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CANTO DA ROSA - Boletim ASA nº 73, nov-dez/2001 A pátria por Rosa Goldfarb / Especial para ASA Nos antigos sobrados da rua Senador Euzébio, na praça Onze, para não ter que descer a escada para abrir a porta, amarrava-se uma corda no trinco e num ponto no alto da escada. Era puxar a corda e a porta se abria. No dia em questão, alguém deve ter-se esquecido de fechá-la, pois minha mãe espantou-se ao dar com um rapaz pobre (mais do que nós), magrinho e acanhado, que prometia, em troca de um prato de comida, fazer qualquer serviço doméstico. Ter um empregado, naquela época, era um luxo que minha mãe não podia permitir-se, mesmo que o pagamento fosse pouco. Mas deve ter havido entre eles uma certa empatia, porque minha mãe tratou com o Nequinha ( era assim que se chamava) para, uma vez por mês, encerar aquele mundo de casa, incluindo a escada, que, como o piso, era de madeira. Na ocasião, dois cômodos estavam alugados para o médico doutor Gicovate e um terceiro, que funcionava como escritório eleitoral, para o prefeito doutor Pedro Ernesto. Ambos haviam solicitado a minha mãe que arranjasse alguém para fazer a limpeza das salas. Juntaram-se, assim, as necessidades e Nequinha tornou-se uma pessoa grata lá em casa. O escritório em dois ambientes do doutor Gicovate era muito bonito, tendo na sala de entrada uma estante repleta de livros e uma escrivaninha, também com alguns livros e um porta-lápis (usava-se muito o lápis naquela época). Quando Nequinha entrava para arrumá-la, eu gostava de ajudar. Encantavam-me aqueles livros tão bem encadernados. Só não me lembro de ter visto alguém indo consultar-se lá. Quando o doutor Gicovate aparecia, era para conversar com meu pai. Certa noite, chegou na hora do jantar, sentou-se à mesa e aceitou tomar conosco uma das deliciosas sopas de minha mãe. Como não tínhamos colheres suficientes, minha mãe foi lavar a que estava usando para oferecê-la. Quando voltou, o médico já estava tomando a sopa direto do prato. Numa cumplicidade muda, ambos começaram a rir. Essa imagem ficou congelada na minha memória. O doutor Gicovate era um moço bonito. Tempos depois deste episódio, vieram recolher os seus pertences e nunca mais o vi. Parece que se mudou para São Paulo. Num dia em que eu estava ajudando o Nequinha, minha irmã mais nova, Georgina, que devia ter uns seis anos, entrou esbaforida dizendo que a mãe do Nequinha havia morrido pela pátria. Espantada, expliquei que só se morria "pela pátria" em tempo de guerra, e como não estávamos em guerra, isso não era possível. "Não sei -- respondeu Georgina -- ouvi ele contando pra mamãe." Não tivemos muito tempo para pensar no assunto porque logo ouvimos um rufar de tambores, música marcial, e corremos todos para a sacada. Era uma parada militar dirigida pelo integralista Plínio Salgado e seu exército. Acho que ele pensava que já tinha o poder do país nas mãos. Vestidos de camisa verde e calça branca, eram chamados de "galinhas verdes". Quando entramos, Nequinha estava encolhido. "Esses homens são muito maus. Chamaram meu irmão, deram-lhe essa roupa, mas quando ele não obedecia, apanhava. Então, resolveu devolver a roupa e não quis mais participar. Quase o mataram de tanto bater. Precisou fugir, e até agora não sabemos onde ele está." Passaram-se anos. Um dia, eu já adulta, lembrei-me da mãe do Nequinha. E foi quando me deu um estalo: ela devia ter morrido de parto, e "parto" era uma palavra desconhecida para Georgina, ao contrário de "pátria", muito usada na escola. Demos boas gargalhadas por conta disto. Em frente à praça Onze havia uma gafieira, que suponho fosse a imortalizada na novela "Kananga do Japão". Adolpho Bloch disse que se chamava assim e eu respeito a informação. Certa tarde de domingo, ruas cheias de propaganda eleitoral (devia ser o ano de 1936), nós, crianças, que andávamos em grupo, resolvemos subir e espiar a gafieira, que, funcionando de dia como escritório de campanha, estava toda paramentada com cartazes. Numa das mesas estavam colocados os prospectos para o candidato a presidente Armando Sales, e na outra, para José Américo. A criançada pediu um pouco daquele material e perguntou se podia votar. Sim, podíamos, foi a resposta, desde que, primeiro, mostrássemos o material aos nossos pais. Na minha ingenuidade infantil, informei a meu pai que "o moço disse que eu podia votar" e insisti para que ele votasse no Armando Sales, a quem achara mais bonito. José Américo lembrava-me o personagem Zé Macaco, do Tico-Tico, gibi do qual eu era leitora assídua. Zé Américo, como era chamado e cujas fotos eu conhecia do jornal, era feio e tinha as narinas dilatadas. A analogia entre os dois Zés foi instantânea. Zé Américo e Zé Macaco. Pura imaginação infantil. Nenhuma intenção política. Havia, ainda, o terceiro candidato, Plínio Salgado, a quem a comunidade progressista judaica se referia como der iz a fachist (em ídish, esse é um fascista). Getúlio Vargas, astuto, estava atento à empáfia de Plínio Salgado e deu-lhe corda até o golpe que instalou a ditadura em 1937. Plínio Salgado teve ordens de tirar o seu bloco da rua ou seriam todos presos. Sei que nem a história do Brasil nem aquela época foram tão simples como estou contando. Vai aqui apenas a visão de uma criança de dez anos que fazia perguntas e via o desfile dos acontecimentos ao vivo, de sua sacada. * Rosa Goldfarb é diretora da ASA e colabora com este Boletim.
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