| Sionismo humanista - Boletim ASA nº 125, jul-ago/2010 |
Esther Kuperman / Condensado por Renato Mayer. A íntegra deste texto foi apresentada no Encontro Mundial do Partido Meretz, ocorrido em Jerusalém nos dias 13 e 14 de junho
O surgimento do sionismo, em fins do século 19, coincidiu com o contexto de fortalecimento dos movimentos nacionalistas na Europa. Também entendido como nacionalismo judaico, o sionismo foi fruto da conjuntura em que os povos europeus reafirmavam suas identidades e do crescimento da intolerância étnica ou religiosa sobre grupos sociais que, como os judeus, insistiam em manter suas especificidades culturais, mesmo em Estados nacionais onde predominavam grupos étnicos homogêneos. As correntes filiadas ao pensamento sionista desde sua origem não eram homogêneas e exprimiam as diferenças decorrentes de divisões sociais. Ia-se do sionismo marxista, representado por Ber Borochov - para quem a existência do Estado de Israel seria consequência da luta de classes -, até o sionismo revisionista, cujo principal líder, Zeev Jabotinsky, possuía concepções acerca da questão nacional judaica muito próximas ao fascismo. Nacionalismo judaico ou ideologia nacional israelense? A ideologia nacional diz respeito à lealdade política de cada indivíduo ao seu Estado nacional, comportamento experimentado cotidianamente. Mas, em momentos de crise, esta mesma ideologia nacional adquire forma exacerbada, o que a torna excludente e que entendemos como nacionalismo. Ao invés de erradicar os vínculos dos judeus com suas tradições culturais e religiosas, o Holocausto constituiu fator de fortalecimento destas relações, colaborando também para o crescimento de um projeto nacional judaico. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os judeus sobreviventes ao Holocausto encontravam-se fortemente imbuídos de sua especificidade cultural, e principalmente, de sua característica nacional. Portanto, a convergência destes dois fatores - uma ideologia nacional judaica transformada em nacionalismo e o Holocausto - tornou possíveis articulações e pressões no sentido de que fosse criado o Estado de Israel. Assim, o sionismo depois da guerra ainda se caracterizava como ideário de afirmação da nacionalidade judaica, apontando para a necessidade da construção de um lar para os judeus de todo o mundo. Antes mesmo do Holocausto já havia migração de judeus para a região onde Israel se situa. Mas era constituída, predominantemente, por judeus de tendência socialista, que viam nos kibutzim uma forma de edificar uma sociedade igualitária. Com o fim da guerra, os ideais políticos dos imigrantes se tornaram mais heterogêneos, pois, em sua maioria, os judeus rumavam para a nova pátria com o objetivo de construir ali um novo lar, independente da sua configuração econômica e política. Mesmo neste período, o campo político conservador, constituído pelos seguidores de Jabotinsky - o Irgun e o Stern -, ainda era minoritário. Tais fatores colaboraram para definir os espaços de cada grupo no novo Estado, mas a Guerra Fria foi fundamental para definir o peso de cada um dos campos e garantir a hegemonia dos grupos mais identificados com o pensamento capitalista. Em seus primeiros anos, o novo Estado ainda se apresentava como um projeto em construção. Da pavimentação de ruas à organização de uma legislação, da ordenação dos partidos políticos (calcados nas correntes ideológicas existentes na diáspora) à construção de escolas, hospitais, casas, pontes, tudo tinha de ser feito, iniciado, definido. Nestes momentos, a correlação de forças dentro das comunidades judaicas nos demais países foi decisiva para definir a estrutura jurídica e política do novo país. Influenciando de fora para dentro, as comunidades judaicas tiveram participação ativa na construção do Estado. Neste período o sionismo cumpriu seu papel de ideologia nacional, ou seja, seu ideário produziu os vínculos que transformaram judeus em israelenses. Era fundamental gerar nos judeus que migravam para Israel um processo de autorreconhecimento para que se concebessem não mais como etnia ou grupo religioso, mas como povo regular. Fundamental para a consolidação do projeto nacional, o sionismo também foi responsável pela formulação de uma identidade nacional israelense. Tal construção possuía uma característica importante: para o sionismo deste período, a representação do espaço geográfico de Israel tinha como referência as fronteiras delimitadas em 1947. Neste sentido, o ano de 1956 (da Guerra do Sinai), e, principalmente, o de 1967 (da Guerra dos Seis Dias) foram divisores de águas, tanto para a existência do Estado de Israel quanto para o papel do sionismo como ideologia nacional judaica. Com suas instituições políticas consolidadas e uma sociedade de classes estruturada, o Estado de Israel já vivia, ao final dos anos 1960, o desmantelamento do welfare state e a redução da presença do Estado na economia, como em todo o mundo capitalista. Mas a guerra e a ocupação traçaram novo perfil para a sociedade israelense. Os palestinos vieram a ocupar a base da força de trabalho, exercendo funções que exigiam menor qualificação, o que preenchia uma importante demanda da economia israelense. Nas décadas seguintes, os episódios de conflito, porém, não cessaram. A maior consequência, do ponto de vista da sociedade israelense, foi o aumento do grau de incerteza quanto à segurança dentro das fronteiras. Naquela conjuntura de crescente sentimento de insegurança, o governo passou a contar com a aprovação da sociedade para impor medidas que restringiam cada vez mais o ingresso de palestinos em território israelense. Para os palestinos ‒ substituídos por coreanos, chineses, tailandeses etc. ‒ no mercado de trabalho israelense, a situação aprofundou a falta de alternativas de trabalho e sobrevivência, uma vez que a economia dos territórios ocupados não gera demanda por mão de obra. Tal fato serviu para multiplicar os protestos contra as medidas do governo israelense e os ataques à população de Israel. Mas, por parte dos grupos israelenses que consolidavam sua hegemonia, herdeiros do sionismo conservador, a solução para o conflito passará pela eliminação da população palestina, uma maneira de encarar o oponente bastante similar à dos grupos radicais islâmicos. Desta forma, não só o Estado de Israel, mas também o ideário sionista ‒ este entendido como nacionalismo judaico ‒, têm sido apropriados pelos que apostam na perpetuação do conflito. Já não é somente a comunidade internacional quem promove este amálgama, mas sim a própria sociedade israelense e também as comunidades judaicas de todo o mundo. Assim, assistimos à transfiguração do sionismo: de um conjunto de ideias e práticas de afirmação da nacionalidade judaica para um projeto de consolidação de políticas expansionistas e exclusivistas. Do ponto de vista das comunidades judaicas da Diáspora, a situação também é preocupante: seu contato tem sido sempre direto e somente com o governo israelense. Esta relação desigual cria condições para que as políticas governamentais sejam impostas às direções das instituições judaicas fora de Israel, tornando-as meras defensoras destas políticas, retransmissoras das palavras e das orientações “oficiais”. Sem estabelecer relações com as instituições da sociedade civil israelense – o que proporcionaria um equilíbrio no diálogo ‒, as comunidades judaicas da Diáspora encontram-se desprovidas de autonomia, refletindo apenas as posições defendidas pelos campos políticos hegemônicos em Israel. Algum peso elas poderiam ter, entretanto, em repensar e refletir o retorno a um sionismo humanista, garantia única de sobrevivência do Estado de Israel. Enquanto resgate do verdadeiro ideário sionista, isso passa, necessariamente, pela proposta de uma paz negociada, justa e duradoura no Oriente Médio.Esther Kuperman, historiadora, doutora em Ciências Sociais, membro da representação do Meretz Brasil e coordenadora dos Amigos Brasileiros do Paz Agora no RJ, é diretora da ASA e colaboradora deste Boletim.
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