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EDITORIAL - Boletim ASA nº 73, nov-dez/2001 Bombas & ManteigaAs tragédias têm uma finalidade didática. O sofrimento súbito, pessoal ou coletivo, interrompe a rotina e obriga o homem a se colocar frente a frente às suas zonas subterrâneas, à sua essência dolorosa e inescapável. Terremotos revelam nossa finitude, doenças graves mostram nossa fragilidade física e espiritual, guerras denunciam o lado sombrio da agressividade humana e das relações sociais. Não foi diferente com os abomináveis atentados em Nova York e Washington. Antes mesmo que parassem de fumegar as torres gêmeas do World Trade Center e os destroços do Pentágono, começou a dança das perguntas e foi aberta a caixa de Pandora. Quem fez aquilo? Por que nos Estados Unidos? Como punir os culpados? As respostas iniciais e as conseqüências bélicas são de arrepiar e prometem manter a respiração do mundo suspensa por muito tempo. Como bem acentuou o veterano pacifista israelense Uri Avnery, as torres gêmeas estão em todo o planeta e já não há mais local seguro. Há pelo menos três aspectos na conjuntura pós-atentados que devem preocupar os que não se entregam aos clamores de vingança e ao humor belicista. O primeiro é a proclamada, e muito duvidosa, vantagem cultural do ocidente. A desastrada declaração do primeiro-ministro italiano Berlusconi acerca de uma suposta superioridade da civilização ocidental sobre a oriental acendeu o sinal de alerta. Os sinais exteriores de conforto e bem-estar dos países ocidentais repousam sobre montanhas de cadáveres produzidos em escala industrial pela Inquisição, por guerras de todos os tipos e calibres, pela deportação maciça das populações africanas rumo à escravização, pelo holocausto nuclear, pela miséria aviltante de centenas de milhões de excluídos, pela destruição criminosa do meio ambiente. Pode um francês, em sã consciência, olhar com superioridade para um argelino? Pode um norte-americano orgulhar-se frente a um vietnamita? A guerra de civilizações é uma armadilha trágica, que só interessa a supremacistas e fanáticos. O segundo aspecto é a volta da retórica dos tempos da Guerra Fria. Dão arrepios a volta de expressões tais como a "luta do bem contra o mal" e discursos sobre as virtudes do "mundo livre" e sobre o "mal absoluto". São clichês reducionistas, iscas para pescar aliados em expedições armadas. Todos rigorosamente inúteis para se entender o que está acontecendo. O subproduto desta linguagem guerreira é a fórmula monocromática dos generais: solução de crises é igual a mobilização militar. Mesmo desacreditado pelo fracasso de ingleses e espanhóis em controlar os separatistas irlandeses e bascos, o cheiro de pólvora continua seduzindo os maus políticos. Bravatas dão manchetes. O terceiro - e talvez mais corrosivo - aspecto desta nova conjuntura é o engessamento da razão. Terrorismo não nasce nas pradarias, não é obra da natureza, não brota no vácuo. Estratégia política que acaba favorecendo falcões de todas as latitudes, ele cresce em ambientes onde a esperança morreu, onde a miséria reina campeã, onde o Estado abdica de suas funções elementares. Sem secar essas fontes, levas de desesperados continuarão prontos a morrer, sonhando renascer no paraíso. Osama bin Laden pode ser preso, enforcado, esquartejado. Centenas, milhares de seguidores farão fila para se tornarem os próximos mártires. Na solidão arrogante de potência militar incontrastável, os Estados Unidos jogam bombas e sacos de comida sobre o Afeganistão. A administração Bush e seus aliados pensam assim, mordendo e assoprando, iniciar um longo processo de profilaxia do terror, usando uma estratégia de eficácia no mínimo duvidosa. Enquanto riqueza e poder estiverem concentrados em tão poucas mãos, criando enormes bolsões de miséria e privações, as raízes dos atentados permanecerão intactas. Quando se destroem os sonhos, o homem age como qualquer animal acuado. Afinal, sem nada a perder, o que pode parar um suicida? * [topo] |