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EDITORIAL - Boletim ASA nº 70, maio-jun/2001 Sorry, DanuzaBem que ela teve boa vontade, mas o tiro saiu pela culatra. Na nota "Altos papos", que a colunista Danuza Leão publicou no JB de 25 de março, a intenção principal era divulgar o Seminário sobre o Oriente Médio que a ASA realizaria em dois módulos (ver páginas 6 e 7
desta edição do Boletim ASA). Acontece que, antes de chegar ao ponto principal, ela se referiu a nossa instituição como "hit nos anos 70", afirmando que estávamos lutando para "voltar aos velhos tempos". Com todo o respeito, bola fora, Danuza! Vale a pena dar uma olhada na história recente. Na década de 70 e parte da de 80, todas as atividades culturais estavam severamente reprimidas pela censura ditatorial. O pensamento progressista encontrava enormes dificuldades para se manifestar (a repressão não era apenas verbal: as prisões estavam abarrotadas de todo tipo de gente que fazia oposição aos militares). Além disso, travava-se uma luta encarniçada dentro da rua judaica, envolvendo as opções socialistas, de corte internacionalista, e sionistas, de matriz nacionalista. A ASA foi chamuscada pelas circunstâncias. Ela começou um processo de reconstrução depois do refluxo forçado dos anos 70 e das eleições indiretas no Colégio Eleitoral, que, em 1985, simbolizaram o retorno dos militares à caserna e colocaram no poder "a vanguarda do atraso". O clima de abertura propiciou o reinício, tímido, das atividades regulares, ainda fortemente prejudicadas pela herança sombria dos 21 anos de sufoco, que cortou o processo de formação de lideranças e abafou o interesse pelos temas sociais. Em 1989, foi lançada a primeira edição do Boletim ASA, que se consolidou, ao longo destes quase doze anos, como um dos poucos espaços instigantes dos brasileiros judeus. A partir daí, nunca paramos de convocar cursos, debates, seminários, conferências, eventos artísticos. Sempre com uma estratégia plural, inserida no que há de melhor na tradição do judaísmo progressista e sintonizada com o multiculturalismo brasileiro. Nos últimos dez anos, criamos um Coral, que freqüenta o circuito cultural carioca e está disponível para apresentar-se onde for convidado. Mantemos um grupo de dança israeli. Construímos uma videoteca, centrada em temas judaicos e aberta a consultas públicas. Informatizamos a secretaria e criamos uma página na Internet, que permite o acesso instantâneo a todas as nossas atividades e conta a nossa história. Abrimos canais de comunicação com a sociedade, de que são exemplos as parcerias em estudo com o CEAP (Centro de Articulação das Populações Marginalizadas) e a UERJ. Enfrentamos desafios. Alcançamos vitórias. A mais recente é a decisão de se realizar o censo na comunidade judaica do Rio, o que a voz solitária da ASA vinha defendendo há muitos anos, tanto neste Boletim como em debates. Em vias de se concretizar, o censo terá o patrocínio da FIERJ, a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro). Também amargamos derrotas: a principal está na ainda pequena presença das novas gerações nos eventos, embora este fenômeno esteja longe de ser particular da ASA). Não somos, entretanto, saudosistas. A entidade que estamos construindo respeita suas raízes, mas tem os olhos voltados para o futuro. Para que o processo de construção seja divulgado adequadamente, contamos com o apoio da imprensa, e nesta perspectiva só temos a agradecer a colunistas como Danuza Leão, que cedem espaço para mostrar o que fazemos. É fundamental, porém, que as informações não reproduzam clichês, congelados no tempo. ****** Em tempo: o Seminário sobre o Oriente Médio acabou sendo uma demonstração clara de que há muita gente interessada em ir além de "comunicados oficiais". Os debatedores mostraram visões pouco disponíveis dentro da nossa comunidade, via de regra limitada a padrões maniqueístas quando se trata de Israel, palestinos e países árabes. O público, que lotou a sala de vídeo nos dois módulos, mostrou espírito democrático e soube manter em nível elevado as divergências, inevitáveis neste tipo de evento. * [topo] |