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Pessach - Boletim ASA nº 123, mar-abr/2010

Conversa ao pé da matsá    

Jacques Gruman / Especial para ASA

 

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal, disse Gabriel Garcia Marquez. Assim ele resume como hoje se distorce o sentido da data máxima da cristandade. O grande escritor atribuiu o fato a uma “operação comercial de proporções mundiais, que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural”. Tudo se transforma numa frenética troca de presentes e, não raro, de reuniões e sorrisos forçados. A introspecção é substituída pela euforia, a tradição dá lugar aos modismos ditados pelos meios de comunicação e o comércio. Conclui Gabo, com ironia: “Não é raro ver crianças que acreditam que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos”.

Será que coisa parecida acontece conosco, os judeus? Procuramos os significados das nossas tradições ou apenas repetimos, mecanicamente, a rotina das celebrações, cada vez mais carregadas de valores mercantis? A pompa que cerca, por exemplo, muitas festas de bar mitsvá, vulgariza este antigo ritual de passagem. O excesso de luxo – e falta de conteúdo – faz lembrar uma das últimas cenas da novela Roque Santeiro. O personagem Zé das Medalhas, embriagado pela cobiça, termina solitário e se afoga numa montanha de medalhas.

Estamos nos aproximando do Pessach, que muitos consideram a mais popular das festas judaicas. Ignoro quantas famílias se reúnem para não só ler a Hagadá, mas também conversar sobre seus muitos significados. Minha família original não tinha esse hábito. Apenas nos encontrávamos para ler uns poucos trechos. Cumprido o protocolo, caíamos de boca no banquete, como de hábito superdimensionado pelo departamento feminino. Minhas memórias infantis e adolescentes são de paladar e olfato, não de leitura ou deslumbramento. Os adultos, bem, eles já sabiam da história, pareciam mesmo entediados, e nada havia a acrescentar. A conversa boa, quando havia, vinha depois da compot. E não era, posso garantir, sobre Moisés.

Os povos têm seus mitos fundadores. São como magnetos, que, mesmo inverossímeis ou carentes de evidências, criam uma força integradora, que aproxima, identifica e dissolve diferenças. Veja-se o Êxodo. Não existe comprovação de que ele aconteceu tal como narra a tradição. Mais de cem anos de extensa e intensa investigação histórica e arqueológica na região do delta do Nilo não revelaram um único traço desta narrativa. Não existe nenhum registro dela nas crônicas egípcias daquele tempo. Arqueólogos israelenses vasculharam minuciosamente as areias do deserto do Sinai entre 1967 e 1982. Não descobriram um vestígio sequer da suposta jornada de 40 anos. Apesar disso, a história continua a ser contada. O rabino norte-americano Peter Schweitzer pergunta: “Se não podemos aceitar o êxodo como um fato histórico, pois sabemos que ele é uma lenda, por que continuamos a contar a história? Como manter, nesse caso, nossa honestidade intelectual?”

Não há resposta simples. Quem disse que viver é simples? Gosto de pensar que vale a pena ler a tradição como quem lê uma poesia. É mais importante sentir do que  exibir o selo de autenticidade. No Pessach, sinto a aragem da liberdade e da travessia. Os judeus seculares e de esquerda que chegaram aos Estados Unidos no final do século 19, tinham uma posição desafiadora (alguns diriam ingênua ou pueril): para provar que se desligavam do “atraso religioso”, comiam ostensivamente no Iom Kipur e, no Pessach, serviam-se de pães e bolos preparados com farinha comum. Com o tempo, perceberam que o sectarismo apenas os afastava daqueles que, mesmo sem serem judeus praticantes, gostavam de celebrar respeitosamente algumas tradições de seus pais e antepassados. Chaim Zhitlovsky escreveu um ensaio em que exortava os não religiosos a reconhecer a importância de certos valores da religião judaica. Tudo isso convergiu para o surgimento do driter seder, o jantar de Pessach organizado pela companheirada, fora dos jantares de família. Neles, passaram a ser lidas hagadot com forte viés político, de que é um exemplo magnífico o texto publicado pelo Bund (União dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia), em abril de 1900. O êxodo inspirava os libertários.

A travessia imaginária do Sinai por quatro décadas é pura poesia. Já imaginaram os problemas logísticos para alimentar, dar de beber, vestir e abrigar cerca de 600 mil pessoas num ambiente árido e hostil? Sugiro descer dois degraus abaixo da superfície. Certa vez, o psicanalista Hélio Pellegrino comentou que não se deve subestimar o poder do conservadorismo. Mesmo quando alguém sabe que uma situação é insustentável, prefere muitas vezes mantê-la. Ao menos não precisa enfrentar a incerteza do novo, do desconhecido, da mudança. Atravessar o deserto em busca da Terra do Leite e do Mel, ou seja, de uma abastança inédita, demandou coragem. Como disse um estudioso das tradições, foi preciso tirar o Egito de dentro dos judeus. Olhando assim, o Pessach nos encoraja a empreender uma travessia, a desafiar a inércia e descobrir sentidos para a vida. Não é pouco, nesta sociedade do espetáculo, que convida à preguiça.

 

Jacques Gruman é diretor da ASA e colaborador deste Boletim.

 

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