CRÔNICA - Boletim ASA nº 66, set/out-2000

As penosas do Engenho Novo

por Moysés Limoncic / Especial para ASA

            Às vezes me custa crer, mas já fui criança tal qual você e tal qual você tenho lembranças da meninice, algumas delas antológicas (ao menos para mim).               Sou da década de 30, quando boa parte de nossos pais eram imigrantes e moradores dos shtetlach de Madureira, Praça Onze, Méier e outros subúrbios cariocas. Sonhadores, esses imigrantes lutavam para, usando uma linguagem de hoje, tornar-se emergentes. Alguns até já mereciam o título, outros, porém, antecipadamente se comportavam como tais, criando cenas folclóricas.

            Eu morava numa vila com dez casas no Engenho Novo e, sem surpresas por favor, cinco eram de patrícios. À época, éramos todos mais tesos do que hoje e comer galinha era um luxo permitido, quando muito, duas vezes por semana.  Não porque fossem duas galinhas, era uma apenas , uma metade comida na sexta à noite e a outra, no sábado. Afinal, a galinha era pro shabat! Pois bem: na última casa da vila morava uma família de pré-pré-emergentes cuja matriarca - seu nome por discrição vou omitir (pode ser a mãe, avó ou bisavó de algum leitor) - a cada sexta-feira repetia a mesma cena com mais vigor e desembaraço, por força da repetição.

            O fato: após comprar sua vítima ainda com vida, segundo dizia com o objetivo de matá-la de acordo com os preceitos dietéticos judaicos, a tal matriarca aproximava-se da entrada da vila, a cabeça aparentemente nas nuvens  e a galinha embaixo do braço, quando, por estudado descuido, a ave se desvencilhava e corria em disparada portão adentro. Atenção para o detalhe: nenhuma galinha jamais fugiu no sentido contrário, ganhando a rua. Em suma, ela praticamente atirava o bicho para dentro e fechava o portão rapidamente. A partir daí começava a algazarra. Seus berros de “pega a galinha!, pega a galinha!” chamavam a atenção de todos, e como num passe de mágica a meninada estava correndo atrás da dita cuja, a começar por mim.

            Naquele dia, tínhamos certeza, na última casa haveria um belo ensopado, o que nem sempre acontecia na nossa.

            Ao lado do Danoninho, de viagens à Grécia e de dentaduras, a galinha hoje é uma prova do sucesso de planos econômicos mais ou menos mirabolantes, mas naquela época  e naquela vila ela tinha a mesma função que um carro de luxo tem hoje: mostrar distinção social.

            Perdi a matriarca e a família de vista e não sei se eles têm um carro importado ou não, mas cá do meu canto, neste novo grande shtetl que é Copacabana, sinto um enorme prazer em comer uma coxa de galinha bem carnuda, e não para mostrar distinção, mas porque sei o que é correr atrás de duas coxas e ir para casa sem nenhuma.

O sonho de Moysés Limoncic sempre foi ter um aviário, mas acabou trabalhando toda a sua vida no ramo de estruturas metálicas.

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