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HISTÓRIA - Boletim ASA nº 70, maio-jun/2001 Confissão de culpa ou continuidade do anti-semitismo?por Adam Drozdowicz / Especial para ASA Sou um homem muito velho e único sobrevivente de uma grande família judia, que, durante pelo menos três gerações, viveu na Polônia até ser totalmente liquidada pelos alemães no Holocausto. Quando, após a guerra, voltei a uma vida aparentemente normal, criando uma nova família, esforcei-me, em vão, para entender o que foi o Holocausto, quais os sentimentos das pessoas que observavam de fora os terríveis acontecimentos, quais os fatos que eu pessoalmente não testemunhei. Li muito, conversei muito com outros sobreviventes, com amigos e também com inimigos, e pensava que nada, além do que já sabia, poderia mais me abalar. Porém ... O historiador judeu polonês Jan Tomasz Gross pesquisou arquivos e documentos da justiça polonesa sobre certos processos judiciais, realizados após a guerra para punir os cidadãos que haviam colaborado com os alemães na matança dos judeus. Há alguns meses, Gross, que atualmente é professor universitário nos Estados Unidos, publicou em polonês parte dos resultados dessa pesquisa no livro intitulado Sasiedzi (pronuncia-se Sonshêdji), que significa "Os vizinhos". Existe na Polônia uma pequena cidade chamada Jedwabne (lê-se Iedvabne). Viviam lá, até o início da guerra, mais ou menos 3 mil habitantes, metade polonesa, metade judia - uma proporção bastante típica, na época, para os shtétlah (em ídish, aldeias) da Polônia. A população era pobre: muitos poloneses eram camponeses, outros, artesãos ou comerciantes. Outros ainda trabalhavam como funcionários da prefeitura ou da polícia. Obviamente, não faltavam o padre, o médico e o farmacêutico. A maioria dos judeus era de pequenos comerciantes e artesãos; existia uma sinagoga e um rabino. As relações entre as duas etnias eram típicas daquele tempo: uma convivência aparentemente neutra, com ocasionais surtos de anti-semitismo explícito. Durante algum tempo na Segunda Guerra Mundial, a cidade foi ocupada pelas forças armadas soviéticas. Nessa época, certo número de judeus conseguiu emprego na administração de Iedvabne e alguns, na milícia, assim como outros residentes da cidade. Isto obviamente provocou o descontentamento dos poloneses. Expulsos os russos em 1941, ocupada a cidade pelos alemães, logo iniciaram-se as perseguições aos judeus. Fim da guerra. O governo polonês está instalado, a administração funciona e, entre outras atividades, tem início a procura e tentativa de punição dos que colaboraram com os alemães na perseguição aos cidadãos poloneses, inclusive aqueles que ajudaram os alemães a torturar e matar os judeus. Entre os vários julgamentos, ocorreu um, em 1949, numa cidade provinciana longe da capital, Varsóvia. Vinte e quatro homens são acusados de ajudar os alemães na matança de 1.200 judeus justamente na cidade de Iedvabne, no dia 10 de julho de 1941. A matança se deu em circunstâncias de extrema crueldade: 1.200 judeus vivos foram atirados dentro de um galpão de madeira pertencente a um certo Bronislaw Szleszinski. Embebida a madeira em querosene, o galpão e todo o seu conteúdo humano foram incinerados. Constatou-se, no dia seguinte, que todos os judeus haviam sido cremados e seus corpos desfigurados foram enterrados pelos poloneses, sob ordem dos alemães, em uma vala comum. Entre os 24 poloneses julgados em 1949, doze foram considerados culpados porque ajudaram os alemães na matança e condenados a penas de 5 a 15 anos de prisão. A pena de morte de um deles nunca foi executada, tendo o condenado desaparecido. O julgamento foi conduzido de uma maneira muito discreta e, na verdade, pouca gente ficou sabendo desse crime hediondo. Contudo, nos anos seguintes, surgiram novos dados. Alguns judeus sobreviventes do massacre reapareceram e testemunharam: no dia que antecipou o inferno, havia ocorrido em Iedvabne um pogrom do tipo "comum". Ou seja, os judeus foram atacados, chicoteados, feridos a pauladas pela ralé local. O padre tentou em vão acalmar a turba. Durante o pogrom, alguns judeus conseguiram escapar e acharam abrigo na casa de Antonina Wyrykowska e de seu marido, Alexander, os únicos poloneses na região a oferecer ajuda e salvar alguns judeus, entre eles Szmul Wasersztein, uma das principais testemunhas do processo. Logicamente, os sobreviventes foram interrogados por várias organizações, judaicas e não judaicas. Os poloneses moradores de Iedvabne que testemunharam o ocorrido e sobreviveram à guerra foram também ouvidos com atenção. Formou-se um novo quadro dos acontecimentos de 10 de julho de 1941 e acumularam-se os indícios de que o crime não foi obra dos alemães: os poloneses de Iedvabne queimaram, no galpão de Szleszinski, os seus vizinhos judeus. O historiador Jan T. Gross leu os autos do processo de 1949, falou com as testemunhas, estudou a história de Iedvabne e de sua população e, finalmente, publicou na Polônia o seu livro. Os Vizinhos também apareceu em inglês, na forma de um resumo de dez páginas, no The New Yorker. Depois dessas publicações, o crime em Iedvabne celebrizou-se no mundo inteiro. Discussões acaloradas vêm ocorrendo, principalmente na Polônia, mas também em diversas publicações na Europa e nos Estados Unidos, embora pouco ou nada se tenha dito a respeito no Brasil. Principal dúvida: teria sido possível que um crime tão hediondo fosse obra não dos alemães, mas dos poloneses? Teria sido possível que os carrascos alemães somente testemunhassem e fotografassem a matança ? À luz dos fatos e das análises mencionadas no livro de Gross, a resposta é positiva. As discussões, contudo, não param. Um monumento erguido em Iedvabne, na praça do massacre, sob a declaração "O lugar do martírio do povo judeu. Aqui, em 10 de julho de 1941, a Gestapo e a gendarmeria de Hitler queimaram 1.200 pessoas vivas", foi retirado após a publicação do livro de Gross. E o primaz da Igreja Católica Romana polonesa, cardeal Jósef Glemp, e o presidente da Polônia, Aleksandr Kwasniewski, pediram publicamente desculpas pelos crimes cometidos em Iedvabne. * Agradeço a Alfredo Frajdenberg a indicação de preciosas informações para este artigo. * [topo]
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