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RACISMO - Boletim ASA nº 68, jan/fev-2001 O maculado alvorecer do milênio por Renato Mayer - Especial para ASA É sutil e insidioso como o racismo e a intolerância se instilam nos corações e mentes. Desfiguram a imagem do Outro, retirando-lhe qualidades e atributos que reconhecemos em nós, desenhando um ser inumano, estigmatizado como tal, subgente. Na verdadeira fuzilaria de informações controvertidas sobre o que ora se passa em Israel e nos territórios palestinos, ainda choca ver o judeu ortodoxo, guardião das nossas mais profundas tradições religiosas e supostamente da mais elevada espiritualidade e transcendência, bradar, alto e bom som: "Morte aos árabes !" Choca menos, porém, o tratamento de quinta coluna reclamado e aplicado por muitos israelenses à população de origem árabe do país, habitante daquele território há, quem sabe, dezenas de gerações. Discriminada nos empregos, no acesso à habitação e nos benefícios estendidos aos que cumpriram o serviço militar, são cidadãos sim, mas cidadãos de segunda classe. Dentro de Israel, nos recentes protestos, foram os únicos com vítimas fatais da repressão da polícia de seu próprio país. Os mortos de origem árabe não são nomeados na mídia; são números apenas. Revelam a porta aberta para o apartheid. Daí, até parecer natural que, na Margem Ocidental, a apropriação e distribuição de água - o recurso a ser mais disputado no século 21 - sigam o sistema típico colonial: irriga e esverdeia os assentamentos judeus enquanto falta às circunvizinhas aldeias palestinas. Assim, ganha força e cores reais a imagem cunhada por De Gaulle em 1967 para os judeus: "povo de elite, seguro de si e dominador". Certo, é muito melhor que a do judeu sufocado no shtetl ou massacrado nos campos de concentração das gerações anteriores, mas encobre a atitude de superioridade e o ethos do colonizador. E que, diante do comportamento de não submissão do colonizado, pespega-lhe os epítetos tradicionais: violento, cruel, fanático, irredutivelmente obcecado, a ser mantido sob controle e à distância. Nenhuma perspectiva de tratamento com igualdade. Se não forem desiguais, desprovidos dos mesmos sentimentos que nós, como acreditar que pais palestinos se escondam atrás dos filhos para disparar provocativamente contra as forças de Israel, dotadas de um armamento infinitamente mais poderoso? Como achar que a perda de vidas jovens, no auge de seu potencial, que sobrevém da constante e violenta repressão, não cause a seus familiares sobretudo dor, ansiedade, angústia e frustração pelas esperanças cortadas? Perceber o que nos envergonha já é um grande passo. Em Israel há variadas organizações, bastante minoritárias ainda, que trabalham pelo reconhecimento do Outro: igualdade dos direitos dos cidadãos de origem árabe, fim dos assentamentos em terras palestinas, cooperação e paz em verdadeiras condições de respeito mútuo. Essas organizações são acessíveis pela Internet, têm site, endereço eletrônico e estão abertas a contribuições. A realidade parece, infelizmente, dar razão a eles. Na mesma semana de outubro do início das manifestações palestinas, um fato pouco noticiado pela imprensa abalou a África: um pogrom anti-negro tomou conta das principais cidades da Líbia, resultando em centenas de feridos e, pelo menos, 150 mortos. Há, nesse país, perto de um milhão de trabalhadores imigrantes de outros países da África, quase 20% da população. Milhares destes, de cor negra, foram detidos em massa, outros tantos caçados e espancados, os bairros periféricos em que vivem, atacados, corpos atirados às ruas. Grande número procurou refúgio em suas embaixadas. Ainda assim, um diplomata do Chade foi linchado e a embaixada do Níger, incendiada. Líbios que abrigavam negros foram ameaçados. O que teria levado as massas, sobretudo de jovens, a tamanha manifestação de racismo exacerbado parece residir num complexo de razões, do qual faz certamente parte a tradição de tráfico de escravos negros, vigente até o início dos anos 30, quando se consolidou o domínio italiano no país. Além disso, há uma insatisfação social muito grande, que decorre do fato de que os enormes benefícios do petróleo líbio não são repartidos pelo conjunto da população. Os imigrantes africanos trouxeram outros hábitos, como os das igrejas cristãs, e, segundo se diz, também as drogas, a prostituição e o crime. O boato de estupro de uma menina líbia por um nigeriano teria sido a centelha para os ataques. Enquanto imigrantes negros mutilados, feridos e humilhados, sem qualquer assistência médica, aguardavam, como deportados, um retorno acelerado para casa em acampamentos improvisados em torno do aeroporto da capital e outros eram expulsos, em caminhões, para a fronteira, Muamar Kadafi, o presidente, manifestava sua intenção de criar e financiar os Estados Unidos da África, reunindo a Líbia às nações negras do continente. A promessa de ajuda conteve os protestos dos seus líderes, com a expressiva exceção de Jerry Rawlings, presidente de Gana. Este chegou no dia 7 a Trípoli e, em um gesto além do simbólico, embarcou no avião 250 trabalhadores do seu país, uma fração dos que migraram para a Líbia. No limiar de um novo século, coincidentemente de um novo milênio, o racismo e a intolerância são ainda sombras muito presentes no dia-a-dia da humanidade, a despeito de proclamações pela paz ou pela unidade. Cabe a todos os progressistas estar cotidianamente alertas para a sua denúncia e combate, pois são como armadilhas armadas bem ao nosso redor. Renato Mayer, economista, é colaborador de ASA. * |