| Securon - Boletim ASA nº 134, jan-fev/2012 | ||
O Círculo Sholem Aleichem (parte 5) Motl Polansky
O autor relata aspectos da militância socialista da juventude judaica de sua cidade natal, hoje chamada Sokiriani. O texto, que será publicado em capítulos pelo Boletim ASA, em tradução de Isaac Acselrad - diretor da ASA por mais de 20 anos - foi publicado originalmente em ídiche, nos anos 1970, pela revista Sovetish Heimland.
Idel e Sonia decidiram casar-se. Muitas piadas corriam pela cidade sobre o novo parentesco entre Yassern e Kivecha. Idel passou a morar na casa de Sonia, mas a maior parte do dia passava na Rua dos Açougues e na casa de sua mãe. Os pais de Sonia de repente descobriram nele boas qualidades. Com o tempo, também mudaram de opinião sobre a sua profissão. Kivecha tinha de suportar as ironias das vizinhas. “Bom casamento... Quer dizer que agora já temos também um sapateiro na praça... Como os tempos mudam...” Kivecha respondia calmamente: “É verdade, ninguém pode prever o futuro. Hoje sapateiro, amanhã ministro” (Haint a shíster, morgn a minister!). Gavrilu com seus gendarmes e a polícia política espionavam a todos. Muitos pais espionavam também seus filhos e os jovens em geral, procurando saber aonde iam, os locais que frequentavam, especialmente depois do casamento tumultuoso de Idel e Sonia. Era preciso fazer algo para desviar a atenção da Rua dos Açougues, que dava tanto o que falar. Tratamos logo de legalizar uma organização do tipo “liga cultural”, já existente em várias cidades, em torno da qual poderiam se agrupar os elementos progressistas, facilitando que se encobrisse o trabalho clandestino. Para conseguir permissão precisávamos da ajuda de gente importante na cidade. Ita, a inteligente, achou logo um jovem médico, Landa, homem de convicções democráticas que casualmente dava-se bem com o pretor da cidade, a quem também agradava financeiramente. Obtida a permissão, deu-se à organização o nome de Círculo Sholem Aleichem. Formalmente exigiam-se um presidente e um vice, que deviam apresentar-se ao pretor como responsáveis e assinar vários documentos. Estes dois eram Chaim Kleinman e Shulem Rosenzweig, descendentes de famílias ricas e importantes e recém-chegados à cidade. Alugou-se logo um local. Foram permitidos uma biblioteca, um salão de leitura e um curso noturno para jovens. O Círculo se tornou um importante centro cultural da cidade, ao qual muita gente acorria aos sábados. Ita Kucuruza atraiu muita gente inteligente e culta. Havia conferências sobre Medicina, Economia e História dadas por médicos, advogados, professores. O doutor Landa analisava os fatores sociais de doenças como a tuberculose, que na maior parte atingia as populações pobres. Um grande número de ativistas ingressou no coro e no Círculo Dramático. Um assíduo frequentador do Círculo foi o nosso conhecido alemão Yanitski Yoanne. Ele aparecia de mansinho e, respeitosamente, parava na porta observando como eu regia o coro. Eu lhe cedia o lugar. Yanitski se colocava majestosamente frente ao coro, erguia os braços, dava o tom necessário e começava sozinho, em voz baixa, as primeiras frases da canção:
Os passantes paravam perto da janela para ouvir as canções de Edelstat, Rozenfeld, Wintchevsky e do trovador bessarábio Zeilig Berditchever. Berditchever viveu apenas 39 anos, modestamente, como professor nas aldeias e também na cidade de Beltz, sempre ligado às massas populares. Ouvia-se em suas canções a triste e amarga sorte da nossa pátria, a Bessarábia, sob o jugo dos dominadores romenos, a dor do explorado camponês, a alegre melodia do proletário judeu. Ouvia-se também o prenúncio de tempos melhores. Enquanto ele era vivo, certos aristocratas, que se consideravam grandes escritores, recebiam as canções de Berditchever com indiferença, frieza e deboche. Elas nunca foram publicadas. Ele escreveu também prosa e várias obras dramáticas. De tudo, infelizmente, sobrou apenas um livrinho com nove canções editado pelo ativista cultural de Tchernovitz Hersh Segal, um ano após a morte de Berditchever. Graças ao livro, essas canções se tornaram célebres em outros países - justamente as obras que ninguém queria editar quando ele ainda estava vivo. Ao que parece, ele foi o único entre os famosos escritores daquela Romênia cujas obras foram incluídas, junto com as dos populares Eliezer Steinbarg e Itzik Manguer, nos programas de concerto dos artistas profissionais e nas atividades artísticas em geral. Algumas peças de Berditchever foram encenadas pelo círculo dramático junto com vários contos de Peretz e de Sholem Aleichem. Parte do lucro proveniente dos nossos concertos noturnos públicos, muito elogiados pela cidade, destinou-se à compra de livros para a biblioteca e a outra, aos prisioneiros políticos. A biblioteca foi entregue a Katzop, que recolheu livros entre os amigos e também comprou novos. Os do pequeno armário de Idel foram trazidos para a biblioteca, e os proibidos passavam de mão em mão. A biblioteca do Círculo Sholem Aleichem logo atraiu todos os leitores da cidade. Quando fechava, realizavam-se pequenas reuniões. Primeiro chegavam Hershele e Meilech, como se fossem jogar uma partida de xadrez. Depois vinham Ita e a irmã de Meilech, Sheindl. Entre Katzop e Sheindl sabia-se haver um silencioso romance. Eles se sentavam já com as peças arrumadas no tabuleiro e começavam a tratar do assunto MOPR-Organização Internacional de Auxílio aos Presos Políticos, que havia sido confiado a esse grupo. Hershele e Meilech ocupavam-se de recolher dinheiro para o MOPR. Haim cuidava da tesouraria, e Ita e Sheindl tratavam da expedição e coletas em certos locais. Em todo o país havia grandes repressões, e as cadeias estavam repletas de prisioneiros políticos. O regime nas cadeias era insuportável e exigia ajuda urgente. Entre os companheiros organizados e entre os simpatizantes do povo havia uma contribuição mensal voluntária. Mas era pouco. Começaram então a recolher roupa, comida e dinheiro. De todos os jeitos, em qualquer oportunidade. Meilech e Sheindl iam aos casamentos fingindo-se de convidados, dançavam com todos e pediam dinheiro para as famílias necessitadas ou para os doentes. Organizavam também uma loteria que conseguiu muito dinheiro, mas também nem sempre acabou bem. Certa vez, Sheindl entrou correndo na biblioteca, pálida e assustada, contando que na hora de fazer o sorteio, entre as montanhas perto do Rio Tchipet, apareceu Gavrilu, prendeu Meilech e mais alguns ativistas. Só ela havia conseguido fugir. Os sócios do comitê correram a procurar Shloime Starosta, que conseguiu libertar a todos. Só ao Meilech, Gavrilu segurou e disse: “Nunca mais quero te ver na minha frente.” E deu-lhe um empurrão. Gavrilu guardou a lista com os nomes dos donos dos bilhetes junto com a outra lista do teatro. Na véspera das festividades revolucionárias, promoveu muitas prisões. As pessoas tinham de se esconder. O dinheiro recolhido, as roupas e alimentos eram mandados para o MOPR da cidade de Yas. Os pacotes eram preparados na casa de Ita. Sheindl costurava os sacos de algodão, Ita escrevia os endereços e a mãe de Ita ajudava bastante. De vez em quando, Ita tossia um pouco, mas não ligava. Os choques entre Meilech e Gavrilu criaram uma situação difícil, que podia prejudicar o Círculo Sholem Aleichem. Meilech decidiu procurar trabalho em Bucareste. Ele era muito querido por todos, mas compreendemos que tinha razão. No Círculo Sholem Aleichem todos cuidavam para que não houvesse mais suspeitas de ligação com os que trabalhavam clandestinamente. Durante as noites o local era animado. Muita gente na sala de leitura. Para os cursos noturnos havia sempre novos jovens trabalhadores. Certa vez, o pessoal trouxe um rapaz, Ichil Guerchen, filho de um lituano. O pai trabalhava na casa de banhos. Às vezes dormiam na própria casa de banhos. A mãe de Ichil morreu quando ele era ainda criança. Criado pelo pai, muito cedo começou a trabalhar numa padaria. Estudou por pouco tempo na escola. Mal deu para aprender a ler uma palavra. Mas os cursos noturnos foram de muito proveito para Ichil. Certa vez, disse: “Pessoal, vou cantar para vocês uma canção de minha autoria.” Ele tinha as rimas de cor, pois não sabia escrever. “Tudo vem de minha cabeça à noite, quando estou sentado perto do forno, olhando para o fogo, pensando, pensando. Esses minutos são para mim uma salvação! E me ocorre que Gorki também era padeiro.” A turma, bem humorada, brincava: “Gorki de Securon...” Logo ele aprendeu a escrever suas canções. Algumas foram transcritas no jornal mural do Círculo Sholem Aleichem. Ichil Guerchen começou a participar dos trabalhos clandestinos e chegou a dirigir uma pequena greve na padaria por melhores condições de trabalho. Ele ficava admirado da mudança radical que havia sofrido desde que começara a frequentar o Círculo. As pessoas mais bem situadas da cidade e os religiosos começaram a olhá-lo enviesado, e ao Círculo Sholem Aleichem, que era como um osso atravessado na garganta. Passaram a buscar uma forma de comprometê-lo aos olhos do povo e do governo. Assim, começaram a aparecer uns tipos suspeitos sob as janelas, tentando pegar algo que servisse para alguma provocação. No Iom Kipur, espalharam na sinagoga a notícia de que o Círculo estava realizando um almoço. Alguns tolos correram para lá para efetuar um ataque, mas encontraram as portas fechadas a cadeado. Nas conferências, sempre apareciam uns sujeitos com o fim de fazer provocações e tumulto, especialmente quando se apresentava o Hershele, que tinha fama de polemista apaixonado. Num sábado à noite, Hershele levantou a questão do antissemitismo que grassava no país. Falou sobre como o sistema capitalista usava o antissemitismo como diversionismo, como meio de esfriar a ira do povo contra os culpados pela sua pobreza. Com exemplos vivos e datas históricas, demonstrou que o antissemitismo sempre serviu de barômetro da insatisfação popular com relação ao regime dos governantes. Falou sobre a marcha da História, que finalmente conduzirá à salvação do mundo, livrando a Humanidade de todos os males sociais. O lugar estava repleto e muita gente ficou de fora, olhando pelas janelas. No fim, um dos jovens interrompeu a exposição e começou a falar: “Nós acabamos de ouvir falar da salvação do mundo. Claro que isto seria bom, mas ainda estamos por ver. Por enquanto, que problemas mundiais podem existir para nós, judeus? Enquanto estamos na Diáspora, almejamos nossa salvação nacional, nossa ressurreição; não podemos esquecer que somos judeus.” Formou-se um tumulto. Mas Hershele não se perdeu. Olhou para o povo e disse com ironia: “Vocês estão ouvindo. Ser gente é pouco. Nós precisamos ser judeus, judeus que sentem que estão na Diáspora. Com a salvação do mundo, cada povo ficará salvo e livre. Será o fim de todas as barbáries e injustiças, a Diáspora e o que com ela está relacionado.” Hershele se sentou. Suas últimas palavras tinham agradado a todos. O povo aplaudiu. (continua no próximo número)
Tradução de Isaac Acselrad. * As partes anteriores estão disponíveis no site da ASA. |
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