A foto, a história - Boletim ASA nº 125, jul-ago/2010

 

O beijo da esperança

Renato Mayer / Especial para ASA

 

O mais que sexagenário beijo da esperança.  Este deveria ser o título, hoje, da histórica foto de Alfred Eisenstaedt  (1898-1995), feita em 14 de agosto de 1945, na Times Square de Nova York, próximo à Rua 45.  Celebrava-se o fim da guerra no Pacífico e este fotógrafo da  revista Life, um judeu alemão naturalizado que imigrara para os EUA dez anos antes, tinha razões de sobra para  contentamento.  Ferido em 1917,  em Flandres, o resto do seu batalhão fora dizimado por uma ofensiva britânica.  Por entender o horror das guerras, Eisenstaedt escolheu encerrar esta com um beijo.

E os personagens, a enfermeira, o marinheiro,  quem seriam?  Anônimos, nem mesmo se conheciam naquela eufórica manhã em que o presidente Truman anunciou oficialmente a vitória sobre o Japão. Nos anos que se seguiram, vários pretenderam o papel.  Do lado feminino,  Edith Shain, atualmente com a idade de 91,  escreveu a Eisenstaedt no final dos anos 1970 e a Life deu-lhepraticamente o crédito, passando a procurar o parceiro.  Este apareceu somente em 1995, na forma do então policial aposentado da Flórida Carl Muscarello.  A rede de televisão norteamericana CBS promoveu o encontro, por ocasião dos 50 anos do final do conflito, e os dois repetiram a cena do beijo, reproduzida nos jornais da época.

Edith o reconheceu por perguntar aos pretendentes se recordavam como tinha sido o beijo e o que havia sido dito depois dele. Alguns disseram que a convidaram para sair ou pediram seu telefone.  Muscarello passou no teste: na ocasião, deu um daqueles longos,   cinematográficos,   não disse uma   palavra e mergulhou  de  novo na multidão. “Naquele dia estava muito contente e beijei muitas mulheres”, declarou.  Essa versão bate, aliás, com a de Eisenstaedt que havia visto o marinheiro a beijar todas as  que encontrava diante de si.  Correndo à frente dele com sua Leica, o fotógrafo finalmente obteve, em poucos segundos e  em uma sequência de quatro fotos, a adequada composição e o contraste de preto e branco.  Imagem esperançosa de novos tempos, deu capa na Life.

Ele, porém, não foi o único a fazer a foto.  Curiosamente, um outro fotógrafo, este da Marinha, Victor Jorgensen, retratou a mesma cena.  O resultado, mais acinzentado e com menos contraste, não é tão bom e caiu em domínio público, desprotegido de direitos autorais, por ter sido produzido por um funcionário do governo a serviço.  Mas saiu publicado no The New York Times no dia seguinte. 

Neste mesmo jornal,  Edith reacendeu a questão, ao contar, em 2005, que não podia ter certeza de que era Muscarello o marinheiro beijador  :  “Simplesmente, não sei dizer.”   Fosse ele ou outro, havia combatido por ela, não lhe recusaria o beijo.

Eisenstaedt prosseguiu em sua carreira de sucesso: fotografou Hemingway, Churchill, Marilyn Monroe.  Em seus tempos de Alemanha (nasceu em Dirschau, na Prússia, uma cidade que agora fica na Polônia), havia fotografado Marlene Dietrich, mas a ascensão do nazismo lhe prometia o mais sombrio futuro.  “A velha Europa era bela”, dizia.  “Havia gente interessada em arte e música.  Então, esse pessoal horrível tomou o poder.”

Um fotojornalista incomparável, dotado de senso poético e temperamento agradável, assim o tinham em conta os seus colegas.  Seguia uma norma, a qual talvez o tenha ajudado a alcançar a idade quase centenária: “Não force as pessoas.  É mais importante clicar com elas do que com a câmera.”

Esta é uma foto que não merece envelhecer.  Ficou como um legado de que  o amor  é o verdadeiro elo que une os homens.  No entanto, no mesmíssimo local, neste cenário conhecido como “a esquina do mundo”, tão iluminado que se pode vê-lo das maiores alturas, hoje se largam carros-bomba... À humanidade ainda fazem muita falta os beijos.

              

Renato Mayer, economista, é colaborador deste Boletim.

 

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