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EDITORIAL - Boletim ASA nº 126, set-out/2010

Desejos                                 

Aproximam-se os Iamim Noraim (Dias Temíveis), período entre Rosh Hashaná e Iom Quipur. Tal como em outras culturas, no judaísmo ritualiza-se a passagem do tempo, imaginando a possibilidade de um reinício, de um Ano Novo. De certa forma, são rituais que tentam “rechaçar” a presença temida e inexorável da Morte. Não apenas a extinção da Vida, mas as várias perdas, pequenas mortes, que vamos sofrendo ao longo da existência. Como sentiu o poeta Mário Quintana: “Da primeira vez que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, a cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha.”

Rosh Hashaná e Iom Quipur são dias solenes. Mesmo judeus não praticantes costumam dar um pulinho na sinagoga, nem que seja para fazer apenas “uma social” ou ouvir o toque do shofar. Tempo e Morte têm apelos tão poderosos que muita gente, religiosa ou não, prefere não desafiar o imponderável, comparecendo ao encontro anual para o balanço dos méritos e culpas que desaguarão no Julgamento que preside o grande jejum.

A verdadeira identidade das pessoas são as lembranças, disse o escritor argentino Tomas Eloy Martinez. O Iom Quipur começa com a memória da intolerância. O Col Nidrei (todas as promessas, em aramaico), com belíssima melodia, lembra épocas em que os judeus eram forçados, em nome da fé, a fazer o que não queriam, sob ameaça de tortura, morte ou exílio. Como extrair esperança de onde só há sofrimento? Boa pergunta para os que se importam com os Dias Temíveis.

Para nós, judeus seculares, desejar que o ano novo seja bom é simpático, mas insuficiente. Ele só o será como fruto de construção individual e coletiva. Novidade será lutar pela abolição da pena de morte, e não só da pena por apedrejamento. Fuzilar, guilhotinar, enforcar, decapitar, eletrocutar ou envenenar não são métodos menos cruéis. Estimulante será conquistar a paz interior para que, como disse o poeta Manoel de Barros, cada um possa ser outros. Essencial será bloquear a destruição do planeta, o que não se restringe à preservação ambiental, mas inclui a garantia de existência digna para todos os homens, num mundo sem guerras e livre da exploração classista.

Vamos construir o Novo em 5771.

A Gut Ior / Shaná Tová / Anyada Buena.
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