| Israel - Boletim ASA nº 126, set-out/2010 |
O mais pernicioso Guideon Levy, Haaretz
A semelhança é chocante: dois segmentos populacionais insulares e arrogantes, minorias poderosas com líderes autoritários, leis e normas próprias. Os colonos são cerca de 300 mil, sem contar os de Jerusalém Oriental, e os ultraortodoxos, em torno de 700 mil, incluindo colonos. Na Israel de 2010, estes são os grupos mais ativos e determinados da complacente e sonolenta população judaica. Ambos causam prejuízos ao Estado e ambos custam a ele vastas quantias de dinheiro. E, reparem só, enquanto a campanha contra os haredim ganha impulso (uma campanha apenas em teoria, mas acompanhada de ódio e racismo), a atitude em relação aos colonos flutua entre a apatia e a simpatia, e até mesmo a compaixão. Diferentemente dos colonos, os haredim são um alvo fácil. Não há na sociedade secular israelense consenso maior do que o ódio a eles. Criticar os colonos é motivo de controvérsia, tem um preço e exige coragem. Políticos populistas constroem carreira difundindo ódio aos haredim, mas são os tribunais, mais do que os líderes do país, que estão liderando a mudança das normas em relação aos ultraortodoxos. Sem terem feito qualquer tentativa de se aproximar deles, os tribunais estão ignorando uma lei atrás da outra. A Suprema Corte determinou que as remunerações do Estado aos estudantes de ieshivá são injustas e que há um racismo intolerável em Immanuel; o Exército deseja recrutar outros milhares de estudantes de ieshivá. São decisões corretas e inevitáveis. Mas como fica esse outro grupo recalcitrante? Racismo? Os colonos são mais racistas. Violência? Os colonos são muito mais violentos. Espalhafatoso desprezo pelas leis do país e manutenção de um sistema legal separado? Tanto mais entre os colonos. Orçamentos enormes? Os colonos nos custam mais, e os haredim são mais pobres. Danos à sociedade e ao Estado? Os causados pelos colonos são muito mais catastróficos. O autoisolamento dos haredim dentro de seu próprio mundo às custas do Estado precisa de fato ser mudado, e as manifestações de racismo no meio deles devem ser erradicadas. Mas onde estão a opinião pública e o Estado com seus tribunais quando se trata dos colonos? Os haredim sangram o orçamento, conforme reclamamos frequentemente. E os colonos, não? De acordo com o Paz Agora, os colonos nos custam 2 bilhões e 500 milhões de shekels ao ano. Para quê? Pelos esforços que fazem para frustrar todas as perspectivas de paz. Isso não é mais prejudicial do que um aluno de ieshivá? Não é mais perigoso do que um estudante da Torá? Então, quem é o verdadeiro racista? Comparados à juventude dos colonos, os garotos de ieshivá são modelos de moralidade. Mas quem é o criticado? Os haredim, claro. Quando é que os tribunais irão se manifestar contra o racismo dos colonos como fizeram contra o racismo haredi? Eles mesmos mantêm sistemas diferentes para punir judeus e árabes. Quando iremos ouvir críticas aos milhares de postos fictícios no serviço civil ocupados por colonos ‒ um agente de segurança assalariado em cada casa pré-fabricada? ‒ do mesmo jeito que ouvimos sobre os parasitas haredim? E o que dizer dos milhares de soldados que têm que dar proteção aos colonos, às estradas supérfluas que eles construíram para servi-los, à eletricidade e ao abastecimento de água destinados aos postos avançados ilegais? Tudo pago por nós, mais do que pagamos para que os haredim estudem a Torá. Covardia também serve. Tradução de S.M.G.
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