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EDITORIAL - Boletim ASA nº 66, set/out-2000 O que nos ameaça? William Maxwell foi um importante editor nova-iorquino, tendo trabalhado com escritores como J. D. Salinger. Morreu recentemente, oito dias após a morte de sua esposa Emily, com quem esteve casado por 55 anos. Carlos Drummond de Andrade morreu em 1987, doze dias depois de Maria Julieta, sua filha e confidente. O grande poeta, sufocado pela perda de uma pessoa com quem estabelecera uma calorosa troca afetiva, teria pedido a seu médico que lhe prescrevesse um enfarte fulminante. A natureza, obediente, concedeu-lhe o descanso desejado. Freqüente no terreno pessoal, o encadeamento de crises também aparece no campo institucional. Quando as atividades da base perdem vitalidade, a representação do topo é mortalmente atingida. É o que parece estar acontecendo, por exemplo, com a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro. As eleições para os cargos executivo e deliberativos têm sido caracterizadas por visível desinteresse e baixo nível de participação. A juventude está em grande parte desligada destes processos, se mobilizando essencialmente em torno de festas, passeios e eventos sociais. A inexistência de uma ameaça externa vigorosa parece estimular a preguiça e a dispersão. O anti-semitismo em nosso país se restringe, felizmente, a casos isolados, eficientemente reprimidos pela legislação em vigor e sem repercussão na liberdade de expressão e na integridade física da comunidade judaica. Episódios como o fechamento da loja Nazistas da Baixada, em Nova Iguaçu, têm origem na ignorância e não em movimentos organizados. São abortados pela ação policial, não geram filhotes e não precisam tirar o sono de ninguém. O modelo federativo em crise e a falta de clareza de objetivos dificultam o aproveitamento dos períodos eleitorais para se debater os caminhos da rua judaica. Os candidatos ao Conselho Deliberativo, por exemplo, repetiram na TV o comportamento de candidatos às Câmaras de Vereadores, que, ao se apresentarem no horário gratuito do TRE, pronunciam-se de forma absolutamente indiferenciada. O espectador/eleitor fica tentado a fazer uma escolha paroquial, votando num parente ou amigo, em detrimento de uma escolha por afinidade estratégica. Democracia não é isto. A recente iniciativa do então candidato à presidência da FIERJ, Roberto Saulo Stryjer, tentando formular coletivamente propostas para um novo formato para a Federação, não decolou. Continuamos patinando em terreno liso. Há enorme dificuldade de renovação de lideranças, fenômeno que apenas reproduz a rotina das entidades federadas. Em tal quadro, como se conclui pela leitura do artigo de Alberto Dines publicado nesta edição do Boletim (pág. 3), o desaparecimento de ativistas veteranos produz vácuos, implode a memória coletiva e agrava o esgarçamento comunitário. Não alimentemos ilusões: ou se identifica a extensão desta crise, com todas as suas variantes, e se buscam formas criativas para superá-la, ou corremos o sério risco de virar uma caricatura, um triste pastelão da outrora rica e multifacetada vida do ishuv carioca. Isto sem falar no risco de se abrir caminho para os “salvadores”, sempre disponíveis nesta pesca em águas turvas. Oxalá possamos dar passos largos em direção a uma realidade comunitária renovada no ano de 5761, que está prestes a se iniciar. Shaná tová - a gut ior ! * |