Beco da mãe - Boletim ASA nº 123, mar-abr/2010

Novas luzes em tablóide

Henrique Veltman / Especial para ASA

                

Sou do tempo em que o Centro do Rio, isto é, a Praça Floriano ou Cinelândia, era o espaço cosmopolita de manifestações políticas e culturais, o palco da boemia carioca. Na Rua Álvaro Alvim, ali do lado, ficava a sede do Clube dos Cabiras, uma página heroica do judaísmo progressista carioca.
Símbolo desse bom tempo era o Bar Amarelinho. Parece que ele foi criado em 1921. Nunca dei muita bola pro chope e os petiscos do bar, mas sim ao ponto de encontro que ele era. Reduto da boemia carioca, o Amarelinho era democrático, recebia gente de todos os tipos, personalidades, artistas, políticos, juízes, turistas, e até gente comum.

Nos anos 1950, a vida literária no Rio de Janeiro era intensa. Romancistas, poetas, críticos se reuniam para tomar uma bebida, relaxar e jogar conversa fora. Poetas e escritores de estéticas tão diversas e distantes quanto Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Mario Lago, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e Jorge de Lima.

Foi nas mesas do Amarelinho que eu, ainda adolescente, conheci de perto a musa do existencialismo, Juliette Gréco. Vestida de preto, qual viúva siciliana. O poeta Gastão de Holanda me cutucou e disse: “Sente o cheiro? Ela não toma banho há séculos...”
Mas o Rio de 1952 começou a dar um banho de loja na Gréco, até de Cadillac rabo de peixe ela desfilou, num merchandising clandestino do Jean Manzon...
Mas um dia, as diferenças ideológicas se impuseram, e comunistas e simpatizantes abandonaram o Amarelinho, cruzaram a Praça Floriano e, na Rua Araújo Porto Alegre, inauguraram o Vermelhinho.

O terreno neutro e regado a uísque ficou, contudo, mais adiante, no Lidador, quase em frente à embaixada americana.
Dá pra acreditar ?

 

A Esquerda festiva

Esquerda festiva foi a expressão usada, de forma irônica, para designar, especialmente a partir da ditadura militar, socialistas e comunistas, geralmente estudantes, artistas e intelectuais, que não tomaram parte da ação contra o regime, mas que defendiam sua derrubada em bares e festas.
O Zuenir Ventura conta em seu livro 1968, o ano que não terminou, que a expressão teria sido inventada pelo colunista Carlos Leonam em 1963. O ministro San Thiago Dantas declarou a ele que havia duas esquerdas no Brasil: “a esquerda positiva e a esquerda negativa”. Leonam replicou: “Tem outra esquerda, é a esquerda festiva”. A expressão foi publicada no JB, na entrevista com o ministro.
Já o Roberto Campos comentava: "É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola..."

A esquerda festiva foi genialmente retratada nas tiras em quadrinhos Chopnics, da dupla Jaguar e Ivan Lessa, publicadas no O Pasquim dos anos 1970.

 


Os cafés de Viena

Quando a gente lê os livros de Elias Canetti, surgem os cafés de Viena, locais preferidos dos artistas, escritores e políticos de esquerda, geralmente comunistas.

No princípio do século passado, Viena era a capital do Império Austro-Húngaro, com uma vida cultural intensa, em alguns casos superior à de Paris e Berlim. A cidade era animada por um time de intelectuais e artistas, em sua maioria, judeus. Os cafés reuniam jornalistas, poetas, romancistas, pintores e arquitetos famosos, muitas vezes acompanhados de mulheres, bonitas ou inteligentes (às vezes, bonitas e inteligentes). A esse público juntavam-se também médicos e psicanalistas, políticos social-democratas e revolucionários bolcheviques, mas também grupos de antissemitas, futuros nazistas.

Por exemplo, o Café Central, situado no rés-do-chão do palácio Ferstel, na Herrengasse, fundado em 1876, encerrado em 1943 e reaberto, novamente, em 1982. Eis aqui os nomes de alguns dos frequentadores mais famosos do Café Central, da sua época dourada, anos 1900, até o advento do nazismo:

Viktor Adler (1852-1918), cofundador do partido social-democrata austríaco. Social-chauvinista durante a I Guerra Mundial, não se entendeu bem com Trotsky, que conhecera e ajudara em 1907. Era pai do Friedrich Adler, que divergiu politicamente dele.

Friedrich Adler (1879-1960), político social-democrata e revolucionário austríaco, filho de Viktor Adler. Foi opositor da política de guerra e, em 1916, matou o primeiro ministro da monarquia Austro-Húngara, conde Karl von Stürgkh. Mas cumpriu apenas um ano de prisão, graças ao término da guerra.

Otto Bauer (1881-1938), político social-democrata, uma das figuras de proa do marxismo austríaco. Depois de participar em governos dos socialistas cristãos, Bauer chefiou a resistência ao fascismo de Dollfuss e partiu para o exílio em Paris,em 1934, ali morrendo meses depois do Anschluss.

Lev Davidovitch Bronstein, o Trotsky, viveu em Viena de 1907 até 1917. Era cliente fixo do Café Central, onde habitualmente jogava xadrez. Discutia ali política com os socialistas austríacos, mas viria a ter má opinião deles, por não serem revolucionários. Em outubro de 1917, o presidente do governo austríaco, conde Heinrich Clam-Martinic, anunciou aos seus pares a eclosão da revolução bolchevique na Rússia, acrescentando que “o seu instigador foi, ao que parece, o senhor Bronstein do Café Central”.

Alfred Adler (1870-1937), médico, psiquiatra, psicanalista. Rompeu em 1911 com Freud, com quem em 1902 havia fundado a Sociedade Psicanalítica de Viena. Alfred Adler fumava o seu charuto no Central, mas Freud preferia o Café Landtmann.

Sigmund Freud frequentava às vezes o Café Central. Poderíamos imaginá-lo sentado a uma mesa de canto com a sua discípula, amiga e admiradora Lou Andreas-Salomé.

Theodor Herzl (1860-1904), natural de Budapest, viveu em Viena. Foi o fundador do moderno sionismo político. Foi sucedido na liderança do movimento o húngaro Max Nordau.

Peter Altenberg (1859-1919), boêmio e escritor judeu, está imortalizado em uma estátua de papier-mâché no próprio Café Central, sentado a uma mesinha, perto da porta de entrada. Figura não convencional e extravagante, usava sandálias, vivia em hotéis, era senhor de uma gigantesca coleção de postais ilustrados (mais de 10 mil) e era tido por pedófilo. Recebia o seu correio pessoal no Café Central, mas também frequentava o Café Museum e o Café Landtmann.

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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