Argentina - Boletim ASA nº 123, mar-abr/2010

Um país inimaginado    

Nerina Visacovsky / Especial para ASA

                           

ANo artigo anterior do boletim ASA afirmamos que, em 1957, a Organização Feminina do ICUF (OFI) se jactava de ter lutado com firmeza contra “as frias paredes da opressão peronista e a ignóbil reação judaica”; mas longe estavam de imaginar as características dos governos autoritários e as “ignóbeis” atuações judaicas que entrariam em cena poucos anos depois. Vejamos então a quê  nos referíamos.

Em princípios de 1953, o governo peronista começava a perder estabilidade política e econômica. Aos conflitos do presidente com a Igreja se somavam a oposição partidária e os militares antiperonistas. A morte de Evita, em 1952, a grave crise econômica e os conflitos sindicais que se acentuavam com repetidas greves foram conduzindo ao golpe militar de setembro de 1955. Do ponto de vista político, a oposição, entre 1946 e 1955, foi o Partido Radical, mas, no plano ideológico, o antagonismo residiu no alinhamento socialista-liberal, no qual uma grande parte da esquerda se reconhecia. Do mesmo modo que todo o espectro icufista, as mulheres da OFI também manifestavam sua oposição ao governo de Juan Domingo Perón.

Dentro da comunidade judaica existia uma influente organização de tendência pró-peronista denominada Organização Israelita Argentina (OIA). Seus membros eram vistos pelo icufismo como “reacionários e traidores” dos princípios de “unidade” que a comunidade devia manifestar no combate ao antissemitismo. O ICUF acusava a OIA de “esquecer” que “Perón havia apoiado o Eixo”, havia permitido a entrada de “numerosos nazistas como refugiados” e se mostrava “amigo” do “imperialismo norte-americano”. Por outro lado, o ICUF acusava a DAIA de atitude “hipócrita” por insistir numa posição “apolítica” ao mesmo tempo em que enviava mensagens a Perón explicando que a entidade nada tinha a ver com as “pró-comunistas” ‒ uma referência às icufistas ‒ e que estas já haviam sido expulsas da kehilá em 1952.

O certo é que o peronismo era um fenômeno complexo e que, embora acolhesse grupos de direita nacionalista com atitudes antissemitas, Perón os condenava publicamente.  Nas páginas do periódico La Prensa, vários intelectuais judeus apoiaram Perón durante a sua segunda presidência. Foram os casos de César Tiempo, Bernardo Koremblit e León Benarós, entre outros. Além do mais, pela primeira vez na História  argentina, judeus foram admitidos como funcionários do governo, caso do subsecretário do Ministério do Interior Abraham Krislavin. Inclusive, vale a pena destacar que, por volta de 1954, os portadores do antissemitismo eram os nacionalistas ultaconservadores opostos ao governo. De fato, depois do golpe, uma revista neonazista qualificava o peronismo como “um sindicalismo hebreu com tendência à esquerda”. Contudo, as expectativas do icufismo quanto à derrocada de Perón foram breves. A autoproclamada “revolução libertadora”, que se estendeu de setembro de 1955 a fevereiro de 1958, teve como primeiro presidente o militar Eduardo Lonardi, próximo aos católico-nacionalistas, que tentou em vão fazer acordos com o sindicalismo e a CGT. Pouco depois, foi derrubado, e assumiu uma facção mais dura, que, sob o comando de Pedro E. Aramburu e Isaac Rojas, proscreveu o justicialismo e interveio nos sindicatos. O governo impôs o estado de sítio e a lei marcial, e reprimiu com fuzilamentos o levante da resistência peronista em junho de 1956. Com o propósito de se diferenciar do “autoritarismo justicialista”, os militares convocaram eleições partidárias “sem peronistas”. Com o Partido Radical fracionado e o peronismo proscrito, o candidato da Unión Cívica Radical Intransigente UCRI), Arturo Frondizi, surgiu como uma figura “progressista”, que iludiu os icufistas com a idéia de que “finalmente chegou  a hora de vencer a reação”. Frondizi assumiu a presidência em 1958 e contou com o apoio da esquerda, só que logo desiludiu os seus entusiasmados eleitores. As promessas “anti-imperialistas” foram frustradas quando impulsionou a entrada de capitais estrangeiros para instalar um programa desenvolvimentista. Embora Frondizi tenha atendido  a um apelo histórico da esquerda imigrante, anulando a Lei de Residência 4144, seu programa econômico era contrário às demandas dos trabalhadores. Enquanto crescia a polarização entre peronistas e antiperonistas, nos bastidores do governo os militares continuavam dominando, e, em 1960, Frondizi avalizou o estabelecimento do Plan de Conmoción Interna Del Estado (CONINTES) para combater os “distúrbios” internos. Nesse marco, a ideologia comunista ou qualquer simpatia pela Revolução Cubana eram consideradas graves expressões de “subversão”. Assim como nos Estados Unidos, as Forças Armadas assumiram a “doutrina de segurança nacional”, pela qual cada país tinha um inimigo interno que devia ser aniquilado. Contudo, aquela investida contra o comunismo não era exclusiva do cenário argentino ‒ muito menos do frondizismo ‒, mas parte de um movimento político-econômico que afetava toda a América Latina. No grave cenário de violência e antissemitismo de 1961, acentuado pelo conflito decorrente do sequestro de Eichmann, o governo perdera todo o apoio político. As pressões que levaram ao golpe que derrubou Frondizi eram provenientes de diferentes atores sociais. Seguiu-se  um período que teve como pano de fundo a luta interna nas Forças Armadas, que culminou com a convocação de eleições em 1963.   Com o peronismo mais uma vez proscrito, venceu o líder da UCR do Povo, Arturo Illia. Seu mandato foi interrompido em 1966 por um novo governo de facto autodenominado “Revolução Argentina”, a mando do general Juan Carlos Onganía. A ditadura se prolongaria até 1973 e se constituiu numa brutal antecipação do que sobreviria em 1976. Os fatos mais violentos da forte repressão a universitários e trabalhadores empreendida por Onganía foram “la noche de los bastones largos” , em 29 de julho de 1966, e a repressão à explosão social de maio de 1969, conhecida como o “Cordobazo”. Em 1973, num clima de intensa violência social, a convocação de eleições deu a vitória à fórmula Héctor Cámpora-Vicente Solano Lima. Cámpora habilitou o justicialismo e cumpriu o desejo de muitos argentinos: ver o retorno de Perón ao país. Definitivamente, o período que se estendeu de 1955 aos episódios de 1973 se caracterizou por uma sociedade dividida entre os peronistas e os artífices de projetos “desperonizadores”, militares e civis, com a violência aumentando até  o paroxismo dos anos 1970. Enquanto até 1966 os governos autoritários se mostraram fracos e tendentes a restabelecer as vias democráticas sem peronismo, a partir do golpe de Onganía e até as eleições convocadas pelo general Agustín Lanusse, as Forças Armadas fecharam todos os canais possíveis para o funcionamento democrático das instituições políticas. Desnecessário torna-se explicar por que grande parte do arco liberal-socialista, desde meados da décadas de 1960, añoraba os tempos do governo peronista.

Passemos às “ignóbeis” atuações da comunidade judaica. Desde a citada expulsão de 1952, os enfrentamentos entre sionistas e progressistas foram aumentando até a crise internacional produzida pela Guerra dos Seis Dias, em 1967. A política divisionista das organizações centrais se tornou mais intensa a cada ano. As entidades que aderiram à AMIA e à DAIA recebiam o apoio econômico do Estado de Israel e cumpriam os seus objetivos políticos e econômicos. A campanha de desprestígio contra o ICUF atingiu o ponto máximo em meados dos anos 1970, enquanto o “triplo A” (Aliança Anticomunista Argentina), a mando do “bruxo” José López Rega, desencadeava as mais violentas ações terroristas contra os comunistas e peronistas de esquerda. A organização paramilitar de direita ultranacionalista gerava temor no público icufista, e a DAIA declarava  nos jornais mais importantes, como Clarín e La Nación,  que era “apolítica” e que se opunha  radicalmente e condenava os “grupos judeus pró-comunistas abrigados no ICUF”. As crianças e os jovens frequentadores da colônia de férias Zumerland interromperam abruptamente essa atividade no clima instalado em 1974 e 1975, enquanto a Organização Feminina do ICUF e a última das escolas em ídish desapareceram para sempre.

Cabe perguntar quanto daquele desgosto produzido pela perseguição política foi determinante do grande equívoco dos dirigentes icufistas. Estes, em 1976, acreditaram que, diferentemente de Pinochet, o nefasto general Jorge Rafael Videla era um “militar progressista”, que prometia acabar com a terrível onda de violência cotidiana. A triste história dos argentinos a partir desse ano é bem conhecida. Entre os 30 mil desaparecidos registrados no informe da CONADEP, cerca de 10% eram de origem judaica. As torturas específicas que aqueles jovens sofreram por essa condição ainda estão sendo investigadas.

Como dissemos no artigo do Boletim 122, longe estavam as mulheres da OFI, em 1957, de imaginar a Argentina autoritária e sangrenta que se apresentaria alguns anos depois.            

Nerina Visacovsky é docente e pesquisadora da Escola de Política e Governo da Universidad Nacional de San Martín.

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