Einstein - Boletim ASA nº 125, jul-ago/2010

Descascando o mito

Dorothy Zellner / Jewish Currents

 

Embora eu tenha sido boa aluna no segundo grau, quase repeti em Química. Fico espantada quando aciono o interruptor e a luz  acende. Portanto, sou incapaz de dizer sequer uma palavra sobre as imensas contribuições científicas de Albert Einstein. Mas, graças ao estudo em três volumes sobre Einstein feito por Fred Jerome, agora sei muito mais a respeito de Einstein, o homem. Em vez do gênio excêntrico de cabelos ondulados como  geralmente retratado, Einstein nadava contra a corrente firmemente e com princípios.

A trilogia salvou Einstein dos mitos que o definiram durante gerações e restaurou a sua persona política e social multifacetada. Mas a construção de mitos  na nossa cultura é central e, acredito, reforçada mais pelo que vemos (filmes e  TV) do que pelo que lemos. Por exemplo, muita gente vê hoje a Reconstrução [período da História dos Estados Unidos entre 1865 e 1877] como um desastre (filme O nascimento de uma nação) e acredita realmente que alguns escravos, como Mammy, na fazenda Tara (E o vento levou), eram felizes.
Algumas das grandes figuras da nossa História se tornaram sombras do que de fato foram, como Martin Luther King e o próprio Einstein, quando mostra a língua naquela famosa foto.

Fred começou a ressuscitar o Einstein político com o primeiro livro de sua trilogia, The Einstein File [O arquivo Einstein], que conta a história de J. Edgar Hoover e a perseguição a Einstein movida pelo FBI. O arquivo de 1800 páginas do FBI mostra que, desde o momento em que Einstein desembarcou nestas terras, em 1933, até a sua morte, em 1955, Hoover instruiu o FBI no sentido de abrir a correspondência do grande cientista e de monitorar o seu telefone, procurou retratá-lo como espião soviético e tentou até retirar a sua cidadania americana e deportá-lo! Hoover perseguiu assiduamente todos os indícios ‒ não importando quão distantes estivessem dos fatos ‒ que pudessem prejudicar Einstein.

A atividade de Einstein não se restringiu à área científica. Ele defendeu os voluntários que foram lutar na Espanha pela causa legalista na Guerra Civil de 1936-39; levantou sua voz contra a histeria anticomunista que varreu os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial; fez amizade e apoiou o grande historiador afro-americano e líder do NAACP [National Association for the Advancement of Colored People], W.E.B. Du Bois, que foi preso aos 83 anos de idade e acusado de ser “agente estrangeiro”.

A maioria de nós tem dificuldade de visualizar um Einstein que conclamava à resistência ‒ inclusive contra a prisão perpétua ‒ aos inquéritos efetuados pelo Congresso durante o macarthismo. O seu ponto de vista aparece na primeira página do New York Times de 12 de junho de 1952, sob o título “Recusem-se a depor”. Einstein escreveu:

“Políticos reacionários vêm  incutindo no público suspeitas sobre todo esforço intelectual e têm sido bem sucedidos. Agora, estão começando a suprimir a liberdade de ensino e a retirar de suas posições todos aqueles que não se submeteram, isto é, estão passando a matá-los de fome. O que deveria fazer a minoria de intelectuais contra este mal? Francamente, eu só vejo o caminho revolucionário da não cooperação, como defendido por Gandhi. Todo intelectual convocado aos comitês deveria recusar-se a depor, ou seja, precisa estar preparado para a cadeia e a ruína econômica, em resumo, para o sacrifício de seu bem-estar pessoal pelo bem-estar da cultura deste país... Se houver gente suficiente com disposição para dar este passo, serão bem sucedidos. Se não, os intelectuais não merecem nada melhor do que a escravidão que lhes querem impor.”

Está virtualmente eliminado da persona de Einstein o seu consistente antirracismo. Já em 1931, quando ainda vivia na Alemanha pré-Hitler, Einstein se correspondia com W.E.B. DuBois, editor de The Crisis [revista da NAACP], e escrevia declarações de apoio à luta da comunidade afro-americana pela igualdade. Depois de fugir da Alemanha e se tornar residente e cidadão dos EUA, ele dizia, com frequência, que o racismo era o flagelo americano. Numa mensagem à convenção nacional da Urban League [organização voltada para a defesa dos direitos civis], em setembro de 1946, ele disse que “a pior doença da sociedade de nossa nação é, na minha opinião, o tratamento dado ao negro”.

Einstein participou abertamente da luta pelos direitos civis. Discursou na Universidade Lincoln, instituição afro-americana relativamente desconhecida; convidou [o contralto] Marian Anderson a se hospedar na sua casa quando ela foi rejeitada pelo Nassau Inn, hotel segregacionista de Princeton, Nova Jersey; chamou atenção para a luta contra os linchamentos e apoiou diversas organizações de defesa dos direitos civis.
O que talvez mais fale sobre as suas atitudes em relação a raça e classe social é o fato de ter cultivado amigos entre os moradores simples da comunidade afro-americana de Princeton, que viviam segregados à beira da grande universidade. Eric Craig residente na comunidade, recorda-se afetuosamente de Einstein:

“Simplesmente não havia racismo nele. Eu imaginava que ele devia ter testemunhado um  ódio racial tão terrível contra os judeus na Alemanha que o tornou mais consciente do que a maioria dos brancos em Princeton. Nós, realmente, ficávamos excitados quando o víamos, porque nossos pais nos diziam que ele era uma pessoa muito famosa. Ele descia a Rua Witherspoon (a principal do bairro afro-americano de Princeton) quase todos os dias ‒ nós, crianças, saíamos correndo ‒, lá pelos anos 1942, 43, 44. Eu me lembro de seus cabelos compridos.”

Em Einstein on Israel and Zionism [Einstein a respeito de Israel e do sionismo], basicamente uma coleção de citações, Fred  descascou a última camada da mitologia de Einstein. Mesmo aqueles que aceitam ou até se orgulham do seu antirracismo e de sua coragem durante a era McCarthy (uma vez informados sobre o assunto) podem ter dificuldade para aceitar a  realidade de que ele não foi um simpatizante ardoroso de Israel. Não admira: no dia seguinte ao de sua morte, em abril de 1955, a imprensa o enquadrou como o “campeão” da criação do Estado de Israel (New York Times) e “firme partidário do jovem Estado de Israel” (New York World Telegram). No entanto, as francas posições de Einstein a respeito de Israel, algumas cobertas por esses mesmos jornais, contam uma história diferente.

Einstein se sentia apaixonadamente parte do povo judeu e em geral, não sempre, definia-se como sionista. Quando o fazia, esclarecia que era um sionista cultural, como [o escritor e filósofo] Martin Buber e Judah Magnes [rabino reformista ameericano, um dos fundadores da Universidade Hebraica de Jerusalém], que acreditavam no florescimento da cultura judaica na Palestina. Mas, diferentemente dos sionistas territorialistas, era favorável a uma solução binacional que garantisse direitos a árabes e judeus. E fez muitas declarações neste sentido, sendo talvez a mais vigorosa dez anos antes do estabelecimento do Estado de Israel.

Em seu depoimento ante a Comissão de Inquérito Anglo-Americana sobre a Palestina, em 11 de janeiro de 1946, Einstein criticou amargamente o Mandato Britânico:

“As dificuldades entre judeus e árabes foram criadas artificialmente, e pelos ingleses.”

No mesmo depoimento, ele observou que “não consigo entender por que é necessário um Estado”. Um ano depois, Einstein escreveu:
“Nunca fui a favor de um Estado judeu na Palestina, mas de um Estado binacional sob estrito controle das Nações Unidas, enquanto lá prevalecerem os antagonismos nacionais.”

Além de binacionalista, Einstein criticava severamente a extrema-direita israelense. Seis meses após a fundação do Estado de Israel, assinou, junto com [a filósofa] Hannah Arendt,  o rabino Jessurun Cardozo, Sidney Hook [filósofo] e outros 24 judeus de renome, uma carta  ao New York Times (4 de dezembro de 1948), escandalizada, protestando contra a visita de Menahem Béguin, cujo partido de direita, Tnuat HaHerut, dizia o texto, “por sua organização, método, filosofia política e apelo social, tem afinidade com os partidos nazista e fascista...”.

Qual era a posição de Einstein em relação a Israel, uma vez estabelecido o Estado? Em setembro de 1948, ele escreveu:

“Nunca pensei que o Estado fosse uma boa ideia. Mas, agora, não tem volta, e a situação  precisa ser sustentada ...”

Um mês antes de morrer, escreveu:

"Tínhamos grandes esperanças em relação a Israel, no início. Pensávamos que poderia ser melhor do que outras nações, mas não é.”

Os únicos bens que Einstein possuía eram seu nome e sua reputação científica. Poderia tê-los usado para se promover e se proteger, mas preferiu se expor na linha de fogo em várias controvertidas questões do século 20.

 

Tradução de S.M.G .

 

 

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