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Negros e judeus- Boletim ASA nº 125, jul-ago/2010

A lição de Procópio    

Joel Rufino dos Santos / Especial para ASA

 

James Baldwin, o autor de Go Down, Moses, apontou, mais de uma vez, a identificação entre o povo judeu antigo e o povo negro moderno – criada, entre outros fatos, pelos spirituals e a  Bíblia.  Os sofredores dos campos de algodão na América se sentiam hebreus na dor e na alegria. 
Essa apropriação da experiência histórica de um povo por outro é relativamente comum. A própria formação das nações modernas europeias dependeu dessa apropriação, que precisa apenas de algumas similitudes.

Os pastores brancos norte-americanos só queriam tornar os negros bons cristãos. Liam para eles, faziam-nos decorar passagens do livro sagrado. O que não pretendiam aconteceu: os negros se sentiram hebreus. Escravizados, exilados, sempre à espera da redenção por meio de um salvador.

Nos anos 1950, nas igrejas batistas suburbanas do Rio – fundadas, em geral, por missionários americanos – spirituals faziam parte do repertório dos coros, vertidos para o português, em geral, aqui e ali na própria língua balouçante do Mississipi.  A muitos negros velhos, como meus avós, os spirituals serviriam de consolo à sua vida difícil, sem nada.

Em 1964, exilado no Chile, o disco que eu mais gostava de ouvir era o Louis and the Good Book, Armstrong e coro. “Lord, I want to be a Christian, on a my heart” (sic), Senhor, eu quero ser um cristão, “Ezekiel saw the Wheel”, Ezequiel viu a Roda, “Jonah and the whale”, Jonas e a baleia...

O mundo moderno, entre o Renascimento e a Grande Guerra, foi construído por negros e judeus. A produção e o comércio que serviram de base à civilização ocidental, foram obra quase exclusiva desses povos. A mão do negro africano e seus descendentes ficou por isso em toda  parte – na rua, na casa, no rio, na floresta, na praia, na cozinha, no quarto, na mina, na fábrica, no curral, na igreja... A do judeu, a começar pela civilização ibérica, ficou em tudo que circula, acumula, empreende – o banco, o armazém, a casa exportadora, o barco, a tropa de burro, a feira...

Tem lógica, portanto, que negros e judeus tenham sido os grandes malditos dessa civilização, que ela os recalcasse, vendo neles o outro que não suportava em si mesma. Na fantasia ocidental, o negro tem a chave do sexo (ou da arte, se preferimos), o judeu, a do dinheiro (ou do empreendimento). São fantasias comunicantes, por isso o antinegro é sempre um antissemita, e vice-versa.

Negros e judeus foram forçados ao êxodo, à diáspora, à violência extrema e ao preconceito institucionalizado.  No Rio, judeus encontraram negros na Baixada Fluminense, na Zona Oeste, na Linha Auxiliar e, com destaque, na Cidade Nova. O local, chamado no início do século 20 pequena África, agora exibia sinagogas, armazéns e açougues casher, mercearias, alfaiatarias, pensões em que se falava ídish.

Quando menino, só conheci judeus do Velho Testamento. Me impressionava, principalmente, Miriam , que dançava de alegria – e minha mãe, seguindo o preceito protestante radical, nos proibia de dançar, era coisa do mundo.

Me impressionava também o “judeu da prestação”, sob sol e chuva, fazendo mistério do sabãozinho de seus pais, mortos pelo nazismo.

Transformei essa experiência de menino em uma novela juvenil, O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta. Recebeu o Prêmio Jabuti 2008, talvez pela compaixão que brota de suas páginas. Um menino negro do morro, Albino, se faz amigo e cúmplice de Isaque, que volta todo  mês em sua ronda de mascate. Albino o defende do preconceito e maldade dos outros. Isaque diz ter um sabãozinho das cinzas de seus pais. Entram em cena um barbeiro trotskista, um sargento da polícia especial da ditadura (a história se passa no final da Segunda Guerra, sob o Estado Novo).  Há uma mulher negociada por dois homens, um embrulho de jornal misterioso. Em breve a ditadura seria desmontada. Época de esperança na paz mundial e partilha da Palestina entre judeus e não judeus.  Ninguém sofreria mais por pertencer a “raças” diferentes, ter religião diferente, sentir ou pensar diferente. Não conto o desfecho.

Tive um amigo que se criara na Praça Onze, entre imigrantes judeus, um ator estupendo, Procópio Mariano, já falecido. Procópio andava atrás de uma fórmula de ascensão social dos negros. Via, desde criança, parentes e vizinhos derrotados. Mesmo o teatro, o cinema e a televisão, limitando os papéis de negros a empregadas, choferes e policiais, não o levariam à estabilidade profissional.

Só há uma fórmula, me disse certo dia: “O negro tem de ser como o judeu: inteligente, solidário um com o outro. E comerciar, comerciar, comerciar.” E saiu balançando o seu corpo de soba, com uma maleta de roupas usadas.

 

Joel Rufino dos Santos é escritor e historiador.

 

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