EDITORIAL - Boletim ASA nº 72, set-out/2001

O Israel tá certo

É fato notório que o artigo de Émile Zola "J'accuse!", publicado no jornal L'Aurore, provocou uma virada decisiva no chamado Caso Dreyfus. Entre 1894, quando o capitão Alfred Dreyfus foi injustamente acusado de traição contra o Estado francês, e 1898, ano da carta aberta de Zola, a questão vinha sendo tratada sob um ângulo estritamente jurídico. As denúncias contidas no "J'accuse !" foram reproduzidas em duzentas mil cópias e panfleteadas, reverberando um protesto que, numa reação em cadeia, terminou por cancelar a sentença condenatória de Dreyfus. O verbo fez-se política e a realidade foi transformada.

A palavra ganha potencial transformador quando traduz com fidelidade um sentimento coletivo, quando consegue despertar uma vontade antes apenas intuída. Se, entretanto, por mais justa que seja, ela permanece clandestina, o ciclo não se completa e o gesto aborta.

Esta reflexão vem à tona a propósito dos manifestos sobre a atual crise no Oriente Médio. Com exceção daquele recentemente patrocinado pela FIERJ e pela SAARA, os demais não têm merecido divulgação na chamada mídia judaica. Ao menos três deles - o do grupo Shalom-Salam-Paz, de São Paulo, o produzido em conjunto por intelectuais e políticos israelenses e palestinos, e a chamada Carta das Américas, concebida por um veterano do exército israelense - circulam amplamente pela Internet, com centenas de adesões. Não fogem das questões centrais do conflito, evitam os clichês reducionistas e mostram-se à altura do momento atual, que exige, antes de tudo, pluralismo e uma corajosa circulação de informações. A democracia, nunca é demais lembrar, exige a presença do outro.

Por que, então, aqueles textos não ganham um certificado de cashrut ? Por que, enfim, são jogados num mal-disfarçado index prohibitorum ? A impressão que se tem é de um veto de conteúdo. Abordar pontos sensíveis na relação palestino-israelense - como o desmantelamento das colônias nos territórios ocupados, o estatuto de Jerusalém e o respeito às resoluções da ONU - virou tabu. Infantiliza-se o público, julgado incapaz de pensar com independência. Demonizando-se o outro e instaurando-se uma versão oficial, o gueto imagina estar a salvo das "más influências".

Parafraseando August Bebel (que, ao perceber sentimentos anti-judaicos em parcelas do movimento operário no século 19, classificou o anti-semitismo de "socialismo dos tolos"), diríamos que os judeus que escamoteiam a proliferação de posições dentro das comunidades judaicas praticam o judaísmo dos insensatos.

Certo está o nosso leitor Israel Beloch. Em carta que publicamos nesta edição, ele confessa que não concorda com todas as opiniões que veiculamos, o que não o impede de gostar do Boletim e nos desejar vida longa. É isso mesmo, Israel, pensar dá trabalho, desgasta, mas não tem substituto. 

É com este espírito belochiano que desejamos a todos os nossos leitores um Feliz 5762. Shaná tová - A gut ior.

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