COMUNIDADES - Boletim ASA nº 71, jul-ago/2001

Uma borboleta bate suas asas: o grupo Shalom_Salam_Paz

por Michael Haradom, Sergio Storch e Susana Udler  / Especial para ASA

Combater a ocupação de territórios árabes e promover o diálogo por uma coexistência pacífica entre israelenses e palestinos são objetivos do grupo Shalom-Salam-Paz, formado por judeus de São Paulo após a eclosão da segunda intifada. Em março, o grupo divulgou um Manifesto pela Paz Justa entre Israel e Palestinos, que acabou originando matéria em edição dominical de O Estado de São Paulo. O resultado imediato foi um pedido de reunião feito pelo cônsul de Israel em SP, Medad Medina. O encontro, no dia 5 de abril, teve a participação também do diretor da Federação Israelita do Estado de São Paulo Moisés Mirocznik e do diretor de Direitos Humanos da B'nai Brith, Pedro Paulo Kovesi. Nele, os ativistas do SSP foram acusados de estar prestando um desserviço a Israel. Em sua Carta de Princípios, o grupo SSP afirma que "todo ser humano tem direito à liberdade de expressão, não devendo silenciar sobre os abusos cometidos contra seus semelhantes nem ser obrigado a se alinhar automaticamente a quaisquer políticas de governos em exercício".
Atendendo a um convite de ASA, membros da coordenação informal do Shalom-Salam-Paz expõem abaixo as razões e os objetivos do grupo. Espaço igual foi oferecido ao cônsul Medina e ao presidente da Fisesp, Natan Berger. O senhor Medina não respondeu. O texto do senhor Berger, enviado para ASA via e-mail e dois dias depois amplamente distribuído pela Fisesp, está publicado na íntegra.

A eclosão da intifada de El-Aksa, nos territórios ocupados por Israel, levou à criação, em São Paulo, de  um grupo  que, desde outubro, passou a se reunir periodicamente para debates acalorados, temperados com comida ídish e árabe, onde se construiu o consenso de que a paz no Oriente Médio tem como pressuposto básico a justiça e o respeito à dignidade para israelenses e palestinos.

Constituído, originalmente, de pessoas de origem judaica, este grupo  abriu-se posteriormente à comunidade árabe/palestina e a pessoas de quaisquer origens. Como declarado em sua Carta de Princípios, o SSP é um grupo de pensamento e ação, buscando alcançar seus objetivos

-         através da publicação de suas idéias em cartas e manifestos, para os diferentes segmentos da imprensa e governo;

-         através de atividades culturais conjuntas de judeus e árabes/palestinos, tais como concertos, exposições de arte, corais, danças etc.;

-         através de atividades educacionais, promovendo os “diálogos abertos” nas escolas e universidades, estimulando a participação da juventude estudantil, de forma consciente, na formação sadia de nossa sociedade.

A metáfora usada na Teoria do Caos da Física Moderna, de uma borboleta que bate asas em algum canto do planeta e dias depois provoca um tufão em outro extremo, foi adotada pelo SSP como inspiração para a sua ação, na humildade de esforços tímidos e localizados, mas que podem contribuir para mudanças significativas no processo de paz. O SSP se vê como pequena célula de uma rede mundial de ativistas pela justiça e paz. 

Membros do grupo, estimulados pelos debates internos, têm participado ativamente em discussões pela Internet, em cartas e artigos para jornais e revistas (como a Caros Amigos e Teoria e Debate), e estado presentes em diversos debates, como na Fundação Getúlio Vargas, Macabi, Hebraica, Clube Monte Líbano, Universidade de São Paulo.

Têm participado desse processo, física ou virtualmente, cerca de cem pessoas, entre advogados, artistas, jornalistas, empresários, consultores, educadores, psicólogos, pesquisadores de mercado, editores, religiosos. O grupo já recebeu diversas personalidades, como o embaixador palestino, senhor Musa Amer Odeh, o cônsul de Israel, senhor Medad Medina, diretores da Federação Israelita e B’nai Brith, diretores da Federação Árabe do Brasil, o professor Aziz Ab’Saber, diversos ex-moradores de kibutzim,  representantes da Juventude Palestina e da comunidade árabe. Participam, também, virtualmente, brasileiros que vivem no exterior, em países como Canadá, Estados Unidos e Suécia.

O SSP  tem se articulado com ONGs de direitos humanos e promoção da cidadania no Brasil e no exterior. Membros do SSP estiveram presentes, também, no Forum Social Mundial em Porto Alegre, em janeiro de 2001, onde fizeram contatos com representantes de movimentos israelenses e palestinos que lutam pela paz justa no Oriente Médio.

No começo de maio, dois membros representaram o grupo no Junity (Jewish Unity for a Just Peace), em Chicago, entre 180 membros de dezenas de organizações dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Israel e Brasil, tendo sido o SSP citado e entrevistado em rádio de Washington e no Village Voice de Nova York. O SSP está vinculado, também, ao ENCOUNTER - The forum for activists of Encounter for Middle East Peace e mantém contatos com organizações como o Gush Shalom, Rabbis for Human Rights, Women in Black, Neve Shalom e revista Tikkun (do rabino Michael Lerner)

O principal marco da atividade do SSP foi um manifesto, que passou por mais de vinte versões até chegar a um denominador comum. A publicação desse manifesto na Internet ( www.utopia.com.br/ssp) gerou uma saraivada de críticas e apoios, dentro e fora das comunidades judaica e árabe no Brasil e no exterior. A partir dele, O Estado de São Paulo entrevistou o grupo, tendo publicado uma reportagem de ampla repercussão, juntamente com a reportagem de conferência do jornalista Issa Goraieb no Clube Monte Líbano.

O presidente do Rotary Club de Barueri publicou o manifesto do SSP em seu boletim interno e o divulgou para toda a rede de Rotary Clubs no Brasil (o Rotary foi um dos fundadores da ONU, na qual tem assento permanente).

Em seguida à visita do cônsul de Israel, acompanhado de diretor da Fisesp e da B’nai Brith, o grupo encaminhou Carta Aberta a essas autoridades da comunidade judaica, deixando claras as suas posições e propostas e especialmente o entendimento de que cabe a qualquer judeu, ou qualquer pessoa, o direito de expressar com independência seu pensamento, sem alinhamentos automáticos a qualquer governo em exercício (ponto incorporado à Carta de Princípios  recém concluída).

Uma das características mais fortes do grupo é a pesquisa e difusão de informações e artigos, através da lista de discussão eletrônica sediada pelo Yahoo, com endereço www.yahoogroups.com/groups/Shalom_Salam_Paz, que contém hoje mais de 1500 mensagens, além de excelente coleção de artigos e links. Pessoas interessadas em se engajar podem se identificar e qualificar para solicitar sua inclusão e então participar das discussões e receber ótimos artigos, obtidos na imprensa mundial, sobre as raízes e tendências do conflito.

O SSP decidiu concentrar sua atuação na vertente educacional, através de um modelo próprio, denominado “Diálogos Abertos” e que se diferencia dos debates tradicionais, por evitar uma polarização na audiência, estimulando sua participação na elaboração de contribuições que contemplem os interesses de ambos os lados do conflito.

A última medida tomada pelo SSP foi a de unir-se às Mulheres de Negro (Women in Black), movimento  iniciado em Israel pela Coalizão de Mulheres por uma Paz Justa (Coalition of Women for a Just Peace), que reúne dez organizações femininas de Israel, envolvendo mulheres israelenses e árabes. O SSP convocou uma vigília silenciosa de Mulheres de Negro, em conjunto com mais de cem organizações similares em todo o mundo - em SP foi dia 8 de junho -, em protesto contra a ocupação de territórios palestinos por Israel e em prol da paz justa através do diálogo,  contra a violência de qualquer tipo e solidarizando-se à dor da perda de vidas em ambos os lados.

Para saber mais sobre o SSP, pode-se acessar o site www.utopia.com.br/ssp e para comunicar-se com o grupo, enviar e-mail para ssp@utopia.org.br.

Michael Haradom é empresário e ativista do terceiro setor.
Sergio Storch é consultor de informática.

Susana Udler
é paisagista.

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