Purim -Boletim ASA nº 122, jan-fev/2010

Como o Cabrito Voador

David Shafer

 

Woody Allen escreveu certa vez a respeito de um casal misto: ele era ateu, ela, agnóstica. Em assuntos de religião, distinções sutis podem causar mais conflitos do que as grandes diferenças.   Num extremo dessas sutilezas, Allen também escreveu sobre um monstro mítico, o Cabrito Voador, que tinha  cabeça de  leão e corpo de leão, embora não do mesmo leão.

Ao nos aproximarmos de Purim, quando se conta a história da rainha Ester, é interessante examinar quais partes foram enxertadas , como a cabeça do leão, sobre o corpo desta festa judaica principalmente  secular. É uma estranha fusão de temas pagãos e judaicos.

Ester, judia, tem um nome que é uma variante do nome pagão Ishtar (ou a deusa Vênus). O marido gentio de Ester é Assuero, um rei persa. Purim parece ter derivado de uma festa mais antiga que adorava o deus babilônico Marduk e se tornou familiar aos judeus durante o seu exílio na Babilônia. O nome do tio de Ester, Mordehai (uma variante de Marduk), mostra como as raízes pagãs da história foram ajustadas ao modelo judaico.

O que, então, faz deste um conto judaico? Muitos elementos.

História que se popularizou no exílio, sustenta-se na longa tradição dos judeus de absorver partes da cultura circundante e, ainda assim, permanecer  um povo à parte. Ela celebra o sonho judaico do triunfo da inteligência engenhosa sobre a brutalidade. Tem uma heroína adaptável, mas com uma alma leal à sua identidade  judaica e aos seus correligionários judeus em tempos de infortúnio. Ester arriscou a vida para afirmar o seu direito e o direito de seu povo de ser  do jeito que bem entendesse. Esta festa é perfeita para o casal misto de Allen.

Ela celebra uma personagem judia corajosa (a rainha Ester) e o triunfo da liberdade sobre a opressão, mas a iniciativa humana é o tema que a permeia, e não há qualquer menção ao Deus judaico. Apresenta o casamento misto de Ester, na longa tradição judaica de pessoas como Moisés e sua mulher cushita, que era provavelmente etíope ou sudanesa. Ester não sentia estar comprometendo a sua identidade judaica por se casar com um rei persa. E não deixou de afirmar essa identidade quando estourou a crise.

Purim pode ser encarado como uma celebração da solidariedade judaica em tempos de perigo, mas também como simpatia  por quem tem uma formação diferente.                 

 

David Shafer é membro da Congregation for Humanistic Judaism de Connecticut.

 

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