartimentos vitais da nossa vida institucional tivemos avanços. A comunicação com o público ampliou-se e tornou-se mais freqüente. O uso intensivo da Internet, através dos Informativos ASA e da atualização regular da homepage, multiplicou o alcance das nossas mensagens. Em conseqüência, o público pôde manifestar-se, fazendo sugestões e avaliando on-line o que fazemos.

As programações tiveram um sensível crescimento de público. Não por acaso. Os debates não fugiram dos temas polêmicos, como a análise do livro de Norman Finkelstein, A Indústria do Holocausto, e o exame das tensas relações entre marxismo e judaísmo. O Oriente Médio foi trazido à cena em um curso e três debates, sempre com abordagem democrática e plural, evitando-se a mera reprodução de versões oficiais e com espaço para as visões de todas as partes envolvidas nos conflitos locais. A situação dos judeus no Irã, o workshop sobre música klezmer e a comemoração do Dia Internacional da Mulher fecharam o ciclo anual da circulação de idéias e informações.

Pelo nosso auditório transitaram também música e humor. Grupos de choro, flamenco e música tradicional judaica celebraram a poesia dos sons. Abram Zylbersztajn e Boris Cipkus trouxeram o riso com ídishe tam, o precioso molho judaico recheado de ironia. Enfim, um cardápio variado à judaica, capaz de disputar a preferência das pessoas num circuito cultural rico como o carioca. 

Não negligenciamos a preservação da memória. Em março lançamos o livro com a coletânea das crônicas que o falecido ativista Abraham Josef Schneider produziu para ASA. Um texto imprescindível para quem quer conhecer uma parte da história dos judeus no Rio. No segundo semestre organizamos e informatizamos nosso acervo de documentos, num projeto que contou com importante apoio financeiro da Chevra Kadisha. Com a abertura ao público, possibilitamos aos pesquisadores acesso a uma fonte inestimável de informações sobre a corrente progressista judaica em nosso estado.

Por tudo isso, sentimo-nos animados para enfrentar os desafios que temos pela frente. Entre eles, a idéia de revitalização da Biblioteca Scholem Aleichem (agora especializada em temas judaicos), o estabelecimento de parcerias com entidades da nossa comunidade (quebrando de vez a carga de preconceitos de que ainda somos alvo) e o estreitamento de relações com o mundo acadêmico.

Gostaríamos, por fim, de compartilhar esse entusiasmo com você, que nos acompanha lendo ASA. Sabemos que a conjuntura não permite euforias. Os tambores da guerra teimam em fazer seu ruído sombrio, o mundo está longe de ser um lugar confortável para se viver. O futuro, entretanto, não está escrito nas estrelas. Ele é obra do trabalho humano e será determinado pelo empenho em construí-lo. Por tudo isso, desejamos a todos um 2002 fecundado por essa dedicação e grávido de esperança. 

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