ASCENSÃO E QUEDA - Boletim ASA nº 68, jan/fev-2001

A chegada dos judeus à classe média

por Keila Grinberg - Especial para ASA

Entre os muitos temas discutidos na mídia acerca da celebração dos 500 anos de história no Brasil está o da diversidade étnica da população brasileira, que, evidentemente, abarca os judeus e as diferentes ondas de imigração judaica para o Brasil. Só neste fim de ano, em um curto intervalo de tempo, foi lançado o livro de Moacyr Scliar e Marcio de Souza e inaugurada a exposição "A comunidade judaica no Rio de Janeiro do século 20 / Coleção Samuel Malamud", que marca a oportuníssima organização e abertura à consulta pública da coleção de fotos, documentos e objetos de um dos mais importantes ativistas da comunidade judaica carioca. 

A maioria das abordagens sobre a comunidade judaica no Brasil, no entanto, centraliza suas preocupações nas ondas de imigrantes que aqui chegaram, com poucas reflexões sobre as gerações posteriores. Uma exceção é o estudo de Henrique Rattner sobre o assunto . As linhas que se seguem não constituem nenhuma reflexão original, mas pretendem chamar a atenção para este aspecto menos estudado da história dos judeus no Brasil.

Tomando como referência a principal onda de imigração de judeus para o Brasil, ocorrida nos anos 1920 e 1930 e composta basicamente de judeus da Europa Oriental e da Alemanha, a segunda geração de judeus brasileiros cresceu nas décadas de 1940 e 1950, chegando à fase adulta em fins desta última. É deste mesmo período o estudo da UNESCO feito por Arthur Neiva e Manuel Diegues Júnior intitulado "The Cultural Assimilation of Immigrants in Brazil". Nele, ao contrário de vários outros grupos de imigrantes e seus descendentes, os judeus e os hindus eram considerados inassimiláveis por diversas razões, entre elas a dupla lealdade para com as nações Índia e Israel. 

O curioso é que este estudo foi feito justamente no momento em que os judeus encontravam no Brasil oportunidades de mobilidade social, política e econômica; ou seja, possibilidades de integração, ou assimilação, à moda do jargão da época. É a partir de meados da década de 1950 que se pode dizer que a comunidade judaica, localizada principalmente nas grandes cidades brasileiras, passou a constituir um grupo composto majoritariamente por pessoas de classe média. 

Afinal, este período coincidiu com a expansão industrial e o crescimento urbano brasileiros, quando vários judeus, trazendo na bagagem familiar diversas experiências de trabalho urbano, tiveram a oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios - em alguns casos, transformando-os em grandes. Não é à toa que data de fins da década de 1950 o movimento de mudança de judeus de antigos bairros tradicionais como o Bom Retiro, em São Paulo, e o Bonfim, em Porto Alegre, para áreas consideradas mais valorizadas e mais identificadas com uma cultura de classe média. No Rio, este período marca o fim da praça Onze como local de encontro da comunidade judaica carioca - no que foi ajudado pelas reformas urbanas do período, responsáveis, por exemplo, pela abertura da avenida Presidente Vargas - e inaugura o início da mudança de subúrbios e bairros da zona norte, como Andaraí e Tijuca, para a zona sul, principalmente para Copacabana, a Barra da Tijuca de então. 

Há que se lembrar que este movimento não foi particular à trajetória dos judeus, mas a todos os grupos de imigrantes que, como estes, já tinham uma história prévia de convivência com a sociedade urbano-industrial em seus países de origem. Isto justifica as teses que advogam que, naquele momento, este tipo de comportamento econômico teria sido a única forma de conseguir mobilidade social em uma sociedade como a brasileira, ainda predominantemente agrária e marcada por relações sociais e de trabalho tradicionais, na qual, não custa lembrar, até pouco tempo atrás boa parte de seus membros convivia com o regime de trabalho escravo. 

Neste contexto, é compreensível a preferência da chamada segunda geração de judeus pelo exercício de profissões liberais, em um momento de grande demanda social por engenheiros, advogados, arquitetos etc., e a importância conferida à formação educacional. Neste momento, a educação e a formação profissional universitária eram tidos como fatores fundamentais para a manutenção do padrão econômico alcançado pela geração anterior através do comércio. Os dados da pesquisa citada no livro de Rattner mostram que, nos anos de 1968 e 1969, 100% dos judeus de São Paulo em idade escolar freqüentavam o curso de segundo grau; 78,6% de homens e 52% de mulheres nas idades correspondentes cursavam ou haviam concluído curso superior, perfazendo um total de 16% de judeus com formação universitária. Dez anos depois, enquanto 1,4% dos habitantes de São Paulo tinham curso superior, um a cada cinco judeus havia freqüentado os bancos universitários.

Dados como este, somados à ausência de práticas discriminatórias ou movimentos anti-semitas explícitos, desmistificam totalmente a idéia que já se sabia ser errônea: a de que os judeus seriam incapazes de se integrar na sociedade brasileira. Ao contrário: a situação das comunidades judaicas do Brasil nas décadas de 1950, 1960 e 1970 demonstra que as características religiosas, culturais ou étnicas do grupo não constituíram obstáculo para a completa integração. 

A pergunta que se coloca, a partir daí, é em que medida esta trajetória influenciou os valores que compunham a identidade judaica dos imigrantes e seus descendentes. Sem querer estabelecer uma relação necessária entre a mobilidade social, a estabilidade econômica e as opções políticas e ideológicas, é interessante observar a reorientação das escolhas políticas da comunidade judaica brasileira. Novamente, este fenômeno não é exclusivo dos judeus; mas isto não torna menos importante observar que, no caso destes, esta atitude levou ao quase abandono da tradição liberal e igualitária que marcou parte substancial da vida judaica na Europa Oriental do início do século 20. Um estudo das atitudes judaicas durante a ditadura militar iniciada em 1964 - tema pouco explorado, sem o glamour das histórias da imigração - seria uma ótima forma de aprofundar esta questão. 

Keila Grinberg é Doutora em História e Coordenadora de História do Centro de História e Cultura Judaica (CHCJ). 

 

N. do Boletim - A exposição, no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, na Cidade Nova, ficará aberta ao público até 31 de janeiro, de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas.

 

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