Sionismo - Boletim ASA nº 123, mar-abr/2010

Pró, não e anti

Bennett Muraskin / Outlook

 

Quatro grupos de judeus tradicionalmente se opunham ou não apoiavam o sionismo:

  1. os reformistas, que acreditavam que os judeus eram uma fé religiosa e não um povo ou uma nacionalidade, e deveriam integrar-se às sociedades em que viviam;
  2. os ultraortodoxos, para quem os judeus não deveriam retornar a Sion até a chegada do Messias;
  3. os socialistas, comunistas e anarquistas, para quem os judeus se dividiam em classes, e era missão da classe trabalhadora judaica permanecer nos países onde viviam a fim de se unirem aos revolucionários não judeus para derrubar o capitalismo;
  4. os culturais, para quem os judeus floresciam melhor em comunidades judaicas autônomas dentro de sociedades democráticas que respeitassem os direitos dos judeus.

Dos quatro “pais fundadores” do judaísmo secular ‒ I. L. Peretz, Simon Dubnow, Chaim Zhitlovsky e Ahad Haam ‒, os três primeiros eram judeus culturais (Peretz era também socialista) e o último, um sionista cultural que não acreditava na necessidade de um Estado judaico.

Até a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos judeus politicamente ativos no mundo era não sionista, e, no movimento judaico secular, dominado por pessoas que se enquadravam nas categorias 3 e 4, a percentagem era bem mais alta. Quando Israel foi estabelecido, quase todos eles deram o seu apoio, mas não significou que tenham se tornado sionistas.

Entre muitos destacados críticos judeus do sionismo (alguns dos quais se consideravam sionistas, mas eram favoráveis a um Estado binacional, em vez de judaico) figuravam Judah Magnes, Hannah Arendt, Henrietta Szold, Isaac Deutscher, I. F. Stone, Hans Kohn, Albert Einstein e Martin Buber. O binacionalismo foi a plataforma central do movimento sionista socialista Hashomer Hatzair, no período que antecedeu o estabelecimento do Estado de Israel.

Havia antissionistas em Israel no movimento canaanita, ativo na década de 1950 e composto de judeus que pretendiam criar uma nação hebréia que retornasse às suas alegadas raízes semitas, e no Matzpen, organização socialista revolucionária ativa nos anos 1960 e 1970. Há judeus hoje, em Israel, que acreditam que o Estado deveria ser de todos os seus cidadãos, e não apenas dos judeus.

Assim como nem todos os judeus são sionistas, nem todos os sionistas são judeus. Cristãos fundamentalistas e evangélicos nos Estados Unidos encontram-se entre os sionistas mais fervorosos. No início do século 20, o sionismo foi bem popular entre os cristãos britânicos. Gentios que desejam ver menos judeus em seus  países estão entre  os maiores entusiastas do sionismo.

O sionismo reivindicou ser a solução para o problema judaico através do mundo, e, de fato, Israel tem garantido um lar para muitos judeus em situação angustiante. Mas não se pode negar que, desde 1948, vem se mostrando o endereço judaico mais perigoso.  Na qualidade de autoproclamado Estado judeu, avidamente respaldado por líderes judeus na Diáspora, seus equívocos são prontamente imputados aos judeus de fora. Neste sentido, pode-se dizer que o sionismo provoca antissemitismo.

Mais ainda, os sionistas com frequência agem de forma contrária aos interesses dos judeus na Diáspora. Por exemplo, opuseram-se a políticas de livre emigração em outros países por considerar que desviariam os judeus da imigração para a Palestina / Israel. Isso foi verdadeiro durante o Holocausto e no pós-guerra. Alguns sionistas tiveram uma história de abstenção da luta contra o antissemitismo porque concordavam com a posição dos antissemitas de que os judeus eram um corpo estranho na Europa que deveria ser removido.

O sionismo também pretendeu libertar os judeus da dependência dos outros povos, mas não fossem o Império Britânico (a Declaração Balfour e o mandato britânico) e as Nações Unidas (a resolução da Partilha), não haveria Israel. A pesada dependência dos EUA desde 1967 é autoevidente. Os EUA foram também, inadvertidamente, responsáveis pela imigração judaica para a Palestina a partir dos anos 1920. Devido à restrição imposta pelos EUA à imigração judaica, de 1924 até o começo dos anos 50, a maioria dos judeus europeus que fugiam da perseguição antissemita não tinha outra escolha a não ser ir para a Palestina / Israel.

Estas são as diferenças básicas que vejo entre judeus sionistas e judeus não sionistas:

  1. Os judeus sionistas têm maior probabilidade do que os não sionistas de acreditar que a maioria dos não judeus ou é ativamente antissemita ou é antissemita em potencial e que a única forma de os judeus estarem seguros é no seu próprio Estado, onde sejam maioria e detenham o poder. Os não sionistas, com maior probabilidade, acreditam que judeus e gentios não precisam desconfiar uns dos outros, temer uns aos outros ou odiar-se mutuamente, e que os judeus podem viver em segurança como pequenas minorias em países dominados por maiorias não judaicas.
  2. Os judeus sionistas acham que Israel é o centro do universo judaico e que a vida judaica na Diáspora é menos autêntica do que a levada em Israel. Para os não sionistas, a vida judaica na Diáspora pode satisfazer tanto quanto em Israel.
  3. Para os judeus sionistas, Israel e o Holocausto são as pedras fundamentais da identidade judaica. É mais provável que os não sionistas enfatizem a centralidade   dos direitos humanos e da justiça social.
  4. Os judeus sionistas acreditam que os da Diáspora têm o dever de imigrar para Israel ou de apoiá-lo financeira e politicamente. Os não sionistas optam por viver na Diáspora e apoiarão ou se oporão a Israel de acordo com a conduta do país.
  5. Os judeus sionistas promovem uma versão da História judaica que enfatiza a importância da soberania judaica  na Israel antiga e na moderna, denegrindo a experiência na Diáspora como sendo de exílio e humilhação. Os não sionistas promovem a versão que enfatiza a adaptação das comunidades judaicas aos ambientes não judaicos e veem na experiência diaspórica um enriquecimento cultural e espiritual.
  6. Os judeus sionistas consideram que o hebraico moderno e a literatura hebraica figuram entre as melhores criações da cultura judaica. Provavelmente os não sionistas sentem o mesmo em relação ao ídish.
  7. Os judeus sionistas são fundamentalmente nacionalistas, que dão mais valor        a uma vida judia do que a uma palestina. Em decorrência,  é mais provável que advoguem o uso da força contra os palestinos e o mundo árabe. Os não sionistas são fundamentalmente internacionalistas, que dão o mesmo peso à vida judia e à não judia.

É verdade que há sionistas de esquerda que aderem aos não sionistas no reconhecimento dos direitos dos palestinos, bem como no reconhecimento da diplomacia e do compromisso como meios para alcançar a paz no Oriente Médio. Fazem-no, porém, mais por acreditar que é do interesse dos judeus de Israel do que por uma preocupação com os direitos humanos em geral.

Não creio que o antissionismo seja uma opção viável para os judeus progressistas. Quase todos os seis milhões de judeus que vivem em Israel desejam permanecer num Estado judaico, e o nacionalismo hoje no Oriente Médio continua forte. Simplesmente, não há, no momento, freguesia  para um Estado binacional ou um Estado único para judeus e palestinos. No entanto, a tentativa sionista de igualar sionismo a judaísmo e de ofender os dissidentes classificando-os de antissemitas precisa ser repelida. Um não sionismo (ou, talvez, um termo melhor fosse “pós-sionismo”) que respeite o direito dos judeus israelenses à autodeterminação, no contexto de uma solução de dois Estados, e que garanta direitos iguais para os cidadãos palestinos de Israel é um imperativo ético judaico.

 

Bennett Muraskin escreve regularmente para Jewish Currents, Humanistic Judaism e Outlook.

 

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