Argentina -Boletim ASA nº 122, jan-fev/2010

As ICUFistas (parte 1)     

Nerina Visacovsky / Especial para ASA

                           

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, muitas judias de esquerda se voltaram para o ativismo nas instituições vinculadas ao ICUF. Enquanto os homens se dedicavam às áreas de finanças e construção de edifícios, as comissões de cultura e educação eram integradas, em sua maioria, por mulheres. A Organização Feminina do ICUF (OFI), formalmente fundada em 15 de julho de 1947, postulava seu caráter autônomo e se identificava com os princípios ideológicos da União de Mulheres Argentinas (UMA). A UMA, criada também em 1947, era a  continuação da organização antifascista Junta da  Vitória. As mulheres agrupadas na Junta da Vitória ‒ comunistas, socialistas e liberais ‒ trabalharam unidas pela causa dos aliados. As icufistas seguiam diretrizes das organizações que atuaram durante a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial e no marco das políticas de Frentes Populares. Já nos anos 1920 as dirigentes comunistas e socialistas resolveram ter células autônomas para superar os problemas domésticos ‒ de filhos e histórico-patriarcais ‒ que constituíam obstáculos à emancipação feminina. Mas, no âmbito institucional idishista, foi em 1947 que Catalina Perelstein, professora das árbeter shuln, convocou cinco mulheres para estabelecer as bases da OFI. Um vasto público feminino, que participava nos leien craizn, círculos de leitura, aderiu à OFI com entusiasmo. Em Buenos Aires, os leien craizn funcionavam em quase todas as instituições. Paulina Sak dizia que constituíam verdadeiras “universidades populares” e formavam “quadros de ativistas institucionais”.

Em 11, 12 e 13 de outubro de 1957, as icufistas realizaram o seu Primeiro Congresso, após uma década de  atividade intensa. O Congresso foi aberto na noite do dia 11, no salão Rosini, de Buenos Aires. As mulheres entraram entusiasmadas, vestindo a sua melhor roupa, um distintivo na lapela e fitas azuis e brancas amarradas nos braços. Delegadas de todas as províncias argentinas, do Brasil e do Uruguai foram convocadas para debater e trabalhar em comissões um extenso temário com os problemas mais agudos da mulher e da criança. Professoras, atrizes, escritoras ou donas de casa, eram,  antes de tudo, “mulheres progressistas do povo argentino, uruguaio e brasileiro”. Destacavam-se as convidadas de honra, a companheira Yente Lerner, da Organização Feminina Israelita Brasileira, e Jana Tobiasch, da delegação uruguaia. As delegadas dos países vizinhos prometiam enriquecer o debate. A enérgica Berta Drucaroff, em seu discurso de abertura, explicou que elas encarnavam uma “luta universal” e que o objetivo central da OFI continuava sendo “atingir  amplas camadas de mulheres argentinas para elevá-las culturalmente”. Otimistas e pujantes, as icufistas afirmavam que a cada dia essa meta era alcançada graças ao trabalho dos leien craizn, às comissões femininas das escolas e “à palavra esclarecedora” da revista Di ídishe froi (A mulher judia), editada mensalmente pela OFI desde 1950.

As oradoras do Congresso destacaram as condições pouco favoráveis por que haviam passado entre 1947 e 1957, durante os anos peronistas e a autodenominada “revolução libertadora”, e lembraram os acontecimentos de 1953 e 1954, quando uma operação de repressão contra o Partido Comunista terminou com a proibição das publicações em ídish. Em consequência, ativistas e militantes foram presos, e o governo  proibiu a realização do 5° Congresso do ICUF, em 1953. Do mesmo modo, o teatro ídish IFT foi fechado  por um ano e dois importantes leien craizn,  os liderados por Teresa Guilenberg e Guitl Kanutsky, interrompidos. Contudo, os fatos não impediram que as icufistas continuassem trabalhando. Em 1956,  chegavam a 40 os círculos de leitura, com mais de mil mulheres, em Buenos Aires, Rosário, Córdoba, Mendoza e Santa Fé. Cada um desses leien craizn era constituído de um grupo que oscilava entre dez e vinte participantes. Em algumas instituições, como o I.L.Peretz de Villa Lynch e o Lar Cultural Mendele de San Martín, funcionavam dois grupos, um em castelhano e outro em ídish. Parafraseando Sarmiento, a  icufista declarava que, “para poder julgar o grau de civilização de um povo, é necessário ver antes de mais nada em que posição social se encontra a mulher”, e elevá-la culturalmente era o objetivo primordial da OFI. Não obstante, o ídish era um importante obstáculo ao “esclarecimento” das massas femininas. As mulheres, em sua maioria da terceira idade, eram ativas e militavam em ídish, o que deixava de fora as mais jovens. Logo,  o castelhano se tornou uma necessidade, passando a ocupar um espaço maior nas publicações e a ser adotado em círculos de leitura. Essa passagem idiomática permitiu que as ativistas estabelecessem canais de comunicação com as vizinhas e as trabalhadoras dos bairros onde funcionavam as suas instituições.

A revista Di ídishe froi abordava os temas gerais que, segundo seu editorial, “tinham” que interessar às mulheres argentinas nos anos 50: o desejo de contar com os benefícios sociais da mulher soviética, a função da mulher como promotora da paz e da educação infantil, e o seu dever de lutar por uma democracia socialista. Na União Soviética, dizia Rosa Flechner, “a mulher é presidenta de um kolkhoz, chefe de brigadas, agrônoma, professora, cientista, membro do Soviete, mecânica, paraquedista, mãe e companheira. É o ser mais querido”. A idealização do mundo soviético e o papel da mulher nele nutriam o imaginário das icufistas. No Congresso de 1957, elas reeditaram o discurso das comunistas dos anos 20 e explicavam que, num ambiente “reacionário”, as mulheres eram “duplamente escravizadas”, por um lado, devido à atmosfera social, e por outro, em relação ao sexo masculino. Sua interpretação era a de que desde 1943 isto ocorria com a maioria das argentinas. Contudo, reconheciam que não era o caso  delas próprias, porque o seu âmbito de socialização progressista lhes permitia viver em condições iguais às dos homens. Vale como exemplo a lembrança de uma aluna da escola de Villa Lynch, segundo quem seu pai preparava o jantar para ela e os irmãos enquanto sua mãe participava do leien craiz à noite. Era uma experiência vanguardista para os anos 50. As comissões femininas tinham um lugar importante nas instituições do ICUF, e as mulheres ocupavam cargos relevantes, inclusive a presidência da entidade. E ainda defendiam uma responsabilidade em relação a suas compatriotas argentinas: “despertá-las do sonho letárgico ao qual se encontravam submetidas pela reação, que as mantinha isoladas e atrasadas”.

No plano intracomunitário, as icufistas competiam com as sionistas da Organização Sionista Feminina Argentina (OSFA) a fim de captar o público idishista. A OFI se interessava também pela questão israelense, mas criticava o sectarismo das sionistas, que, preocupadas exclusivamente com a vida em Israel, negavam a mulher argentina. Em 1948, as icufistas participaram na Campanha Popular para a criação de moradias e jardins de infância no novo Estado, ainda que se opusessem a colaborar com a Campanha Unida, liderada pelo Keren Kaiemet LeIsrael e cujos fundos financiavam o exército. Nas páginas da Di ídishe froi,  as icufistas convocavam as mães israelenses a lutarem pela paz e a não enviarem seus filhos para a guerra. Desde 1953, no marco da Guerra Fria, reiteradas notas do caso Julius e Ethel Rosemberg apareceram identificando Ethel como mãe, judia e militante comunista. Ethel Rosemberg se somava à lista de mulheres e mães vítimas da “reação fascista do imperialismo”, que em meados dos anos 50 “oprimia os povos do Oriente Médio com a colaboração do governo israelense”. Nesse sentido, as mulheres da OSFA eram criticadas por colaborar com a política bélica do Estado e cegar as suas seguidoras a respeito de sua condição de “argentinas”.

Assim como as mulheres da OSFA respondiam a um movimento internacional ‒ a Women International Zionist Organization (WIZO), as icufistas da OFI participavam da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM) e do Congresso Mundial pela Paz. Nessas organizações, criadas no pós-guerra, participavam delegações de vários países, mas, no clima da Guerra Fria, a sua liderança passou para a órbita soviética. Segundo a lérerque Leike Kogan, essas entidades eram “os farois que indicavam o caminho a ser seguido”. Graças as esses “farois”, a mulher judia da América Latina havia conquistado um lugar de destaque na vida social e cultural. Na Argentina daqueles anos, a judia progressista precisava continuar lutando pela democracia e a paz de todas as mulheres,  para além de seu idioma, etnia ou religião. A Organização Feminina do ICUF pensava ter lutado com firmeza contra “as frias paredes da opressão peronista e a ignóbil reação judaica”. Contudo, longe estavam aquelas mulheres de imaginar as características dos governos autoritários e as “ignóbeis” atuações judaicas que entrariam em cena poucos anos depois.

(continua no próximo número)

Nerina Visacovsky é docente e pesquisadora da Escola de Política e Governo da Universidad Nacional de San Martín.

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