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EDITORIAL - Boletim ASA nº 68, jan/fev-2001 Caçando bruxas virtuais "A desgraça do pau verde/É ter o pau seco ao lado:/Vem o fogo, queima o seco,/Lá vai o verde queimado" (Provérbio poético brasileiro) A gritaria foi grande. Quando conseguiu impedir o trabalho de menores na novela Laços de família e proibir sua exibição antes das 21 horas, o juiz da 1a Vara da Infância e da Juventude, Siro Darlan, recebeu uma saraivada de críticas pesadas. A poderosa Rede Globo, uma das maiores redes mundiais de televisão e "referência única para 2/3 de consumidores de informação em todo o país" (segundo Alberto Dines), mobilizou seus funcionários para se defender daquilo que, presumidamente, era um retorno da censura. O presidente da República recebeu artistas globais, um intelectual (o mesmo que justificou o ex-ministro Rubens Ricúpero no escândalo da parabólica, lembram?), empregado da Rede, rosnou contra a suposta ameaça censória, as publicações do empresário Roberto Marinho destilaram uma campanha contra o que identificavam como surto de arbítrio. O curioso é que toda essa artilharia estava voltada para um objetivo imaginário. Como bem salientou o jornalista Luiz Antônio Magalhães, "não há a mais remota possibilidade de ter ocorrido censura à Rede Globo". O juiz Darlan agiu dentro dos canais legais, respaldando-se na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, e a empresa teve todo o espaço necessário para se defender. Censura de verdade aconteceu durante o regime militar (1964/85), sob o qual nasceu e cresceu a emissora do plim-plim e para o qual ela demonstrou boa dose de simpatia (inclusive na programação, como foi o caso do Amaral Netto, o repórter, em que o falecido deputado divulgava imagens pagas, no melhor estilo Jean Manzon). Os cortes e as proibições aconteciam sem que os atingidos pudessem saber os critérios utilizados e muito menos questionar o trabalho dos censores. Nada disso acontece agora, quando impera a normalidade jurídica, e a truculência se manifesta mais sutilmente (através, por exemplo, da censura econômica). A cruzada contra a tesoura fantasma tem, contudo, um mérito. Retoma dois temas que permanecem atuais e que são abordados nessa edição de ASA. O primeiro, focalizado na matéria da página 10, mexe com o papel dos intelectuais na sociedade. Ao serem seduzidos pelo poder econômico ou pela proximidade com o poder político, eles abrem mão da missão de serem a consciência crítica da realidade e transformam a Razão em instrumento de opressão. O segundo, mostra a discutível eficiência da censura na formação de cidadãos "sadios". Partindo do caso Wagner (páginas 3 a 5), compositor alemão vetado em Israel por mais de 50 anos, ASA propõe a seus leitores uma reflexão sobre a liberdade de expressão artística e sobre a ligação da arte com o pensamento de seu criador. **************** Um pinheiro de Natal acabou levando um pouco mais de água ao moinho do fascismo europeu. Doando a árvore ao Vaticano, o líder ultra-direitista austríaco Jöerg Haider ganhou o direito protocolar de ser recebido em audiência pelo papa João Paulo II e, mais do que isso, alguns momentos de publicidade. Pelo gesto, a Igreja católica acabou sendo duramente criticada em manifestações populares. Um mau negócio para ela justamente quando procura desculpar-se por passagens negras na História (como, por exemplo, a responsabilidade direta pela matança de judeus na época da Inquisição). A deferência ao fascista Haider faz lembrar o triste papel desempenhado nos anos 30 pelo clero católico nas ditaduras de Salazar e Franco, consolidados no poder com a cumplicidade ativa de membros da hierarquia da Igreja. ***************** Boa leitura e feliz milênio novo ! * |