Beco da mãe -Boletim ASA nº 134, jan-fev/2012

Por trás da notícia

Henrique Veltman / Especial para ASA

 

O jornal O Estado de São Paulo tem uma pequena seção, no seu segundo caderno, intitulada “Há um século”. E num domingo de 2007, destacava a seguinte notícia do mesmo dia e mês:

“A Jewish Territorial Organization propôs ao governo estabelecer no Brasil um serviço de colonização.”

Interessante, não? Dois anos depois de sua fundação, a JTO queria implantar um núcleo judaico no Brasil. A JTO fora fundada em 1905 pelo escritor Israel Zangwill para promover o estabelecimento de judeus em áreas fora da Palestina Otomana. Ele e seus companheiros acreditavam que o movimento sionista jamais poderia garantir a segurança dos assentamos judaicos na Palestina. Essa posição ganhou o nome de Sionismo Territorial.

No 6° Congresso Sionista, realizado em Basileia, Suíça, em 26 de agosto de 1903, Theodor Herzl propusera que Uganda, então território britânico, servisse de refúgio temporário de emergência para os judeus da Rússia, que estavam em perigo iminente. Os pogroms se sucediam no leste europeu.

Embora Herzl tivesse deixado claro que esse programa não afetaria a meta última do sionismo – uma entidade judaica na Terra de Israel – a proposta provocou muita celeuma no Congresso e quase causou uma cisão no movimento sionista. Constituiu-se, então, a Organização Territorialista Judaica, fruto da unificação de diversos grupos que apoiavam as propostas de Herzl e Zangwill sobre Uganda entre 1903 e 1905. O chamado Programa de Uganda, que nunca contou com muito apoio, foi formalmente rejeitado pelo 7° Congresso Sionista, em 1905.

Nada obstante, gente muito importante continuava achando que as metas da JTO poderiam ser alcançadas, na Palestina e fora dela. Rumo ao Texas, por exemplo.

Cyrus L. Sulzberger, dono do jornal The New York Times, escrevia longo artigo em 5 de janeiro de 1907, defendendo a imigração dos refugiados judeus para Galveston, no Texas. Sulzberger era o presidente do Conselho Americano da Organização Territorial Judaica e publicou detalhes do projeto que levaria para o Texas os perseguidos da Rússia. Nesse artigo, ele confirma o donativo de 500 mil dólares efetuado pelo milionário Jacob H. Schiff.

Dois anos depois, Schiff consolidava seu plano de imigração para Galveston. Schiff coordenava o Escritório de Remoção Industrial (IRO) em Nova York, e o escritório da Organização Territorial Judaica na Grã Bretanha, para enviar imigrantes judeus ao porto de Galveston, no Texas.

Ao mesmo tempo, o Birô de Informações da Imigração Judaica (JIIB) era criado nesse mesmo ano de 1907 como um braço do IRO para receber esses imigrantes em Galveston e cuidar de seu assentamento nos Estados Unidos. O Escritório de Remoção Industrial (IRO) fora estabelecido em 1901 pela United Hebrew Charities of New York, pela B'nai B'rith, pelo Fundo do Barão Hirsch, e outras agências judaicas de apoio aos imigrantes. Assim, essas entidades, e ainda o Hilfsverein der Deutschen Juden (Relief, originalmente uma organização dos judeus alemães) trabalharam juntas para levar os judeus para Galveston.

Panfletos foram distribuídos na Europa para convencer os judeus russos a imigrar para os Estados Unidos, diretamente ao porto de Galveston. Havia uma decisão clara de evitar a imigração para Nova York…

A rota saía da Rússia para Bremen, na Alemanha, e de lá, com o apoio do Relief, os imigrantes judeus eram embarcados em navios que seguiam diretamente para Galveston. Chegando ao Texas, eles eram encaminhados pelo JIIB e distribuídos às várias cidades americanas da região. O problema da imigração judaica estava na ordem do dia, em 1905. O Times de Londres, no dia 8 de dezembro daquele ano, publicou uma extensa carta assinada por Lord Rothschild, Sir Samuel Montague, David L. Alexander, Joseph Claude, G. Montefiore, Leonard L. Cohen, Benjamin L. Cohen, e Stuart M. Samuel, na qual argumentam contra o movimento sionista, mas também contra o esquema da Organização Territorial Judaica. Ao mesmo tempo em que não viam no sionismo uma proteção real aos imigrantes na Palestina turca, temiam pela possível assimilação desses judeus “espalhados pela América”.

A posição desses poderosos era traduzida na ação da The Jewish Colonization Society (ICA), financiada originalmente pelo Barão Hirsch, mas que buscava assentar os imigrantes em projetos coletivos – como os que realmente foram implementados na Argentina e nas quatro colônias do Rio Grande do Sul. Toda essa conversa provocada por uma notícia de quatro linhas numa seção de O Estado de São Paulo…

 

 

 

 

 

 

Henrique Veltman, carioca, 74 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador do Boletim ASA.

    O livro de quase-memória de Henrique Veltman, Do Beco da Mãe a Santa Teresa, pode ser adquirido na ASA, em algumas lojas da Livraria Cultura (SP) e pela internet, hbveltman@gmail.com .

 

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