EDITORIAL - Boletim ASA nº 69, mar-abr/2001

Tenda dos milagres

            Em seu depoimento sobre o movimento juvenil Dror, que publicamos nesta edição de ASA (páginas 6 e 7), o jornalista Alberto Dines lembra  um discurso proferido por seu pai, que dizia que “se não tivermos um Estado de Israel diferente dos demais estados, portanto socialista, não vale a pena ter um Estado de Israel”. Os sionistas que se identificavam com o socialismo, a exemplo de Israel Dines, não podiam conceber a nacionalidade judaica pela qual lutavam dentro dos mesmos parâmetros, desequilibrados e excludentes, que caracterizam e identificam o modo de produção capitalista.

            O que estarão sentindo os remanescentes daquela ideologia com a eleição do general Sharon para primeiro-ministro do Estado judeu ? Com um pouco de ironia – e do bom e velho humor judaico – pensarão numa antiga peça de teatro: Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá ... Melhor dizendo: o sonho dos pioneiros socialistas, dos kibutznikim, quem diria, acabou no colo de um militar de direita ...

            Não se trata apenas do desapontamento pela aceitação, por parte do eleitorado israelense, de um militar maculado por um passado de truculência e insubordinação. Como tudo em política, é indispensável olhar para além da superfície fria dos fatos.

            O resultado das eleições trouxe no ventre alguns dos problemas agudos de Israel. Talvez o mais importante, pois ligado à natureza judaica do Estado, seja o da população árabe-israelense. Em atitude inédita, boicotou abertamente o pleito, alegando que não havia diferença entre os candidatos. Reagia, assim, à total displicência com que o ex-primeiro-ministro Barak tratou os graves incidentes que resultaram na morte de treze árabes, cidadãos do Estado de Israel, no mês de outubro passado. O Adalah (Centro Legal pelos Direitos da Minoria Árabe em Israel) elaborou minucioso levantamento, entregue à justiça israelense, provando, com numerosos depoimentos, que a polícia foi brutal na repressão às manifestações de solidariedade aos palestinos em cidades árabes. Houve mesmo denúncias de assassinato a sangue frio. Muitos se perguntam se a negligência seria a mesma se as vítimas fossem judias ...  O que podem esperar estes cidadãos (1 milhão e 200 mil pessoas, 18% da população total) de um Estado que os trata com tal nível de agressividade? Será um militar direitista sensível às suas reivindicações de igualdade de tratamento?

            É preciso, entretanto, não cair na tentação fácil de achar que Sharon vai apenas acompanhar as pegadas sangrentas que deixou no passado. A situação internacional e a reação da sociedade israelense (que, apesar da apatia demonstrada na última eleição, é mobilizada e politizada) serão freios a uma escalada sem controle da belicosidade da direita. Por mais que os partidos religiosos tentem empurrar o governo para aventuras patrioteiras, estas terão limite na reação desesperada dos palestinos e num eventual envolvimento dos países árabes. Haverá uma dura batalha parlamentar e de opinião pública, da qual resultará o projeto do governo Sharon.

            Yoram Bronowski, do Haaretz, comentou que parte do público em Israel parece estar esperando por um milagre. Um milagre de grandes proporções, comparável ao de Hanuká. Qual seria ele ? O de um novo e transformado Ariel Sharon, não aquele conhecido pela sua história, mas aquele que foi desenhado pelos marqueteiros de sua campanha eleitoral. Numa região habituada aos milagres, não dá para ser totalmente racional...

*
*  *

[topo]