Israel - Boletim ASA nº 126, set-out/2010

O mais pernicioso

Guideon Levy, Haaretz

 

A semelhança é chocante: dois segmentos populacionais insulares e arrogantes, minorias poderosas com líderes autoritários, leis e normas próprias. Os colonos são cerca de 300 mil, sem contar os de Jerusalém Oriental, e os ultraortodoxos, em torno de 700 mil, incluindo colonos.

Na Israel de 2010, estes são os grupos mais ativos e determinados da complacente e sonolenta população judaica. Ambos causam prejuízos ao Estado e ambos custam a ele vastas quantias de dinheiro. E, reparem só, enquanto a campanha contra os haredim ganha impulso (uma campanha apenas em teoria, mas acompanhada de ódio e racismo), a atitude em relação aos colonos flutua entre a apatia e a simpatia, e até mesmo a compaixão.
Compaixão? Membro do painel que investiga a maneira como Israel lidou com os colonos retirados durante a desocupação de Gaza, Iedidia Stern os descreveu como nada mais nada menos do que  vítimas da “mais grave violação aos direitos humanos na história do Estado de Israel”. Não foram os pobres de Israel, não foram os imigrantes depositados nas cidades em desenvolvimento, não foram as crianças em situação de risco, não foram os filhos de trabalhadores imigrantes, nem os árabes expulsos em 1948 e 1967, e nem os palestinos sob ocupação, mas colonos retirados e que receberam compensação, de acordo com o notável código ético do professor Stern.

Diferentemente dos colonos, os haredim são um alvo fácil. Não há na sociedade secular israelense consenso maior do que o ódio a eles. Criticar os colonos é motivo de controvérsia, tem um preço e exige coragem.  Políticos populistas constroem carreira difundindo ódio aos haredim, mas são os tribunais, mais do que os líderes do país, que estão liderando a mudança das normas em relação aos ultraortodoxos.

Sem terem feito qualquer tentativa de se aproximar deles, os tribunais estão ignorando uma lei atrás da outra. A Suprema Corte determinou que as remunerações do Estado aos estudantes de ieshivá são injustas e que há um racismo intolerável em Immanuel; o Exército deseja recrutar outros milhares de estudantes de ieshivá. São decisões corretas e inevitáveis. Mas como fica esse outro grupo recalcitrante?

Racismo? Os colonos são mais racistas. Violência? Os colonos são muito mais violentos. Espalhafatoso desprezo pelas leis do país e manutenção de um sistema legal separado? Tanto mais entre os colonos. Orçamentos enormes? Os colonos nos custam mais, e os haredim são mais pobres. Danos à sociedade e ao Estado?  Os causados pelos colonos são muito mais catastróficos.

O autoisolamento dos haredim dentro de seu próprio mundo às custas do Estado precisa de fato ser mudado, e as manifestações de racismo no meio deles devem ser erradicadas. Mas onde estão a opinião pública e o Estado com seus tribunais quando se trata dos colonos? Os haredim sangram o orçamento, conforme reclamamos frequentemente. E os colonos, não?

De acordo com o Paz Agora, os colonos nos custam 2 bilhões e 500 milhões de shekels ao ano. Para quê? Pelos esforços que fazem para frustrar todas as perspectivas de paz. Isso não é mais prejudicial do que um aluno de ieshivá? Não é mais perigoso do que um estudante da Torá?
Os haredim ashquenazim tratam os mizrahim de modo abominável. Isso é racismo. Mas, pelo menos, não é violento como o racismo dos colonos em relação aos palestinos. Os haredim põem suas mulheres na traseira dos ônibus; os colonos não só impedem os palestinos de usarem  os ônibus, mas às vezes até toda a estrada. Os haredim impõem obstáculos entre ashquenazim e mizrahim nas suas escolas; os colonos executam uma limpeza étnica sob a égide do Estado, como a de 25 mil residentes de Hebron.

Então, quem é o verdadeiro racista? Comparados à juventude dos colonos, os garotos de ieshivá são modelos de moralidade. Mas quem é o criticado? Os haredim, claro. Quando é que os tribunais irão se manifestar contra o racismo dos colonos como fizeram contra o racismo haredi? Eles mesmos mantêm sistemas diferentes para punir  judeus e árabes. Quando iremos ouvir críticas  aos milhares de postos fictícios no serviço civil ocupados por colonos ‒ um agente de segurança assalariado em cada casa pré-fabricada? ‒ do mesmo jeito que ouvimos sobre os parasitas haredim? E  o que dizer dos milhares de soldados que têm que dar proteção aos colonos, às estradas supérfluas que eles construíram para servi-los, à eletricidade e ao abastecimento de água destinados aos postos avançados ilegais? Tudo pago por nós, mais do que pagamos para que os haredim estudem a Torá.
Portanto, vamos falar claramente: isto se chama dois pesos e duas medidas.

Covardia também serve.

Tradução de S.M.G.

 

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