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ARTIGO - Boletim ASA nº 67, nov/dez-2000 Cuba - por Renato Mayer / Especial para
ASA O diálogo se trava durante o shachrit do shabat na moderna sinagoga Beit Shalom, da Comunidad Hebrea de Cuba, no bairro do Vedado, em Havana, a maior de toda a ilha, conservadora. O ar condicionado funciona plenamente na abafada manhã de verão, facilitando o acompanhamento do ritual e a elevação espiritual. O prédio é amplo, totalmente reformado graças a doações de judeus dos Estados Unidos e reinaugurado em maio deste ano. Na vizinhança tranqüila, destaca-se da elegância decadente dos demais imóveis. Nada, porém, que desperte maus sentimentos: não se registra anti-semitismo em Cuba. Oficia o ato um rapaz de camisa florida, que faz as vezes de rabino e chazan, acompanhado de duas jovens norte-americanas. Alterna por momentos com o doutor Jose Miller, presidente da Comunidad Hebrea. Os muitos livros de reza disponíveis são edições do México ou da Argentina. Estão presentes umas quarenta e tantas pessoas, em sua maioria mulheres e crianças. São poucos os homens jovens. Há hoje cerca de 1300 judeus em todo o país, distribuídos por três sinagogas em Havana, uma em Camaguey e outra em Santiago de Cuba. Eram originalmente 15 mil; cerca de 13 mil e 500 se foram com a Revolução e, recentemente, mais 150 a 200 migraram para Israel. O ambiente, porém, é de fé renovada: desde o início dos anos 90, com o apoio do Joint, retomaram-se os vínculos comunitários, os serviços religiosos, atividades como as machanot. No prédio da Comunidad funciona uma escola de hebraico, uma biblioteca e uma farmácia comunitária, dirigida por uma médica, que faz a distribuição de remédios oriundos de doações - a maior parte de organizações judaicas norte-americanas. A farmácia cumpre um importante papel, neste momento de dificuldades por que passa a economia cubana, no atendimento complementar a certas lacunas do sistema público de saúde, o qual elegeu a prevenção e o tratamento intensivo como prioridades. Nas paredes do salão que antecede a sinagoga, fotos da evolução das obras reforçam o sentimento de esperança e vitalidade. Resistência é uma palavra a que todos os cubanos se acostumaram. Como que para enfatizá-la, há alguns outros retratos que registram a visita do comandante Fidel Castro à sede da Comunidad em Chanuká de 1999. Terminado o serviço, todos dirigem-se ao subsolo. Um almoço comunitário, aguardado com certa expectativa, é então servido. A carne, de frango ou de boi, é kasher, já que a comunidade tem esse direito reconhecido junto às autoridades de abate. O clima é o mais amistoso, alguém fala que tem um parente no Brasil, outro menciona El rey del ganado, a novela da Globo que, três noites por semana, prende os cubanos diante da televisão. Um delicioso sorvete, presença comum no verão cubano, é a peça de encerramento. Esquina da calle Acosta com Picota, Habana Vieja. Referências na rua apontam a sinagoga ortodoxa Adath Israel; o senhor Julio, o shames, nos convida a entrar. Como aquela do Vedado, está passando por grandes obras, que já a tornam diferente dos prédios ao redor. Cuba tem uma escassez muito grande de materiais de construção. Assim, a manutenção dos imóveis é precária, o que se agrava terrivelmente nas áreas mais antigas. Em Habana Vieja, Patrimônio da Humanidade segundo a Unesco, apenas uma pequena fração dos edifícios foi restaurada até agora. No subsolo, onde se realizam atualmente os serviços, uma divisória separa os homens das mulheres. O senhor Júlio, que pertenceu à marinha mercante e esteve no Brasil. dá as respostas possíveis a um não-judeu: sustentam a sinagoga umas 120 famílias, há minian regularmente pela manhã e à tarde. Casamentos, faz tempo que ali não se realizam. Quando das grandes festas, vem um rabino de Londres. Num dado momento, interrompe nossa emocionada contemplação daquela referência física da perseverança do judaísmo, pede licença: precisa supervisionar as obras na parte superior e principal da sinagoga. É domingo, mas há homens trabalhando ali. Informaram-nos estar fechada a terceira sinagoga de Havana, a Chevet Achim, fundada também em Habana Vieja pelos sefaraditas em 1914. Isso não nos impediu de perceber que os judeus cubanos estão absolutamente integrados na vida do país, em suas dificuldades, esperanças e alegrias. Imaginamos que seria possível um intercâmbio mais frutífero com os irmãos d'além-mar, em campos em que tanto Cuba como Israel têm tantas vantagens competitivas, como o turismo, a indústria farmacêutica e a cultura de cítricos. A resposta é não, tal possibilidade não existe a curto prazo. As relações diplomáticas entre os dois países foram cortadas em setembro de 1973, às vésperas da Guerra do Iom Kipur. Israel é o único aliado a votar sistematicamente com os Estados Unidos em todas as decisões das Nações Unidas nas quais a maioria avassaladora dos países condena o criminoso bloqueio interposto contra Cuba desde o início dos anos 60. A rejeição do bloqueio, que responde unicamente ao propósito político de sufocar o exemplo de soberania e independência política de Cuba, é uma questão de princípio para qualquer reaproximação. O bloqueio é onipresente na vida da ilha. Tudo se torna mais custoso e mais difícil. Além da total ausência de transações comerciais com os Estados Unidos, o forte poder destes nos organismos internacionais de financiamento bloqueia o acesso de Cuba ao crédito, elevando os custos e os juros dos empréstimos que consegue obter. Nenhum navio que tenha aportado em Cuba pode entrar em porto norte-americano, o que faz o frete e o preço das importações muito mais caros que para qualquer outro país. A B'nai B'rith nos Estados Unidos desenvolve um elogiável trabalho de auxílio, tanto à comunidade judaica como à não-judaica em Cuba. Recentemente, doou 9 mil livros de atualização médica para serem repartidos pelas faculdades cubanas (há uma para cada província do país, catorze ao todo), no valor estimado de 400 mil dólares. Para chegarem ao seu destino, os livros foram remetidos para Antuérpia, na Bélgica, e viajaram duas vezes o Atlântico. Contudo, Cuba resiste. E se renova. Em 1994, com a debacle dos países socialistas europeus, que davam sustento à sua economia, o Produto Interno Bruto havia retrocedido 35% em relação ao que era em 1989. Quer dizer, é como se 1/3 do país houvesse sido reduzido a pó. Implantou-se o "período especial da economia", de tremendos sacrifícios para a população e do qual as pessoas se lembram pelos cortes generalizados de energia de até 18 horas por dia, pela diminuição dos transportes públicos e pela redução da dieta alimentar. Enquanto isso, o país se debruçava sobre o dilema: render-se à força do capitalismo e abrir mão de um desenvolvimento soberano, como fizeram, em geral, os países latino-americanos, ou manter as bases socialistas do sistema, com o Estado dirigindo uma abertura controlada para um redirecionamento e diversificação da economia? De um lado, o brutal retrocesso nas condições de vida da população, experimentadas pelos países do ex-bloco socialista; de outro, o risco de um caminho próprio, solitário como a estrela em sua bandeira, mas contando com o esforço comum de sua população e com a ampliação de suas relações com países e empresas do mundo inteiro, exceto dos Estados Unidos. Cuba optou por privilegiar o setor turístico e modificar sua legislação, facilitando e estimulando a criação de associações com investidores estrangeiros em todos os setores da economia, exceto educação, saúde pública e forças armadas. O turismo, hoje a maior fonte de divisas do país, e que supera as exportações de açúcar, alavancou a proliferação de hotéis, restaurantes, serviços de transporte, grupos musicais, artesanato, oxigenando de forma visível grande parte da vida nacional. Esperam-se para este ano 2 milhões de visitantes à ilha, segundo maior destino turístico no Caribe, ficando atrás apenas da República Dominicana. Quanto aos investimentos estrangeiros, beira 400 o número de empresas já constituídas em associação com o Estado, com capitais oriundos de mais de 40 países, inclusive do Brasil. A guerra não está ganha ainda, mas os cubanos acostumaram-se a valorizar suas conquistas e a aceitar os desafios. A atividade econômica hoje é quase 85% do que era em 1989; os apagones se foram, há esperança e alegria. Há sobretudo a consciência de que, por mais sós que estejam, a solidariedade, inclusive internacional, deve prevalecer sobre a lei da selva que vem no verso de todos os pacotes de políticas aplicadas de forma genérica em nosso triste continente, com os variados nomes de ajuste ao mercado, neo-liberalismo, desregulamentação, estabilização financeira e por aí vai. A isto, Cuba prefere prosseguir fiel à sua história, como exemplo de que o socialismo é viável. Renato Mayer, economista, é colaborador de ASA. * |