EDITORIAL - Boletim ASA nº 71, jul-ago/2001

Ética num mundo injusto

Basta ver - nenhum deles tem, propriamente, um princípio. Os mais sérios têm alguns tiques morais. (Millôr Fernandes)

Conta-se que, durante a travessia do deserto após a fuga do Egito, os hebreus se insurgiram contra Moisés. A fome, a sede e os sacrifícios diários despertaram a nostalgia do cativeiro e houve pressão para que se empreendesse a volta à terra dos faraós. O desespero fazia com que estivessem dispostos a trocar a liberdade recentemente conquistada por algumas migalhas de comida.

Deus não os castigou. Conforme lembra Moacyr Scliar numa inspirada versão da Hagadá de Pessah, "deu-lhes o manjar do céu, o maná, e as Tábuas da Lei. Nesta ordem: o alimento e depois o mandamento. A nutrição para o corpo, seguida do dever espiritual". Está aí, viva, uma bela lição do judaísmo: não se pode julgar quem passa fome pelos mesmos critérios éticos e morais usados para quem está saciado.

Eis uma base diferente para se olhar os recentes episódios que atingiram o Senado brasileiro, manchado pela mentira e pela fraude. A justa indignação que atravessou o país, reverberada - e estimulada - pela imprensa, ocupou maciçamente a imaginação popular. As cabeças que rolaram produziram uma certa sensação de alívio e saciaram momentaneamente a sede de vingança contra os coronéis de terno e gravata. Esta revolta, entretanto, perde intensidade nos meios de comunicação quando se trata de problemas permanentes, como a fome e a miséria, que continuam flagelando a maior parte dos lares brasileiros.

Os indicadores sociais divulgados pelo IBGE em abril deste ano não dão margem a dúvidas: no Brasil, a renda permanece solidamente concentrada nas mãos (e contas bancárias) de uma pequena minoria; doenças típicas da Idade Média, como a tuberculose, continuam matando dentro do enorme gueto dos miseráveis; quase um em cada três brasileiros é analfabeto funcional (sabe ler sem entender). Pode-se pretender discernimento e esfregar a Constituição/Tábuas da Lei na cara de quem não tem direito a um prato de comida/maná?

Conforme destaca Renato Mayer ( páginas 4 e 5 desta edição de ASA), a diferença crescente entre ricos e pobres é marca do capitalismo contemporâneo. Jacques Derridá, em recente visita ao Rio, declarou ao jornal O Globo que "nunca houve tanta desigualdade e miséria no mundo, tanta desnutrição, tanta exploração em números absolutos na história da Humanidade". Em ambiente socialmente tão poluído, como exigir comportamento "civilizado" de enormes massas de excluídos ? Será possível, em tal cenário, abolir a perspectiva assustadora da guerra de todos contra todos?

É bom, indispensável mesmo, gritar contra a corrupção e a favor do comportamento ético. Melhor seria, porém, ampliar o alvo, incorporando em igual proporção um brado pela construção de uma sociedade mais justa e menos hipócrita. Uma sociedade sensível, por exemplo, às pressões verbais para que se cumpra o que é justo e bom, conforme pregavam os juízes da época talmúdica (ler artigo de Jacob Dolinger, na página 3 desta edição de ASA). 

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Ainda no terreno da ética, uma pergunta que não quer se calar: onde estão os valorosos defensores da civilização ocidental que impuseram sanções contra a Áustria quando o partido de Joerg Haider foi incorporado à coalizão governamental daquele país e agora se calam, cinicamente, frente à aliança com partidos fascistas do primeiro-ministro italiano Berlusconi? Será a política anti-imigração romana mais kosher do que a vienense?  

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