| Hungria e Austria - Boletim ASA nº 125, jul-ago/2010 |
A ameaça da extrema-direita Heliete Vaitsman / Especial para ASA
Os judeus da Hungria e da Áustria devem temer por seu futuro? Ou as manifestações recentes de xenofobia e antissemitismo são pontuais e tudo indica que assim permanecerão? A questão vem sendo debatida por lideranças judaicas europeias e estimula os israelenses, a exemplo de um editorialista do Jerusalem Post de 27 de abril último, a conclamar os judeus dos dois países a emigrar sem perda de tempo para Israel. (há aproximadamente 50 mil judeus na Hungria e 10 mil na Áustria). Nessa conclamação à emigração, os fantasmas do passado são tão visíveis que quase se pode tocá-los. Ainda que nosso imaginário coletivo se deleite com o legado cultural do império austro-húngaro, e, na sequência, da liberal Mitteleuropa, há também amargura nas frestas da memória: foi entre Viena e Budapeste que os judeus, desfrutando de liberdade individual e acesso à educação (mesmo sem poder político), durante meio século formularam utopias, inclusive a sionista, e criaram obras essenciais da literatura, da música, da filosofia – até que o universo conhecido ruiu... Há sete décadas, a “bela e pacífica paisagem” – expressão de Stefan Zweig em O mundo de ontem, ao evocar a vista de seu terraço em Salzburgo – estava prestes a ser pisoteada pelas armas nazistas. Hoje, o discurso da extrema-direita ultranacionalista acontece num continente pacificado, com regimes democráticos sólidos, sem golpes militares à vista. Mas os estereótipos, inclusive os do antissemitismo, se repetem, e uma eventual deterioração da situação econômica pode operar mudanças. Numa pesquisa feita pela Anti-Defamation League em janeiro de 2009 em sete países (Áustria, Hungria, França, Polônia, Alemanha, Espanha e Reino Unido), os húngaros aparecem como os que mais acreditam (67%, contra 40% da média geral) que os judeus detêm poder excessivo no mundo dos negócios e das finanças. Indagados se acham que “os judeus ainda falam muito sobre o que aconteceu a eles no Holocausto”, 55% dos entrevistados austríacos e 56% dos húngaros responderam “provavelmente sim” (contra 33% dos franceses e 20% dos ingleses). Entre os húngaros, 40% afirmaram que “os judeus são mais leais a Israel que à Hungria”. Em abril, pela primeira vez desde a ascensão do nazismo, o partido de extrema-direita Jobbik (Movimento para uma Hungria Melhor), que acusa judeus e ciganos (500 mil no país) de atentarem contra o “orgulho nacional”, conseguiu votos suficientes para obter 47 das 386 cadeiras do Parlamento, tornando-se a terceira força política da Hungria (o Partido Socialista, desgastado por acusações de corrupção após oito anos no poder, caiu de 190 para 59 cadeiras e perdeu o poder para a centro-direita). Um quarto dos eleitores entre 18 e 29 anos, segmento preocupado com o desemprego, votou no Jobbik, tanto em cidades mais empobrecidas quanto em universidades conceituadas. O partido tem uma milícia paramilitar que promove desfiles pelas ruas, embora seja oficialmente proibido de fazê-lo. Sua liderança defende a pena de morte, a recuperação de terras que fariam parte de uma Grande Hungria espoliada e o país fora da União Europeia. Retórica déjà vu, mas com roupagem contemporânea e atraente, tal como se observa no site (em cinco idiomas) http://www.jobbik.com. A linguagem mais rude aparece em meios menores, como um boletim de um sindicato de policiais simpatizante do Jobbik, que informou, antes das eleições: “Devido à nossa atual situação, o antissemitismo é não só nosso direito, mas um dever de todos os húngaros que amam sua pátria, e devemos estar preparados para uma batalha armada contra os judeus.” Na Áustria, ao contrário da Hungria, não se proclama que nazismo e stalinismo foram equivalentes. O que se faz é insistir que a Áustria foi invadida por Hitler e distinguir nazismo de antissemitismo; num site turístico, por exemplo, o articulista diz que o antissemitismo pós-Primeira Guerra foi o “resultado lógico” da recusa dos judeus a se integrarem, apesar de sua ótima situação financeira... A candidata à presidência do Partido da Liberdade (antiestrangeiro e anti-União Europeia), Barbara Rosenkranz, obteve 15% dos votos, segundo lugar, nas eleições presidenciais de 25 de abril. Percentual distante do vencedor, o social-democrata Heinz Fischer, mas preocupante, porque a visibilidade dela na mídia ajudará a promover políticos de extrema-direita, como o candidato à prefeitura de Viena. Barbara é mãe de dez filhos, e seu marido foi membro do hoje banido partido neo-nazista NPD. Na campanha, criticou a legislação antinazista e foi evasiva ao ser perguntada sobre a existência de campos de concentração. Conforme uma lei austríaca de 1947, qualquer pessoa que tente propagar a ideologia nazista ou negue os crimes nazistas pode ser condenada a até 20 anos de prisão. Ao qualificar a lei de “restrição desnecessária” à liberdade de expressão, a supermãe provocou repúdio generalizado, inclusive da Igreja. Para os austríacos, nazismo nunca mais!Heliete Vaitsman, jornalista, é colaboradora deste Boletim.
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