| Beco da mãe - Boletim ASA nº 126, set-out/2010 |
Quem ele pensa que é? Henrique Veltman / Especial para ASA
Lembro bem de dona Rachel tirando sarro de algum patrício metido a besta: quem ele pensa que é, o Graf Potocki ? Eu levei muitos anos pra entender a expressão e o nome, afinal de contas, quem era esse tal de Graf Potocki ? Claro, um dia, finalmente, tropecei num texto, acho que do Jacó Guinsburg, no qual a expressão estava lá, com todos os efes e erres, tal qual minha mãe a pronunciava: “Quem ele pensa que é, o Graf Potocki?” Fui pesquisar e descobri a história dramática desse conde polonês, que se converteu ao judaísmo e pagou com a vida, numa fogueira, em Vilna, no século 18. O Conde Valentine Potocki , essa lendária personagem da nobreza polonesa, renunciou ao catolicismo e se tornou um judeu religioso. De acordo com a nossa tradição, ele se tornou um sábio talmúdico, discípulo reconhecido e protegido pelo Gaon de Vilna, Eliyahu Ben Shlomo Zalman (1720-1797)). Há muitas versões sobre a sua história. Na Lituânia, Polônia e Rússia, ele era e é conhecido como o Ger Tsedek (prosélito perfeito). As fontes judaicas dizem que ele foi queimado vivo por ordem da Igreja Católica de Vilna em 24 de maio de1749 (7 de Sivan de 5509). Há registros de que o jovem Potocki e um amigo íntimo, Zaremba, deixaram a Polônia natal para estudar em Paris, onde conheceram um velho judeu de quem ganharam um grande número de textos hebraicos. Esse senhor seria Menahem Man ben Aryeh Löb de Visun, que seguiu Potocki no sacrifício. Ele foi torturado e executado em Vilna, aos 70 anos, um mês após a morte do conde. Menahem foi o professor dos dois poloneses. Em seis meses eles adquiriram conhecimento da linguagem bíblica e se sentiram atraídos pelo judaísmo.Viajaram a Amsterdam, um dos poucos lugares na Europa em que um cristão podia livremente abandonar sua religião, e se converteram ao judaísmo. Potocki assumiu o novo nome, Abraham ben Abraham. Potocki foi viver por pouco tempo na Alemanha. Depois regressou à Polônia e foi curtir a sua nova existência judaica no povoado de Ilye, na Grande Vilna, onde sua origem cristã era desconhecida. Mas acabou sendo reconhecido pelas autoridades da Igreja, preso e condenado à morte. Ao ser informado, o Gaon de Vilna mandou-lhe uma mensagem em que se oferecia para resgatá-lo fazendo uso de alguma magia cabalística, mas ele recusou, preferindo morrer al kidush Hashem. Abraham consultou o Gaon sobre qual oração ele deveria proferir momentos antes de entregar a alma a Deus. O Gaon teria respondido "...M'Kadesh es Shimcha be'rabim" (quem santifica Seu Nome em público) e enviado um sheliach para ouvir a reza e responder amen. Consta que a família de Potocki, especialmente sua mãe, fez de tudo para recuperá-lo à fé cristã.Tudo inútil. O conde foi queimado vivo depois de um longo período na prisão, no segundo dia de Shavuot. Leiser Zhiskes, um judeu religioso, mas imberbe, conseguiu salvar algumas cinzas que depois foram sepultadas no cemitério judaico. Uma carta do rei polonês concedendo o perdão a Potocki chegou tarde demais para salvar a sua vida. Mas a história também tem um final feliz: o amigo de Potocki, Zaremba, regressou à Polônia alguns anos antes de Potocki, casou-se com a filha de um grande nobre e teve um filho. Ele manteve sua promessa de judeu-novo. Viajou com a família para Amsterdam, de onde, após a circuncisão de seu filho e a conversão da mulher, emigraram todos para a Palestina. Ufa, essa é a história do Graf Potocki e da saga de Zaremba. Onde anda o Steven Spielberg que ainda não as colocou numa super produção cinematográfica ?
Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.
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