EDITORIAL - Boletim ASA nº 67, nov/dez-2000

Vade retro!

"Em terra de cego, quem tem um olho exige os dois" (Millôr Fernandes, o guru do Méier)

Às vezes parece que o século 21 vai nascer com a cara da Idade Média. A impressão fica mais forte quando se toma conhecimento do teor da Lei 3.459/2000, que institui a educação religiosa confessional nas escolas públicas do Estado do Rio. Nela se estabelece, entre outras cláusulas alarmantes, que serão as autoridades religiosas que definirão os currículos daquelas matérias e terão poder de veto sobre a contratação do corpo docente. O dinheiro público, resultado da arrecadação de impostos de toda a população, financiará este desastre pedagógico, "um míssil teológico", na imagem do pastor presbiteriano Nehemias Marien.

Além de ferir a legislação federal que rege a educação , o que já foi denunciado pelo deputado Carlos Minc (PT/RJ), a Lei 3.459/2000 esconde claras ameaças a direitos elementares dos cidadãos (ler artigo de Gisele Gica Nigri na página ao lado). Seria muita ingenuidade acreditar, por exemplo, que um estudante ateu não seria discriminado por seus colegas caso desse vazão à sua convicção e decidisse não se inscrever na disciplina religiosa. As maiorias costumam, nesses casos, ser implacáveis. Só algum interesse nebuloso pode explicar a expectativa de que o sistema público de ensino, acossado por carências de todos os tipos e empurrado para a privatização, terá condições de contratar professores para todas as crenças e, mais ainda, que estes tivessem uma postura respeitosa frente ao variado mercado da fé. Este é o território da carochinha, não da realidade.

O nefasto renascimento da influência religiosa institucional sobre a esfera pública não é gratuito. Ele se dá num clima de disputa pelo poder de influência sobre as massas, cada corrente manobrando suas peças e lutando para conquistar espaço. Levantamento realizado pela Folha de São Paulo mostrou que os canais abertos de televisão transmitem, no Brasil, 18 programas religiosos. São mais de 82 horas semanais de missas, cultos, pregações e exorcismos. Uma avalanche de persuasão produzida pelos templos eletrônicos ! 

Quando o cardeal Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (o ex-Santo Ofício, de dolorosa memória para os judeus), publicou, em setembro, a Declaração Dominus Iesus, sabia em que terreno pisava. Nela, rompendo as tentativas de diálogo ecumênico com outras crenças, a Igreja Católica reafirma sua absoluta hegemonia sobre a verdade, nada tendo a aprender com as demais religiões. Não é preciso muito poder de abstração para se perceber a intenção política deste discurso, impregnado de catequese absolutista. 

Não é possível assistir ao "tiroteio em nome da fé" de braços cruzados. Trazer para dentro das escolas públicas a queda-de-braço dos sacerdotes - e, não nos iludamos, é disso que se trata - é submeter a juventude ao risco das balas perdidas disparadas pela artilharia confessional. Já não basta a escandalosa transformação dos palanques eleitorais em locais de pregação religiosa (fenômeno tão freqüente, por exemplo, na Baixada Fluminense) ? 

Que a cidadania acumule forças para reagir, e com urgência, contra este retrocesso.

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Os últimos acontecimentos no Oriente Médio apresentam difíceis desafios para os setores laicos, democráticos e progressistas. O clima de exaltação de antagonismos, insuflado pela direita israelense e pelos grupos rejeicionistas árabes (palestinos entre eles), torna extraordinariamente complexa a tarefa de aproximação dos povos da região. No rastro do conflito, os atentados anti-semitas espalhados por vários países chancelam o pacto da morte.

Mais do que nunca é fundamental apoiar os segmentos sociais organizados que apostam na possibilidade do entendimento e na eliminação gradual dos preconceitos. É difícil ? Sem dúvida, mas a alternativa a isso é conhecida: dor, ódio, discriminação étnica, opressão nacional, sangue derramado. 

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