COMUNIDADE - Boletim ASA nº 66, set/out-2000

O fantasma da assimilação

por Bernardo Sorj / Especial para ASA

        O conhecimento e a prática do judaísmo de  Theodor Herzl era, como sabemos, quase inexistente. Porém,  sem ele,  provavelmente não haveria o Estado de Israel.  Na mesma situação encontravam-se  Albert Einstein, Sigmund Freud e praticamente todos os judeus do século 20 dos quais, hoje,  tanto nos orgulhamos.  Do ponto de vista do judaísmo ortodoxo  a quase totalidade dos líderes sionistas eram judeus assimilados  (Jabotinsky pediu para ser cremado!), assim como o autor desta nota e a maioria de seus leitores.

O judaísmo  sobreviveu, desde os tempos bíblicos até hoje, por sua capacidade de assimilar as mais diversas culturas. Como mostra Martin Buber em Moisés, o judeu é um povo  nômade,  isto é, um povo que viaja entre as culturas,  que não tem medo de interagir e que descobriu  milhares de anos atrás o que hoje, graças aos processos de globalização,  stá sendo reconhecido como a condição de convivência da humanidade:  que  todas as identidades são  híbridas, que nenhuma cultura é pura,  que as raízes entrelaçadas  de todos os povos se nutrem da mesma herança comum.

Mas, então, por que falar de assimilação?.  Quem pode definir quem é um judeu assimilado?  O judaísmo é, na verdade, diverso e pluralista.  Pode-se  ser judeu religioso ou ateu; se religioso - conservador, reformista ou ortodoxo; se ortodoxo -  chassídico e não chassídico; se chassídico, pode-se escolher entre as diversas seitas – que mal se falam entre si -,  ou, ainda, ser sionista ou não sionista; se sionista, religioso ou não religioso, de direita ou de esquerda,  e assim por diante.

Então por que falar de assimilação?  O único momento da História judaica em que o conceito de assimilação, no sentido estrito de uma atitude consciente de  negar  e abandonar o judaísmo, pode ser aplicado,  ocorreu na Europa Central, particularmente na Alemanha,  no século 19 e nas primeiras décadas do século 20, quando a conversão ao cristianismo era  uma estratégia de ascensão social num contexto em que estavam vedadas aos judeus - legalmente  ou de fato -  posições na esfera pública.   Mas, hoje, esta situação não existe em praticamente nenhum   lugar do mundo e, portanto, este problema não se coloca.

Os judeus do século  20 usaram e abusaram do conceito de assimilação, basicamente como uma estratégia para desqualificar e demonizar outras tendências  das quais discordavam. Assim, eram definidos como assimilados os judeus não religiosos pelos religiosos, os conservadores e reformistas pelos ortodoxos, ou os não sionistas pelos  sionistas, para dar alguns exemplos.  Hoje, a perspectiva histórica nos ensina que todos estavam errados, no sentido de que nenhuma forma de judaísmo esgota todas as suas possibilidades, e que cada inovação - como, por exemplo, foi na sua época o sionismo - representa uma contribuição   que  fortalece o judaísmo.

Nos tempos atuais o fantasma da assimilação ainda é utilizado  pelas lideranças comunitárias  para assustar a  si mesmas e aos membros da coletividade,  funcionando como mecanismo  de mobilização de medos e recursos.    É uma estratégia, mas uma pobre estratégia, pois distante da experiência das novas gerações e de tudo que a História judaica ensina.   A sobrevivência do judaísmo no Brasil depende de sua capacidade de ser cada vez mais “assimilado”,  de integrar a escola de samba no Purim,   de mostrar as inter-relações entre a História do Brasil e os judeus,  de  fazer tzedacá  junto às populações carentes, de absorver os casamentos mistos reconhecendo neles um caminho  de enriquecimento da comunidade e do judaísmo.

Para entender a realidade social precisamos  de conceitos que nos permitam localizar onde estamos e para onde vamos, que nos permitam medir o mundo. A assimilação é um destes conceitos. Mas é um falso conceito e uma má medida.  Dá a ilusão de que nos distanciamos de um mundo ideal ao qual devemos retornar, retirando  o principal instrumento que  pode assegurar a reprodução de uma comunidade:   a sua  renovação através da participação e   absorção criativa da cultura local.  A questão, portanto, não é quão assimilados são os judeus do Brasil, já que ninguém está em posição de ser juiz  de seu próximo, mas qual é  a riqueza do judaísmo brasileiro, quanto conseguiu produzir e inovar para transformar-se em referência criativa para cada um de nós.

Bernardo Sorj é professor titular de Sociologia na UFRJ.

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